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ARTIGO - Bengala Moderna = Por Roberto T. G. Rodrigues
Nunca a humanidade esteve tão conectada — e, paradoxalmente, tão vulnerável. O celular deixou de ser apenas um meio de comunicação para assumir o papel de intermediário da vida cotidiana. É por meio dele que compramos, vendemos, conversamos, trabalhamos, pagamos contas, consumimos entretenimento e buscamos respostas para quase tudo. A praticidade virou dependência. E a dependência, silenciosa, passou a ser tratada como progresso inevitável.
A naturalização desse hábito esconde um risco profundo. O conhecimento, antes construído com tempo, esforço e reflexão, foi comprimido em buscas rápidas e respostas instantâneas. A dúvida deixou de ser investigada; passou a ser consultada. O raciocínio cedeu espaço à confirmação imediata. Mas o que acontece quando essa fonte inesgotável de respostas simplesmente deixa de existir? Estamos preparados para pensar sem auxílio?
Basta imaginar um cenário extremo — e nem tão improvável. Um mundo sem energia elétrica. Sem redes. Sem telas. Em poucos dias, o impacto seria devastador. Não apenas pela falta de comunicação, mas pela ausência de orientação. A sociedade, agora acostumada a depender de instruções digitais, se veria sem direção. A informação, antes abundante, se tornaria rara. E a falta dela revelaria uma fragilidade estrutural: desaprendemos a resolver problemas sem apoio tecnológico.
Nesse contexto, ruiriam também as certezas artificiais. Especialistas improvisados, diagnósticos automáticos, opiniões prontas e verdades embaladas deixariam de circular. O excesso de informação deu lugar à ilusão de conhecimento. Saber algo não é o mesmo que compreendê-lo. E compreender exige autonomia intelectual — algo que vem sendo gradualmente substituído por atalhos digitais convenientes, porém perigosos.
Estamos avançando para um modelo de sociedade onde a tecnologia não amplia capacidades, mas as substitui. A memória é terceirizada, o pensamento é guiado e a decisão é sugerida. A chamada bengala moderna deixou de apoiar e passou a sustentar. Sem ela, muitos não caminham. Sem ela, muitos não pensam. A questão já não é se isso é saudável, mas até quando isso será sustentável.
Não é possível afirmar com precisão qual será o desfecho desse caminho. Mas os sinais são claros. Se a dependência continuar crescendo nesse ritmo, em uma ou duas gerações habilidades básicas podem se tornar exceção. Sobrevivência, adaptação e senso crítico podem virar artigos de luxo. E, diante desse cenário, a pergunta que insiste em retornar — cada vez mais urgente — permanece sem resposta: para onde, afinal, estamos indo?
Sobre Roberto T. G. Rodrigues
Roberto T. G. Rodrigues é escritor, poeta e autor de Golandar, o Paladino, entre outras obras.
