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ARTIGO - Jornalismo e literatura: quando o repórter pega o escritor pela mão = Por André Giusti
Era uma tarde de sábado em 1991. Eu estava de plantão na redação da Rádio CBN quando atendi o telefonema de um policial. Ele avisava que um casal de idosos, parecendo estrangeiros, fora encontrado morto a tiros em um apartamento no Leblon. Casal de velhos, talvez gringos, os dois mortos a tiros em um bairro chique, de gente rica. Indiscutivelmente era notícia. Aos 23 anos, eu não poderia imaginar que voltaria da cena do crime não apenas com a matéria, mas também com o ponto de partida do primeiro conto que escrevi na vida, A História Triste de Hans e Alice, que está em meu livro de estreia, Voando Pela Noite (Até de Manhã), publicado pela 7Letras em 1996, indicado ao Jabuti no ano seguinte e atualmente na segunda edição.
A história do casal de alemães que fez um pacto de morte por causa da doença terminal do homem não foi a única adaptação para a literatura do que vi como repórter. Se quase nunca me permitiu o tempo para ser escritor, o jornalismo foi, ao longo da vida profissional, me apresentando situações e elementos humanos que, nascidos na realidade, ganharam vida na ficção, às vezes mais crua do que quando eram só notícias. A profissão me ajudou a construir minha visão social e minha formação política, pilares da literatura que me proponho a fazer. A vivência na reportagem e nas redações foi uma das principais, se não a principal, forja do escritor que neste ano de 2026 completa trinta anos de publicado.
Formato do texto do jornalismo auxilia na criação de ficção
Procuro trabalhar bastante o texto na forma, na objetividade, na clareza e na elegância. Como leitor valorizo mais como se conta do que o que se conta. Lendo, posso me desinteressar por uma obra se o texto não reúne os elementos que elenquei acima. Prefiro uma história simples, até pueril, mas escrita de um modo que não te deixa largar do livro. E eu trabalho para que os leitores não larguem meus livros. No texto, está mais uma parte da herança que minha literatura herdou do jornalismo. Sempre trabalhei na mídia eletrônica – rádio e TV, e, nos últimos anos, internet –, o que me obrigou a uma redação clara e objetiva. Em uma matéria de rádio ou TV, ou mesmo no site, a falta de objetividade e clareza espanta o público. Acredito que o mesmo acontece no livro. Acostumado a descrever com agilidade imagens e situações, também isso o autor que sou aprendeu com o repórter que fui: fugir do abismo da monotonia cavado pelo excesso de descrição, que pode colocar a perder completamente um livro com uma bela ideia, mas de desenvolvimento arrastado.
Existiria o escritor André Giusti sem o jornalista André Giusti? Acho que sim, até porque antes de entrar em uma redação eu já fazia poesia e arriscava umas crônicas, mas penso que não faria uma literatura tão assertiva e afiada, preocupada com o real (palavras de leitores e resenhistas), no sentido de que o leitor experimente a prova do quotidiano em suas camadas de prazer e dor. O escritor pode ser considerado uma espécie de repórter, um repórter da não-notícia, na medida em que presta atenção a uma cena sem importância e a uma pessoa anônima no meio da rua, e vai juntar aquela pessoa àquela situação em uma realidade que ele constrói em sua cabeça com toda a estrutura da verdade. Porque a diferença entre ficção e realidade é que uma aconteceu; a outra, não, mas poderia ter acontecido, deixando nítido que em muitas vezes o repórter pega o ficcionista pelo braço e fala “Senta aqui, deixa eu te contar umas coisas”.
André Giusti é jornalista, com passagens pelo Sistema Globo de Rádio (Rádio CBN), Grupo Bandeirantes de Comunicação, Fundação Roquete Pinto (TVE-RJ), Rádio e TV Justiça, entre outros. Atualmente, é assessor de imprensa do Senado Federal e repórter freelancer do #Colabora. Foi finalista do Prêmio Jabuti em 1997 com “Voando Pela Noite, Até de Manhã” (7Letras, 1996) e semifinalista do Oceanos 2024 com “As Filhas Moravam Com Ele” (Caos e Letras, 2023). "Só vale a pena se houver encanto" é seu 11º livro e primeiro romance.
