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Pesquisadora da UFSCar transforma diários iniciados na adolescência em livro sobre sobre escrevivência e trajetória de mulher negra
A trajetória educacional de uma mulher negra, marcada por experiências de formação, resistência e construção de conhecimento, é o ponto de partida da pesquisa de doutorado de Daiane Santos, defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Intitulada "Nem a dor, nem o sofrimento, escrevo para que eu continue sendo refeita: escrevivência, educação e memória", a tese foi orientada por Nilson Fernandes Dinis, docente do Departamento de Educação (DEd) da Instituição, e recentemente transformada em livro pela Editora Appris.
Construída a partir de diários manuscritos iniciados quando a autora tinha 15 anos, a pesquisa reúne registros produzidos entre 2012 e 2025. Ao revisitar esse material, Santos articulou passado e presente para refletir sobre educação, memória, identidade e formação humana. "Escrevi minha tese de doutorado a partir dos meus próprios diários manuscritos - iniciados aos 15 anos. A pesquisa narra minha trajetória como mulher negra pelos espaços que ao mesmo tempo me formaram e me feriram", resume.
O trabalho teve origem em reflexões desenvolvidas pela pesquisadora ainda durante o mestrado, quando investigou as infâncias retratadas na obra da escritora Conceição Evaristo. Foi nesse percurso que Santos se aproximou do conceito de escrevivência e passou a refletir sobre as relações entre experiência, memória, educação e produção de conhecimento.
"Na qualificação da minha dissertação, a banca me questionou onde estava o meu corpo naquela escrita. Eu analisava histórias, crianças e mulheres, mas a criança que eu fui e a mulher que eu havia me tornado estavam ausentes do texto. Essa pergunta foi decisiva para a construção da pesquisa de doutorado", contextualiza.
A partir desse questionamento, a pesquisadora buscou mapear e compor uma escrevivência dos espaços que constituíram sua trajetória educacional. Nas reminiscências da memória, procurou identificar as condições, os lugares e as estratégias de sobrevivência e resistência que desenvolveu para permanecer aprendendo e seguir sua formação.
Escrita, memória e formação
A noção de escrevivência, desenvolvida pela escritora Conceição Evaristo, é um dos pilares da pesquisa. O conceito articula escrita, memória e experiência vivida, propondo uma produção de conhecimento que reconhece as marcas da história, do corpo e das condições sociais de quem escreve.
Santos explica que a escrevivência não deve ser entendida apenas como uma narrativa autobiográfica. "A escrevivência não é uma escrita de si, é uma escrita de nós. Possui esse contorno de pensar uma experiência coletiva. É uma escrita que olha para dentro de nós e para nossa ancestralidade", define.
Segundo a pesquisadora, a escrita foi também o próprio caminho metodológico da investigação. Os diários pessoais, produzidos entre o ensino médio e o mestrado, foram analisados em conjunto com registros escritos durante o doutorado. A partir da leitura e releitura desse material, os textos foram transcritos, reorganizados e reinterpretados à luz da escrevivência e da interseccionalidade, considerando especialmente as categorias de raça, gênero e classe.
"Os diários eram a escrita de quem possuía a urgência de dizer, de existir pela palavra", afirma. Ao revisitar os registros produzidos ao longo da vida, ela relata ter construído um diálogo entre a adolescente que escrevia seus primeiros cadernos e a pesquisadora em formação. "Eu leio, choro, me emociono, abraço a Daiane de 15 anos que eu fui e construo um novo texto para ela, a partir da escrita do presente", descreve.
Ao longo da pesquisa, ela buscou compreender como diferentes espaços contribuíram para sua formação. A autora destaca que a tese permitiu pensar a educação a partir do próprio corpo e de experiências atravessadas por políticas públicas, como as ações afirmativas. Ela ingressou no ensino superior dois anos após a aprovação da Lei de Cotas e passou a refletir sobre como diferentes instituições participaram de sua trajetória.
"Eu não escrevo apenas sobre educação formal. Falo sobre a família, a igreja e a rua. Que marcas esses espaços deixaram em mim? O que o meu corpo aprendeu nessas experiências que constituíram parte importante de quem sou?", questiona.
Entre as principais reflexões produzidas pelo estudo, ela destaca a escrita como uma tecnologia de resistência. "Talvez esse seja o maior achado. Não se trata apenas de registrar a vida, mas de registrar-se na vida, principalmente em contextos de silenciamento e opressão. Isso é a escrevivência", afirma.
A autora também aponta o corpo como fonte de conhecimento e a importância dos deslocamentos ao longo da vida. "A carne e o corpo aparecem como fonte de saber, um saber sobre o que é sobreviver ao mundo. Além disso, o movimento - ir, sair, migrar, voltar - surge como fator importante na constituição das trajetórias."
Parte da pesquisa foi desenvolvida durante período de doutorado-sanduíche no Centro de Estudios Afrodiaspóricos (CEAF), da Universidad Icesi, em Cali, na Colômbia, experiência que ampliou os diálogos da autora com produções intelectuais de mulheres negras latino-americanas.
Contribuições para a educação e a produção do conhecimento
Para Santos, a pesquisa traz contribuições para os debates para a educação das relações étnico-raciais ao evidenciar que os espaços formativos podem ser simultaneamente locais de violência racial e de criação de possibilidades. "A escrevivência torna visíveis essas dinâmicas a partir de dentro, não como objeto de análise externa", avalia.
A pesquisadora também destaca que o trabalho dialoga com áreas como a Psicologia e contribui para reflexões sobre subjetividade e formação humana. Além disso, acredita que o estudo pode inspirar outros pesquisadores a incorporarem suas experiências aos processos de investigação acadêmica.
"Boa parte do trabalho de pesquisa é a escrita. Como escrevem as pesquisadoras e os pesquisadores? Quais são as ansiedades e angústias desse processo? Procuro compartilhar essas experiências, produzindo um registro que pode servir de referência para outros cientistas em formação", afirma.
Evento de lançamento
O lançamento da obra "Nem a dor, nem o sofrimento, escrevo para que eu continue sendo refeita: escrevivência, educação e memória" acontece no dia 13 de junho, às 16 horas, na Loja Tcha por Discos, localizada na Avenida Edgar Vieira, 640, bairro Boa Esperança, em Cuiabá (MT). O evento é gratuito e aberto ao público.
Por Adriana Arruda
