Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - Percepção de Risco: Entre a Cozinha de Casa e a Lavoura = Por Luís Eduardo Pacifici Rangel
A forma como as pessoas percebem o risco raramente coincide com a forma como a ciência o mede. Entre o campo e a cidade, essa diferença de percepção tem produzido narrativas simplificadas — especialmente quando o assunto são os insumos agrícolas. O debate público muitas vezes trata o risco como algo absoluto: algo é “seguro” ou “perigoso”. Na realidade, a avaliação técnica sempre considera probabilidade, exposição e consequência.
Uma pequena história doméstica ajuda a ilustrar isso.
A faca no escorredor
Certa vez, visitei a casa de um grande amigo que trabalha na área de avaliação de risco da vigilância sanitária. Enquanto preparava o almoço, ele pediu ao filho que ajudasse lavando a louça. Ao explicar como organizar os talheres no escorredor, deu uma instrução curiosa: “As facas devem ficar com a lâmina para baixo.”
A lógica era simples: reduzir o risco de alguém cortar a mão ao pegar os talheres.
Quando contei isso em casa, minha esposa discordou imediatamente. Para ela, deixar a lâmina voltada para baixo aumenta outro risco: a água que se acumula no fundo do escorredor pode favorecer a proliferação de bactérias e contaminar os utensílios.
Quem está certo?
Provavelmente ambos. Cada um está avaliando um tipo diferente de risco. Um pensa no acidente imediato; o outro, no risco microbiológico. A decisão prática depende de qual risco se considera mais relevante naquele contexto.
Essa pequena cena doméstica mostra algo importante: o risco não é uma propriedade simples das coisas; ele depende da forma como o observamos.
A diferença entre perigo e risco
Na ciência regulatória existe uma distinção fundamental entre perigo e risco. Perigo é a capacidade intrínseca de algo causar dano. Risco é a probabilidade de que esse dano ocorra em condições reais de exposição. Água pode ser perigosa — é possível morrer afogado. Mas o risco ao beber um copo d’água é praticamente zero.
Esse raciocínio é o coração das avaliações toxicológicas, ambientais e regulatórias realizadas no mundo inteiro. Mas no debate público essa diferença costuma desaparecer.
O caso do glifosato
O glifosato é um bom exemplo dessa distorção. Trata-se de uma molécula utilizada há mais de cinquenta anos, avaliada repetidamente por agências regulatórias ao redor do mundo. Por ser extremamente eficiente e relativamente barata, tornou-se também uma das substâncias agrícolas mais utilizadas globalmente.
Justamente por causa desse volume de uso, o glifosato passou a ocupar o centro de narrativas alarmistas. Em muitos círculos urbanos ele é frequentemente apresentado como símbolo máximo de perigo químico.
Entretanto, quando analisado dentro dos critérios técnicos de avaliação de risco — toxicidade, dose, exposição e perfil ambiental — o glifosato possui um dos perfis de risco mais baixos entre herbicidas modernos. Essa combinação de eficácia agronômica, baixo custo e risco relativamente reduzido explica por que continua sendo autorizado em grande parte do mundo.
Isso não significa que seja isento de perigos. Nenhuma substância ativa é. Significa apenas que, quando usado nas condições estabelecidas pelas avaliações regulatórias, o risco considerado aceitável é baixo.
A diferença entre essa conclusão técnica e a percepção pública é um exemplo claro de como narrativas podem substituir análise científica.
O outro extremo: o mito da solução perfeita
Curiosamente, o mesmo fenômeno ocorre no polo oposto. Os bioinsumos — produtos biológicos utilizados para controle de pragas ou promoção de crescimento — são frequentemente vistos como uma solução naturalmente perfeita. No imaginário urbano, o fato de serem “biológicos” ou “naturais” é tomado como garantia automática de segurança.
Mas a natureza também produz toxinas, patógenos e efeitos ecológicos complexos. Alguns bioinseticidas podem afetar organismos não alvo, incluindo polinizadores como as abelhas. Processos industriais de produção microbiana também precisam ser rigorosamente controlados para evitar a formação de metabólitos indesejáveis.
Nada disso desqualifica os bioinsumos. Pelo contrário: eles são ferramentas importantes da agricultura moderna. O ponto é outro: até soluções biológicas precisam ser avaliadas com o mesmo rigor científico aplicado aos produtos sintéticos. Quando uma tecnologia é vista como “perigosa por definição” e outra como “segura por natureza”, a análise de risco deixa de ser técnica e passa a ser ideológica.
A percepção de risco da Dona Maria
A percepção de risco aparece de forma ainda mais clara na vida cotidiana. Imagine a Dona Maria, moradora de uma grande cidade. Ela quer proteger sua família da dengue e de outros insetos domésticos. Para isso compra no supermercado um aparelho que libera piretroides no ar durante a noite, muitas vezes próximo ao berço do bebê.
Essas moléculas são amplamente utilizadas também na agricultura para controle de pragas. O curioso é que os piretroides são altamente tóxicos para organismos aquáticos, como peixes e pequenos crustáceos. Em ambientes naturais, seu uso exige cuidado justamente por causa desses efeitos.
Mas na percepção doméstica o produto é visto apenas como um aliado contra mosquitos. Isso não significa que Dona Maria esteja errada. Ela está apenas priorizando um risco imediato e visível — a presença de insetos transmissores de doenças — em detrimento de riscos ambientais mais distantes de sua experiência cotidiana.
O mercado e a estética do alimento
A percepção de risco também influencia diretamente o que compramos no mercado. Consumidores urbanos dificilmente aceitam tomates manchados, folhas perfuradas por insetos ou frutas com pequenas lesões de fungos. Esses sinais naturais de interação ecológica são vistos como defeitos.
Ao mesmo tempo, muitos consumidores consideram inaceitável a simples ideia de resíduos químicos — mesmo quando presentes em níveis extremamente baixos e dentro de limites de segurança definidos por avaliações toxicológicas.
Curiosamente, os mesmos consumidores podem aceitar sem grande preocupação alimentos produzidos com fertilizantes orgânicos derivados de resíduos animais, que também possuem riscos biológicos relevantes quando manejados inadequadamente. Episódios de contaminação alimentar por patógenos associados a adubação orgânica já foram registrados em diferentes países.
Mais uma vez, o que se observa é a diferença entre risco percebido e risco efetivamente medido.
O desafio de aproximar campo e cidade
A agricultura moderna opera em um ambiente técnico altamente regulado. Cada produto fitossanitário ou biológico passa por avaliações complexas envolvendo toxicologia, ecotoxicologia, resíduos em alimentos e impacto ambiental. Esses processos são conduzidos por equipes multidisciplinares de químicos, agrônomos, médicos, biólogos e estatísticos.
No entanto, grande parte desse trabalho permanece invisível para o público urbano. O resultado é um espaço aberto para simplificações narrativas — frequentemente amplificadas por redes sociais, campanhas ativistas ou interpretações jurídicas descontextualizadas.
Quando juízes, jornalistas ou consumidores formam opiniões sobre temas técnicos sem acesso a essa base científica, o debate tende a se deslocar do campo da análise para o campo da percepção.
Um convite à prudência
Nenhuma tecnologia agrícola é perfeita. Todas envolvem escolhas, compromissos e trade-offs. O desafio real não é eliminar completamente o risco — algo impossível em qualquer atividade humana — mas gerenciá-lo de forma racional, com base em evidências.
Isso exige reconhecer três pontos simples:
- Natural não é sinônimo de seguro.
- Sintético não é sinônimo de perigoso.
- Risco depende sempre de dose, exposição e contexto.
Entre a faca no escorredor da cozinha e o herbicida na lavoura existe um princípio comum: decisões sobre risco precisam considerar informação, probabilidade e consequência, não apenas percepções intuitivas.
A ciência regulatória existe justamente para ajudar a sociedade a tomar essas decisões de forma mais informada.
E talvez o primeiro passo para aproximar campo e cidade seja exatamente esse: transformar o debate sobre agricultura em uma conversa mais baseada em evidências e menos em impressões.
