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ARTIGO - Livros para entender o Brasil de hoje = Por Myriam Scotti
Como compreender o
Brasil contemporâneo, suas desigualdades, suas disputas de território, suas
violências estruturais e também suas resistências, a partir da literatura?
Sempre acreditei que os livros são uma espécie
de mapa capaz de revelar aquilo que os discursos oficiais preferem manter
afastado da população. Ao longo dos últimos anos, busquei obras que me
permitissem ler o país para além das estatísticas e da enxurrada de informações
disformes e incompletas. Decidi explorar narrativas que encaram de frente as
marcas do colonialismo, do racismo, da exploração do trabalho e das fraturas
sociais que atravessam nossa história, até porque também procuro escrever
minhas obras por outra direção crítica até compreender as raízes que nos
enredam, como um gesto de revisão e também recusa: recusa a narrativas que nos
silenciam. Escrever do Norte do Brasil, muitas vezes visto como margem do
chamado centro cultural e literário, é praticar essa revisão: reescrever a
história de mulheres e homens amazônicos quase sempre invisibilizados.
A seleção que apresento aqui,
portanto, nasce dessa travessia pessoal e de um desejo de deslocamento: sair do
eixo dominante e escutar vozes vindas de outras geografias e experiências.
Reuni aqui livros que me provocaram reflexões das mais plurais: Memórias de
Menino, de Odenildo Sena; Um Rio Sem Fim, de Verenilde Pereira; Apolinária,
de Bianca Santana; O Céu para os Bastardos, de Lília Guerra; Coração
Sem Medo, de Itamar Vieira Jr.; Oração para Desaparecer, de Socorro
Acioli; A Construção, de Andressa Marques; Tocaia do Norte, de
Sandra Godinho; e Tempo de retomada, de Trudruá Dorrico. São obras
distintas em forma e linguagem, mas unidas pela capacidade de iluminar aspectos
essenciais do Brasil que muitas vezes permanecem à margem: a Amazônia para além
do exotismo, as periferias urbanas, as memórias negras e indígenas, as
violências de Estado, os saberes ancestrais e as persistências do afeto mesmo
em cenários de devastação.
Não se trata de uma lista
definitiva, claro, mas de um conjunto de leituras que me feriram, me comoveram
e ampliaram minha capacidade de imaginar o país. Em cada uma delas, a
literatura não aparece como fuga, e sim como forma de enfrentamento, ou melhor,
um modo de nomear o indizível, de restituir histórias apagadas e de inscrever
novas possibilidades de existência.
Reunidas, essas obras formam uma
cartografia crítica e necessária do Brasil contemporâneo. Cada uma ilumina uma
dimensão distinta, seja pela memória, colonialidade, raça ou gênero, seja pelas
questões que remetem à violência de Estado, ancestralidade, exploração
ambiental, controle dos corpos e desigualdade regional. Entretanto, juntas,
revelam um país múltiplo, ferido e, sobretudo, resistente.
Mais do que oferecer respostas, esses livros nos
devolvem perguntas urgentes: Quem tem direito à palavra? Quais histórias são
legitimadas? Que vidas são consideradas narráveis? Ao percorrê-los, percebo que
compreender o Brasil passa necessariamente por escutar vozes que por muito
tempo foram ignoradas ou consideradas de menor importância, bem como por
reconhecer que a literatura precisa ser também uma forma de disputar memória,
linguagem e futuro.
Memórias de Menino, do escritor amazonense Odenildo
Sena
Uma obra que
resiste às classificações fáceis: é crônica, memória, ficção afetiva; talvez
tudo isso ao mesmo tempo. Ao lê-la, tive a sensação de caminhar por uma Manaus
que já não existe, onde os igarapés eram vias de circulação e os barcos
prolongamentos naturais da vida cotidiana. No centro de tudo está a figura de
Mãe, grafada com maiúscula, não apenas como personagem, mas como força
estruturante da narrativa. Em meio à pobreza, à perda precoce do pai e às
adversidades, ela é abrigo e horizonte. A escrita de Sena é profundamente
sensorial: quase se sente a umidade do ar, o cheiro do rio, o vai-e-vem das
embarcações. Para mim, o livro é sobretudo um gesto de amor e uma tentativa de
costurar o tempo para que a infância, e com ela uma cidade inteira, não se dissolva
no esquecimento.
Um Rio Sem Fim, da amazonense Verenilde Pereira
Se o livro de Sena me
conduziu à memória, Um Rio Sem Fim, da também amazonense Verenilde
Pereira, me lançou diretamente à ferida. A história de Maria Assunção e Rosa
Maria, meninas indígenas arrancadas de seus territórios para servir famílias
ricas em Manaus, revela uma violência colonial que nunca cessou, apenas mudou
de forma. O que mais me impressiona é a capacidade da autora de narrar o horror
sem abdicar da beleza. Sua prosa é sofisticada, poética, quase musical, e
justamente por isso torna a violência ainda mais insuportável: porque restitui
humanidade às personagens e devolve ao presente aquilo que a História tentou
apagar. É um livro que não permite indiferença.
Apolinária, da paulistana Bianca Santana
Talvez uma das
leituras mais reparadoras deste percurso. Mais do que um romance, vejo nele um
gesto político de restituição da voz. Apolinária narra sua própria história:
uma mulher negra que enfrentou pobreza, racismo, maternidade solo e abandono.
Esse ato de narrar é, por si só, insurgente. A alternância entre a voz da avó e
a da neta evidencia que a mobilidade social não é milagre individual, mas
conquista coletiva e ancestral.
O Céu para os Bastardos, da paulistana Lília Guerra
Um romance que
confronta diretamente os limites do que costuma ser reconhecido como literatura
legítima no Brasil. Ao construir uma consciência de minoria, a autora desvia do
padrão hegemônico e abre caminho para outra forma de narrar: uma literatura que
não pede autorização para existir.
Coração Sem Medo, do baiano Itamar Vieira Jr.
Já no último volume da
Trilogia da Terra, encontrei uma das representações mais contundentes da
violência de Estado no Brasil contemporâneo. A busca desesperada de Rita Preta
por seu filho Cid, levado pela polícia sem explicação, expõe um sistema que
naturaliza o desaparecimento de jovens negros. O romance dialoga de forma
impressionante com o pensamento de Lélia Gonzalez e Frantz Fanon: a mulher
negra como base vulnerabilizada da pirâmide social, a gestão colonial da morte
e a indiferença institucional diante da dor. Vieira
não descreve apenas uma realidade; ele a ilumina a fim de que se torne
impossível ignorá-la.
Oração para Desaparecer, da cearense Socorro Acioli
Socorro Acioli, por sua vez,
nos conduz a outro tipo de território. Seu romance atravessa as fronteiras
entre fantasia e realidade, mito e história, convidando o leitor a mergulhar na
cultura ancestral do Ceará. A personagem enigmática que sustenta a narrativa
parece habitar simultaneamente o mundo dos vivos e o das histórias contadas nas
rodas de conversa, onde os mais velhos transmitem saberes, medos e crenças aos
mais jovens. Ao ler Acioli, tive a impressão de acessar uma memória coletiva
que sobrevive justamente por meio da oralidade; um Brasil que resiste à
homogeneização cultural.
Construção, da brasiliense Andressa Marques
Andressa Marques desloca o olhar para
Brasília a partir de uma perspectiva raramente contemplada pela narrativa
oficial: a dos corpos que ergueram a capital e depois foram empurrados para
suas margens. O romance revela a fissura entre o mito modernizador de Brasília
e as histórias de sofrimento e resistência que sustentam suas fundações,
propondo uma reflexão sobre identidade, pertencimento e a persistência do
passado no presente.
Tocaia do Norte, da paulistana Sandra Godinho
O livro nos confronta
com uma das páginas mais violentas e frequentemente negligenciadas da história
brasileira: o massacre do povo Waimiri-Atroari durante a ditadura militar. Ao
narrar esse processo de invasão territorial, doenças introduzidas
deliberadamente e extermínio sistemático, a obra evidencia como o projeto
desenvolvimentista do Estado brasileiro esteve diretamente ligado à destruição
de povos originários. Mais do que um relato histórico, o livro expõe a
continuidade dessa violência no presente, revelando que a colonialidade não é
um passado encerrado, mas uma estrutura ainda operante.
Tempo de retomada, da poeta e pesquisadora macuxi Makuxi Trudruá
Dorrico
Por fim, trago Tempo de
retomada, que amplia esse
panorama ao oferecer uma perspectiva indígena contemporânea que é ao mesmo
tempo estética, política e espiritual. A obra combina poesia, prosa, documentos
históricos e manifesto, configurando-se como um gesto de retomada de
territórios físicos, culturais e afetivos negados ao longo de séculos de
colonização. Não por acaso, a obra foi escolhida como tema do Boi Caprichoso no
Festival Folclórico de Parintins de 2025, sinalizando a potência cultural e
política dessa narrativa no Brasil contemporâneo.
Myriam Scotti nasceu em 1981,
em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela
PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus
2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf)
foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo.
Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora
Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024,
ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de "Sol abrasador prepara solo fértil" (editora orlando, 2025, 136 págs.)
