Foto: Divulgação/Redes Sociais
ARTIGO - Camisa em “Brasa”: branding, símbolo nacional e proteção de marca = Por Patrícia Falcão
A
camisa amarela da Seleção, hoje vista por muitos como um símbolo
“natural” do Brasil, nasceu, na verdade, de uma crise de identidade.
Depois da derrota de 1950 para o Uruguai, a antiga camisa branca passou a
ser vista como incapaz de traduzir a ideia de nacionalidade, e por isso
a Confederação Brasileira de Desportos, em parceria com o Correio da
Manhã, lançou em 1953 um concurso para reinventar o uniforme brasileiro.
O detalhe mais curioso é que o desenho vencedor, que se tornaria a
célebre “canarinho”, foi criado por Aldyr Garcia Schlee, um jovem gaúcho
de 19 anos que simpatizava justamente com o time responsável pela
derrota brasileira em 1950.
Se
a camisa da Seleção nasceu, historicamente, de um esforço consciente de
reconstrução simbólica, não surpreende que qualquer tentativa
contemporânea de alterar sua linguagem provoque reações intensas. A
recente controvérsia em torno da expressão “Brasa” nas novas camisas da
Seleção Brasileira revela justamente isso: certos símbolos não funcionam
apenas como peças de marketing ou escolhas estilísticas, mas como
elementos de memória coletiva, identidade nacional e valor de marca.
Quando uma marca dessa magnitude é tensionada por novas linguagens,
entram em cena não apenas estratégias de branding, mas também elementos
culturais que ajudam a explicar por que uma simples palavra pode
desencadear um debate público de grandes proporções.
Assim,
a camisa amarela da Seleção foi progressivamente convertida em um “mito
moderno”: um objeto que deixou de significar apenas futebol e passou a
condensar ideias de brasilidade, futebol, arte e projeção internacional.
A consagração visual do uniforme a partir de 1970, em plena era da
televisão em cores, reforçou essa potência simbólica e consolidou a
camisa como um dos símbolos visuais mais reconhecíveis do futebol
mundial.
Sob
a ótica do branding, a tentativa da Nike fica clara na explicação
concedida por Rachel Denti, apontando que “Brasa” teria sido pensado
como apelido carinhoso, ligado ao vocabulário das ruas, dos estádios e
das novas linguagens digitais. Mas branding de patrimônio simbólico não
funciona apenas por intenção – funciona por reconhecimento. O problema
de “Brasa” não está apenas na palavra em si, mas no que ela representa
para o público. A marca pode até desejar parecer contemporânea, próxima e
culturalmente conectada, mas, quando o público sente que a linguagem
foi “implantada” de cima para baixo, e não emergiu organicamente do
repertório social, a operação deixa de soar como identificação e passa a
soar como artifício.
O
caso também levanta um ponto importante sobre registro e proteção de
marca. No Brasil, uma marca só garante exclusividade quando está
devidamente registrada, além de precisar distinguir-se de outros
idênticos, semelhantes ou afins. No campo do vestuário esportivo, a
referência clássica é a classe 25, que abrange roupas e acessórios do
vestuário, inclusive para prática esportiva. Em termos básicos, isso
significa que nomes, signos e composições usados em camisas oficiais não
são apenas elementos visuais: podem integrar uma estratégia formal de
proteção de ativos, licenciamento e combate a usos indevidos.
É
exatamente por isso que a reação da CBF tem valor estratégico. Quando
Samir Xaud veta “Brasa” no uniforme principal, o gesto não é apenas uma
resposta à opinião pública, mas também um ato de governança de marca. Em
ativos dessa magnitude, a viabilidade jurídica , sozinha, nunca basta .
É preciso alinhar história, posicionamento de marca e conexão cultural .
No fim, o episódio “Brasa” ensina algo importante para qualquer empresa que trabalhe com branding, propriedade intelectual e comunicação: há marcas que não são apenas marcas. Há símbolos que funcionam como patrimônio afetivo, visual e narrativo de uma coletividade inteira. Nesses casos, inovar não é simplesmente criar algo; é negociar cuidadosamente com camadas sedimentadas de memória, identidade e legitimidade. O direito marcário pode abrir caminhos, o marketing pode propor reposicionamentos, mas a aderência a um significado é o que costuma dar a palavra final. E, no caso da camisa da Seleção, o que ficou claro é que o público aceita atualização – desde que ela ainda pareça, inequivocamente, Brasil.
Patrícia Falcão possui mais de 25 anos de experiência em Propriedade Intelectual, atuando em áreas como Marcas, Patentes, Desenhos Industriais, Variedades Vegetais, Direitos Autorais, Licenciamento e Contencioso. Desde 2012 integra a equipe da ClarkeModet, após uma sólida trajetória em renomados escritórios de advocacia, onde participou de litígios relevantes, operações de M&A e negociações envolvendo ativos de PI. É consultora especializada e perita judicial desde 2016, com experiência como assistente técnica em disputas complexas. Patrícia também contribui ativamente para entidades do setor, tendo coordenado comissões na ABPI e integrado grupos da OAB-RJ. Atualmente, é membro da Comissão de Direito da Moda da OAB-RJ e 1ª Vice-Presidente do Conselho Fiscal, Consultivo e de Ética da ABAPI.
