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ARTIGO - Entre o cavalete e o pergaminho = Por Ivan Hegen
Quando
A desnaturalização da linguagem é intensa em obras como as de Nuno Ramos, Iberê Camargo e Elvira Vigna, por exemplo, que se dedicaram à produção plástica e à escrita. Também há que se considerar aqueles que priorizaram a literatura, mas demonstravam ter nas artes visuais uma fonte de inspiração fundamental, como William Carlos Williams, que “traduzia” pinturas em poemas; Clarice Lispector, que muito aprendeu com o não-verbal da pintura; Samuel Beckett, admirador de Bram Van Velde; além de grandes poetas que se dedicaram à crítica de arte, como Baudelaire, Apollinaire, Mario de Andrade e Ferreira Gullar.
Escritores e artistas visuais já estiveram mais próximos, já se influenciaram mais, mutuamente.
Se já é uma
Teria Manet ousado tanto com as tintas sem a troca poética de sua amizade com Mallarmé? Será que Mira Schendel saberia gravar a sutileza em papel de arroz se não fosse um amor às letras? E teria Lourenço Mutarelli publicado alguns dos melhores livros contemporâneos se não houvesse se experimentado antes com traços e cores?
Assim como, em contato com o estrangeiro, intuímos uma realidade a que o idioma materno alude, mas não pode efetivamente alcançar, pode ser no vão, no intervalo entre uma expressão artística e outra, que vislumbramos algo sobre a imperceptível e jamais plenamente explicável necessidade que temos de redimensionar a vida perante a arte. Aguçando os ouvidos, nos deleitamos com o rumor do constante diálogo entre as mais diversas expressões artísticas.
Ivan Hegen é autor de “Livre Associação”, doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professor formado em Artes Plásticas
