Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
O diploma que 98% dos mais pobres nunca vão ter = Por Janguiê Diniz
Nas últimas semanas, o Brasil recebeu um retrato cru da própria desigualdade. O Atlas da Mobilidade Social, iniciativa do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) em parceria com o Prospera Lab, revelou que, entre os filhos das famílias que compõem os 25% mais pobres do país, apenas 1,58% consegue concluir o ensino superior. Na outra ponta, entre os 25% mais ricos, esse índice sobe para 37,77%. A distância entre os dois grupos é de quase 24 vezes, um abismo que retrata como a origem familiar ainda determina o destino de milhões de brasileiros.
Esse dado não é apenas mais um número entre tantos levantados pelo estudo. Ele é, na verdade, a chave que explica boa parte das demais constatações. O acesso à educação superior tem se consolidado como o principal mecanismo de mobilidade social no Brasil. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2025, a renda média dos profissionais com ensino superior (R$ 6.947) foi 163,1% maior do que entre aqueles com apenas o ensino médio (R$ 2.640). Não se trata de uma vantagem marginal. É uma diferença que separa famílias que conseguem romper o ciclo da pobreza daquelas que permanecem presas a ele, geração após geração.
Falo sobre isso com a convicção de quem viveu na pele o que significa não ter absolutamente nada além da vontade de estudar. Nasci em Santana dos Garrotes, no sertão da Paraíba, filho de pais analfabetos: meu pai era trabalhador rural, minha mãe, dona de casa. Cresci em meio a dificuldades que hoje, felizmente, estão distantes da minha realidade, mas que moldaram cada decisão que tomei na minha vida.
Fui engraxate, vendi picolé nas ruas para ajudar em casa, mas, em nenhum momento deixei de acreditar que a escola era o único caminho possível para mudar a minha história e a da minha família. Foi por isso que, ainda jovem, me mudei para a casa de um tio no Recife, onde cursei graduação, mestrado e doutorado em Direito. Não tinha herança, não tinha contatos, não tinha nada além de disciplina e da certeza de que o conhecimento era a única ferramenta que ninguém poderia tirar de mim.
Com o que aprendi nesses anos de estudo, aliado a muito trabalho e obstinação, construí um dos maiores grupos educacionais do país, o Ser Educacional. Da infância pobre no interior da Paraíba, fui parar na capa da revista Forbes. Conto essa trajetória não por vaidade, mas porque sou a prova viva de que a educação transforma vidas.
Tenho plena consciência, porém, de que minha história está longe de ser a regra, especialmente nessa dimensão. E é exatamente aí que reside o problema. Não podemos construir um país no qual superar a pobreza dependa de trajetórias excepcionais. Talento, dedicação e obstinação existem em todas as classes sociais. O que não existe para todos são as mesmas oportunidades. A função das políticas públicas é justamente reduzir essa distância para que a família onde uma criança nasceu não determine previamente o tamanho dos sonhos que ela poderá realizar.
O Brasil avançou muito na democratização da educação superior nas últimas décadas, mas os números do Atlas mostram que ainda estamos distantes de assegurar oportunidades minimamente equilibradas. Um dado do Censo da Educação Superior ajuda a entender o tamanho do desafio: cerca de 80% das matrículas de graduação estão em instituições privadas. Isso significa que o acesso ao ensino superior depende, em grande medida, da capacidade financeira das famílias para arcar com as mensalidades, ou da existência de políticas públicas robustas que garantam esse acesso a quem não pode pagar por ele.
É justamente nesse ponto que o poder público precisa agir com mais força e constância, fortalecendo programas na linha do Programa Universidade para Todos (ProUni), que concede bolsas de estudo integrais e parciais em instituições privadas para estudantes com renda familiar per capita de até 1,5 salário mínimo. Não por coincidência, essa é a faixa de renda que está na base da pirâmide social, a mesma que o Atlas da Mobilidade Social mostra ter apenas 1,58% de chance de concluir uma graduação.
Não basta lamentar os números. É preciso agir sobre eles. Ampliar e fortalecer políticas de acesso ao ensino superior não é generosidade do Estado, é investimento direto na mobilidade social e no futuro econômico do país. Cada jovem que sai da base da pirâmide e conclui uma graduação passa a ter uma renda média significativamente maior, e isso se traduz em mais consumo, mais arrecadação, mais desenvolvimento para todo o Brasil.
O Atlas da Mobilidade Social não deve ser lido apenas como um diagnóstico triste da desigualdade brasileira, mas como um chamado urgente à ação. A educação transformou a minha vida porque encontrei, no meio de tantas dificuldades, um caminho para persistir nela. Agora, cabe ao Brasil garantir que esse caminho deixe de ser exceção e passe a ser, verdadeiramente, uma possibilidade real para os milhões de jovens que, como eu, nasceram na base da pirâmide social e têm o direito de sonhar e conquistar um diploma de graduação. Janguiê Diniz - Diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES); secretário-executivo do Brasil Educação - Fórum Brasileiro da Educação Particular; fundador, controlador e presidente do conselho de administração do grupo Ser Educacional; presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo, da JD Business Academy e da Mentor Capital Group |
