Semana de Cinema Negro cancela 6ª edição por falta de patrocínio
Foto: Virgínia Dandara
Semana de Cinema Negro cancela 6ª edição por falta de patrocínio
14/08/2026
Noticias Gerais
crédito: Virgínia Dandara
A 6ª edição da Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte não será realizada em 2026. O cancelamento foi anunciado nesta quinta-feira (13 de agosto), nas redes sociais do festival, que há cinco anos reúne em Belo Horizonte produções nacionais e internacionais que colocam no centro as histórias, os cinemas e os realizadores negros do Brasil, da África e da diáspora.
A edição deste ano estava prevista para outubro, mas, apesar de o projeto ter sido aprovado em mecanismos de incentivo à cultura, a equipe não conseguiu transformar as aprovações em recursos efetivamente captados.
Depois de meses de negociações com empresas e sem conseguir garantir a entrada de recursos no projeto ainda em 2026, a organização decidiu cancelar a edição deste ano. “A interrupção acontece depois de cinco edições que consolidaram a Semana de Cinema Negro no calendário cultural de Belo Horizonte e no circuito do cinema negro brasileiro e internacional. Ao longo desse período, o festival se tornou um espaço de circulação de filmes e profissionais, formação, encontros e debates sobre o cinema brasileiro, aproximando realizadores, pesquisadores, estudantes, críticos e público”, afirma Layla Braz, idealizadora do projeto.
Para a pesquisadora, curadora e professora Tatiana Carvalho Costa, e presidente da Associação dos Profissionais do Audiovisual Negro (APAN), a dimensão alcançada pelo festival ultrapassa a programação cultural da cidade. “A Semana de Cinema Negro é um lugar muito rico e fértil de circulação de filmes, circulação de pessoas, encontros e discussões extremamente qualificadas sobre as perspectivas do cinema brasileiro”, afirma.
Criada em 2021, ainda durante a pandemia de Covid-19, a Semana de Cinema Negro de Belo Horizonte teve sua primeira edição totalmente on-line e gratuita, com 50 filmes de realizadores negros do Brasil, da África e da diáspora, além de debates e oficinas. Idealizado por Layla Braz, o festival nasceu com a proposta de ampliar o acesso ao cinema negro, promover encontros e formação e valorizar a memória e a produção audiovisual negra. Ao longo das cinco edições realizadas, todas com programação gratuita, a Semana se consolidou no circuito audiovisual brasileiro e no calendário cultural de Belo Horizonte, ocupando espaços como o Cine Humberto Mauro e o Cine Santa Tereza.
Além das sessões de cinema, a programação inclui ações para crianças e grupos escolares, recursos de acessibilidade e atividades que articulam o audiovisual a outras expressões culturais. A abertura também reúne música e gastronomia afro-diaspórica, ampliando a participação de artistas, produtores e outros agentes negros da cultura de Belo Horizonte.
Entre 2021 e 2025, foram exibidos quase 300 filmes e mais de 30 mil pessoas participaram das atividades presenciais e on-line, entre sessões, debates e ações formativas. O festival também recebeu realizadores e profissionais de diferentes partes do Brasil e do mundo. Entre os nomes que passaram pela programação está a arquivista de cinema Annabelle Aventurin, responsável pela conservação e distribuição dos arquivos do cineasta mauritano Med Hondo no Ciné-Archives, em Paris. Em 2025, a Semana recebeu o cineasta norte-americano Charles Burnett, contemplado com um Oscar Honorário. Entre os nomes brasileiros, passaram pelo festival Viviane Ferreira, Lilian Solá Santiago e o cineasta Luiz “Lula” Lourenço, que faleceu neste ano.
6ª edição que não irá acontecer em 2026
Depois da edição de 2025, a expectativa da idealizadora e realizadora da Semana, Layla Braz, e da equipe era realizar uma nova edição em 2026. O festival, abriu inscrições para a mostra Cine Escrituras Pretas, uma das principais ações da programação, voltada à exibição de obras de realizadores negros brasileiros. Foram cerca de 300 inscrições recebidas. O trabalho da curadoria, no entanto, sequer chegou a começar. Sem os recursos necessários para a realização do evento, a organização precisou interromper o processo.
A situação também afetou outro projeto ligado à Semana. Em 2026, a 3ª edição da SemanaLab, iniciativa que reúne profissionais do audiovisual de Belo Horizonte e região metropolitana em uma semana de cursos e atividades com nomes de diferentes regiões do país, também não conseguiu recursos para ser realizada.
A interrupção de um festival como a Semana de Cinema Negro, no entanto, não representa apenas uma perda para a programação cultural de Belo Horizonte. O audiovisual também movimenta uma cadeia econômica que envolve profissionais de diferentes áreas e gera empregos dentro e fora das produções. Em 2024, a indústria audiovisual brasileira sustentou 608.970 empregos e contribuiu com R$ 70,2 bilhões para o Produto Interno Bruto (PIB) do país, segundo estudo da Oxford Economics encomendado pela Motion Picture Association. O levantamento considera os impactos diretos, indiretos e induzidos da atividade e aponta que o setor tem um efeito multiplicador de cinco vezes sobre o emprego.
Projeto foi aprovado, mas dinheiro não chegou
Segundo Layla Braz, a Semana de Cinema Negro foi aprovada na Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte e também na Lei Rouanet, que permite a captação de recursos em âmbito nacional via isenção fiscal tanto por pessoas físicas como por pessoas jurídicas. O problema esteve justamente na etapa seguinte: encontrar empresas e pessoas físicas dispostas a patrocinar o projeto. Na avaliação da realizadora, existe uma dificuldade crescente para iniciativas culturais de menor escala conseguirem acessar os recursos disponíveis por meio das leis de incentivo.
No caso da lei municipal, ela aponta que o aumento na quantidade de projetos aprovados não foi acompanhado, na mesma proporção, com crescimento do limite da renúncia fiscal anual. “Aumenta o número de projetos candidatos, o que é bom, porque permite que mais iniciativas aconteçam, mas não aumenta, na mesma proporção, o volume de recursos. Se temos 12 meses para captar, o ideal seria que esse valor também ficasse disponível durante os 12 meses”, afirma.
Na Lei Rouanet, a avaliação da realizadora é de que existe uma dificuldade adicional para projetos realizados fora do eixo Rio-São Paulo, já que, na prática, são iniciativas desses dois estados que costumam ser percebidas como de alcance nacional pelos patrocinadores. “O que falta é uma política pública. A gente vai atrás dos patrocinadores, mas os patrocinadores só estão atrás de eventos de grande porte, que eles sabem que vão dar um retorno muito grande para eles em publicidade”, afirma. “É muito difícil achar um captador da Lei Federal de Incentivo à Cultura (ROUANET), porque eles têm certos grupos e eles permanecem no mesmo meio”, completa.
Cinema negro também enfrenta barreiras na captação
Para Layla, a dificuldade de captação também revela um problema específico enfrentado por festivais que têm o cinema negro como eixo central. “Pela pesquisa que fiz, não encontrei nenhum festival de cinema negro com o patrocínio de uma empresa de grande porte. Convidei algumas empresas para reuniões, mas o projeto foi recusado sem que houvesse uma explicação sobre os motivos. Quando isso acontece, é muito desanimador para quem está tentando viabilizar o festival”, relata.
Apesar de acontecer em Belo Horizonte, a Semana sempre teve como uma de suas prioridades a circulação de obras e profissionais de diferentes regiões do Brasil. A proposta não é apenas exibir filmes, mas criar encontros entre realizadores, estudantes, produtores e público.
Na edição de 2025, por exemplo, realizadores de diferentes partes do país estiveram em Belo Horizonte para acompanhar as sessões e participar de conversas com cineastas, estudantes e profissionais do audiovisual da cidade.
A cineasta de São Paulo Asaph Agatha Luccas, teve seu filme exibido na última edição e foi uma das convidadas para estar presencialmente em Belo Horizonte. Segundo ela, a Semana trouxe um impacto inestimável para a sua carreira. “Foi uma das experiências mais especiais em festivais na minha carreira. Não somente pela curadoria de filmes linda e fora da curva, mas pela experiência de poder trocar com outros realizadores, curadores e com público majoritariamente negro”, destaca. De acordo com ela, existe todo um ecossistema pensado pelo festival. “Também brilharam muito meus olhos, como a organização do festival teve um cuidado muito grande para trazer público para as sessões. Eu nunca tinha visto esse cuidado antes, num lugar de até parceria com um grupo de corrida que foi correr em seguida da corrida, foi assistir os filmes, foi muito bonito”, afirma.
Retração de investimentos preocupa setor
A dificuldade enfrentada pela Semana de Cinema Negro também se insere, segundo a pesquisadora, curadora e professora Tatiana Carvalho Costa, em um cenário mais amplo de retração do interesse institucional por iniciativas ligadas à diversidade, especialmente no campo dos cinemas negros. Para ela, o cancelamento da edição de 2026 é preocupante porque pode ser um indício de um movimento percebido em outros eventos e iniciativas.
Tatiana destaca que a Semana se tornou uma referência pela circulação de filmes, profissionais, encontros e discussões sobre o cinema brasileiro, com intercâmbio entre produções das Américas, África, Europa e diáspora afro-atlântica. Ela também relaciona esse percurso ao crescimento dos cinemas negros nos últimos 10 a 15 anos e às mudanças provocadas por essas produções na forma de pensar, produzir e analisar o cinema brasileiro.
A pesquisadora aponta uma diminuição do interesse de instituições, sobretudo do mercado, no financiamento de eventos de cinemas negros, inclusive por meio de leis de incentivo. Segundo ela, essa discussão é recorrente na rede de eventos de cinemas negros da APAN.
“Esse adiamento, vou chamar assim, ele é o indício de uma outra coisa. A gente olha para isso com muita preocupação, porque não é só um festival de cinema”, afirma.
Segundo Tatiana, o movimento também ocorre internacionalmente. Ela cita o Black Star Film Festival, nos Estados Unidos, e relaciona o cenário ao período posterior ao assassinato de George Floyd, em 2020, quando empresas norte-americanas ampliaram compromissos com a equidade racial. Ela menciona ainda a análise da Black Economy Mobility sobre os aportes realizados naquele período e afirma que plataformas de streaming, como Netflix e Amazon, e a filantropia internacional retraíram posteriormente investimentos relacionados à justiça racial.
No Brasil e na América Latina, Tatiana aponta o encerramento de programas de diversidade corporativa e a diminuição da visibilidade pública dessas pautas na comunicação corporativa e na publicidade. Para ela, essa retração ocorre ao mesmo tempo em que cresce a presença negra na intelectualidade, nas artes e no audiovisual, impulsionada também por políticas afirmativas e pela atuação dos movimentos negros.
Na avaliação da pesquisadora, a redução desses investimentos afeta não apenas os festivais, mas também trabalhadores da cultura, a circulação e o debate sobre os filmes e as possibilidades de a população negra se reconhecer nas produções audiovisuais.
“É um momento preocupante, mas é um momento que faz parte da disputa também”, afirma Tatiana, que diz estar em diálogo com a organização da Semana e destaca que o festival integra uma rede de eventos de cinemas negros que vem discutindo os desafios de financiamento e continuidade dessas iniciativas.
Cancelamento provoca reação de cineastas
O anúncio do cancelamento gerou forte repercussão nas redes sociais. Cineastas e profissionais do audiovisual de diferentes partes do Brasil lamentaram a interrupção do festival e destacaram a importância da Semana para o setor.
A cineasta Asaph Lucas, que participou da quinta edição com o filme “VBP”, comentou sobre o cancelamento: “Um dos festivais mais especiais que tive o prazer de participar. Um absurdo isso, lamento muito”.Gabriel Martins, diretor da Filmes de Plástico, também reagiu ao anúncio e incentivou a equipe a não desistir: “Peraí, que isso vai ficar assim não, família, vamos dar um jeito!”.
O cineasta, diretor, roteirista e montador de Salvador Vinícius Elizário também lamentou o fim da edição deste ano. “Simplesmente é um dos eventos de uma semana mais potentes e acolhedores que já conheci. Muito triste saber que, entre os setores público e privado, não perceberam a importância da continuidade de festivais como esse. Espero que os caminhos se abram e que as coisas se alinhem. Emanando energias, estamos por aqui! Toda força à equipe da Semana do Cinema Negro de BH”, comentou.
Depois das tentativas de captação, Layla afirma que a decisão pelo cancelamento foi tomada porque não havia mais tempo hábil para organizar a sexta edição com a estrutura necessária. Com a interrupção do projeto em 2026, a Semana pode precisar passar novamente pelo processo de aprovação nas leis de incentivo para conseguir realizar uma nova edição em 2027.
A expectativa da idealizadora é que o festival consiga retomar a captação e volte a acontecer, ainda que no próximo ano. Para ela, o caso da Semana de Cinema Negro também expõe uma dificuldade mais ampla enfrentada por festivais que, mesmo com público, trajetória e projetos aprovados nos mecanismos de incentivo, ainda encontram obstáculos para transformar a autorização para captar em recurso efetivamente captado.
Sobre este momento, Layla espera que seja um adiamento e declara: “Não vamos desistir de buscar possibilidades para a realização do festival. Seguimos no desejo de realizar um evento que traga dignidade para os profissionais envolvidos, novos olhares e acolhimento para realizadores e o público”.