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Transparência em excesso pode corroer a confiança, diz novo livro de Hamilton dos Santos
Em um cenário de exposição permanente, das redes sociais às políticas públicas, a transparência se consolidou como um dos valores mais exigidos da vida contemporânea. Ainda assim, a confiança nas instituições, nas empresas e nas relações sociais segue em queda. É a partir dessa contradição que o jornalista e pesquisador de filosofia Hamilton dos Santos desenvolve Contra a Transparência – Um ensaio, lançamento da Editora Iluminuras.
Propondo uma reflexão direta: a transparência, frequentemente defendida como solução para problemas como corrupção e desinformação, não pode ser tratada como um valor absoluto ou uma resposta universal. Ao contrário, seus efeitos dependem de contexto, limites e condições específicas, e, quando aplicada de forma indiscriminada, pode produzir distorções.
“O excesso de transparência pode gerar o efeito oposto ao que promete. Em vez de fortalecer vínculos, pode corroer a confiança ao substituir relações baseadas em expectativa e experiência por um regime permanente de verificação”, afirma o autor.
O ensaio parte de um paradoxo central: se tudo fosse totalmente visível, a própria ideia de confiança perderia sentido. Ao longo do livro, Hamilton dos Santos argumenta que a vida social depende de um equilíbrio entre o que se revela e o que permanece oculto, e que a transparência absoluta pode fragilizar esse equilíbrio.
O debate dialoga com referências contemporâneas, como Sociedade da Transparência, de Byung-Chul Han, mas segue um caminho distinto ao se apoiar na tradição empirista britânica. Pensadores como David Hume e Adam Smith são mobilizados para sustentar que a sociabilidade humana se estrutura menos por regras abstratas e mais por hábitos, expectativas e relações de confiança construídas ao longo do tempo.
Outro ponto central do livro é a origem do conceito de transparência. No campo da Física, o termo descreve a capacidade de um corpo de permitir a passagem da luz. Ao ser transposto para o campo moral e político, passa a sugerir acesso direto à verdade, ignorando que toda observação envolve filtros, escolhas e condições específicas. “Toda transparência também produz novas opacidades”, observa o autor.
Também analisa o impacto das tecnologias e da cultura de monitoramento contínuo, em que indivíduos, empresas e governos operam sob pressão constante por visibilidade. Nesse contexto, a transparência deixa de ser apenas um ideal e passa a moldar comportamentos, reputações e a própria produção de informação.
Ao recuperar a distinção clássica entre ser e parecer, reposiciona o debate em uma tradição filosófica mais ampla e questiona os limites da visibilidade como caminho para a verdade. Como resume o economista e filósofo Eduardo Giannetti, que assina a orelha do livro, a transparência pode ser “terapêutica em doses adequadas, mas tóxica quando elevada à condição de regra absoluta”.
Sobre Hamilton dos Santos: Doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), com trajetória dedicada à reflexão sobre os impactos da comunicação e da exposição na cultura contemporânea. É autor de obras que exploram as relações entre visibilidade, sociedade e pensamento crítico, incluindo Contra Transparência. Jornalista de formação, construiu carreira em veículos como a Folha de S.Paulo e o Grupo Abril. Também atuou como diretor da Aberje e, atualmente, ocupa posição executiva na instituição, mantendo sua atuação entre a prática da comunicação e a pesquisa filosófica.
Por Bruna Marotta
