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Psicóloga Maiumi Souza alerta para avanço do burnout ?materno no Brasil e impactos na saúde mental das mães
O burnout materno tem ganhado visibilidade no Brasil diante do aumento do adoecimento psíquico entre mulheres que conciliam maternidade, trabalho e responsabilidades domésticas. Caracterizado pela exaustão emocional persistente, sensação de sobrecarga e perda de prazer na experiência materna, o fenômeno ainda é frequentemente ignorado ou tratado como parte “natural” da maternidade.
Dados recentes mostram a dimensão do esgotamento materno no país. De acordo com levantamento divulgado pela revista Veja, com base em pesquisa sobre burnout parental realizada em 2024, 9 em cada 10 mães brasileiras apresentam sintomas de esgotamento, muitas em níveis moderados ou graves. Já outro levantamento nacional conduzido pela plataforma De Mãe em Mãe, idealizada por uma pesquisadora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, aponta que 97% das mães se sentem sobrecarregadas quase todos os dias e 94% relatam exaustão constante. O impacto não se restringe às mulheres, segundo estudo publicado na revista científica JAMA, o sofrimento psíquico materno pode aumentar em 25% o risco de atraso no desenvolvimento infantil.
Para a psicóloga Maiumi Souza, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil, o reconhecimento do burnout materno exige uma mudança de perspectiva sobre a forma como a maternidade é compreendida socialmente.
“A exaustão materna não começa no corpo, começa na expectativa. Quando a maternidade é construída como um lugar de entrega total, o cansaço passa a ser visto como prova de amor. Muitas mães chegam à clínica sem conseguir nomear o próprio esgotamento, porque aprenderam que sentir limite é falhar. O burnout materno é um sinal de que esse modelo não se sustenta. Não é sobre mães que não dão conta, é sobre uma estrutura que exige demais e oferece pouco suporte”, afirma.
O tema também avança no campo legislativo, mas ainda encontra distância na prática. Está em tramitação no Congresso Nacional o Projeto de Lei 5063/2023, que propõe a criação de uma política nacional de apoio e prevenção à estafa mental e ao burnout relacionados à maternidade. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados em setembro de 2025 e aguarda análise no Senado.
A proposta inclui medidas de acolhimento, orientação e capacitação de profissionais para lidar com demandas relacionadas ao esgotamento materno. Apesar do avanço, especialistas apontam que o Brasil ainda conta com poucas políticas públicas estruturadas voltadas à saúde mental de mães, especialmente no período perinatal. Na prática, o cuidado segue sendo sustentado majoritariamente no âmbito privado ou nas redes informais, o que amplia desigualdades e dificulta o acesso de mulheres em contextos de maior vulnerabilidade. “Quando o cuidado depende apenas da família ou do esforço individual, ele deixa de ser direito e passa a ser privilégio”, afirma Maiumi Souza.
A especialista também destaca que a falta de preparo de profissionais para acolher esse tipo de demanda contribui para a invisibilização do problema. Segundo ela, ampliar o debate público e investir na formação de equipes de saúde são passos fundamentais para que mães possam reconhecer o sofrimento e acessar o cuidado qualificado.
Sobre Maiumi Souza
Maiumi Souza é psicóloga, especialista em Gestalt-Terapia e Desenvolvimento Infantil, com atuação voltada à saúde mental de mulheres, mães, crianças e famílias. Sua prática clínica integra saberes da neurociência, psicologia do desenvolvimento e estudos sobre trauma, com uma escuta ética que considera os atravessamentos de raça, gênero e classe nas experiências psíquicas.
Por Caroline Vilas Bôas
