Foto: Divulgação
ARTIGO - Três pesquisas, três retratos da Bahia: o que explica as diferenças entre os levantamentos eleitorais? = Por Paulo Maneira
Nas últimas semanas, três dos principais institutos de pesquisa divulgaram levantamentos sobre a sucessão estadual na Bahia. A pesquisa Paraná Pesquisas foi realizada entre os dias 31 de julho e 2 de agosto de 2026, entrevistou 1.400 eleitores, foi contratada pela S2R Comunicação Ltda. (Bahia Notícias), possui margem de erro de 2,7 pontos percentuais, nível de confiança de 95% e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral sob o número BA-03043/2026. A Futura Inteligência realizou entrevistas entre os dias 24 e 25 de julho, ouviu 1.000 eleitores, foi contratada pelo próprio instituto, possui margem de erro de 3,1 pontos percentuais, também com 95% de confiança, e está registrada sob o número BA-07924/2026. Já a pesquisa Genial Investimentos/Quaest foi realizada entre os dias 23 e 27 de julho, entrevistou 1.200 eleitores, apresenta margem de erro de 3 pontos percentuais, nível de confiança de 95% e registro BA-02331/2026.
Como todas foram realizadas praticamente no mesmo período, seria natural imaginar que apresentassem resultados muito semelhantes. Não foi isso que aconteceu. Em alguns casos, os números são praticamente idênticos. Em outros, a diferença chega a dois dígitos. Ao analisar os três levantamentos em conjunto, é possível identificar três aspectos que ajudam a compreender por que os cenários são tão distintos.
O primeiro deles está na disputa pelo Governo da Bahia. Curiosamente, existe uma enorme convergência quando o assunto é o desempenho do governador Jerônimo Rodrigues. A Genial/Quaest aponta 38% das intenções de voto, a Paraná Pesquisas registra 39,7% e a Futura Inteligência apresenta 39,8%. A diferença máxima entre os três levantamentos é de apenas 1,8 ponto percentual, praticamente dentro da margem de erro. Isso demonstra que, independentemente da metodologia utilizada, os institutos enxergam um eleitorado bastante consolidado em torno da candidatura do atual governador.
O cenário muda completamente quando o candidato analisado é o ex-prefeito de Salvador, ACM Neto. Enquanto a Genial/Quaest registra 39%, a Paraná Pesquisas aponta 48,9% e a Futura Inteligência chega a 53%. A distância entre o menor e o maior resultado alcança 14 pontos percentuais, tornando ACM Neto o candidato que apresenta a maior variação entre os três levantamentos. Em outras palavras, as pesquisas praticamente concordam sobre o tamanho do eleitorado de Jerônimo Rodrigues, mas fazem leituras muito diferentes sobre a capacidade de ACM Neto de reunir votos neste momento da campanha.
O segundo aspecto está relacionado ao tamanho da eleição que ainda permanece em disputa. Mais do que observar quem lidera, é fundamental analisar quantos eleitores ainda não escolheram um candidato. Nesse ponto, as pesquisas apresentam diagnósticos completamente distintos. A Futura Inteligência aponta que apenas 6% do eleitorado permanece entre indecisos, votos brancos e nulos na disputa pelo Governo. A Paraná Pesquisas identifica 11,4%, enquanto a Genial/Quaest registra 21%. Essa diferença altera completamente a leitura do cenário eleitoral. Se a fotografia da Futura estiver mais próxima da realidade, a eleição encontra-se muito mais consolidada. Se a Quaest estiver captando melhor o momento do eleitorado, ainda existe um espaço significativo para mudanças ao longo dos próximos sessenta dias de campanha.
Essa diferença torna-se ainda mais evidente quando a análise se desloca para a disputa pelas duas vagas ao Senado. A Paraná Pesquisas identifica 20,3% de eleitores entre indecisos, votos brancos e nulos. A Genial/Quaest chega a aproximadamente 46%, enquanto a Futura Inteligência aponta que 56% dos eleitores baianos ainda não definiram os seus dois votos para senador. Independentemente da metodologia utilizada por cada instituto, a conclusão é clara: existe uma enorme divergência sobre o tamanho do eleitorado que ainda pode alterar completamente o resultado da eleição para o Senado.
O terceiro ponto aparece justamente na análise dos candidatos ao Senado. A Genial/Quaest divulga os resultados separando primeiro voto, segundo voto e uma combinação dos dois votos. Para efeito de comparação, a análise considera a soma do primeiro e do segundo voto, permitindo aproximar sua metodologia daquela utilizada pelos demais institutos. A partir dessa leitura, percebe-se que Rui Costa e Jaques Wagner apresentam desempenho bastante consistente. Rui Costa aparece com 44,6% na Paraná Pesquisas, 47,5% na Futura Inteligência e, na Quaest, soma 33% no primeiro voto e 11% no segundo, chegando praticamente ao mesmo patamar. Jaques Wagner registra 35,1% na Paraná, 36% na Futura e soma 32 pontos entre primeiro e segundo voto na Quaest. Os três levantamentos, portanto, apontam uma percepção semelhante sobre a força eleitoral dos dois candidatos ligados ao grupo governista.
As maiores diferenças aparecem entre os candidatos da oposição. João Roma registra 24,1% na Paraná Pesquisas e 26,7% na Futura Inteligência, enquanto na Quaest soma 13 pontos entre primeiro e segundo voto. Angelo Coronel também apresenta comportamento semelhante. Surge com 21,9% na Paraná, 24% na Futura e totaliza 12 pontos na soma dos dois votos da Quaest. Já a Professora Delliana apresenta uma das menores oscilações proporcionais entre os levantamentos, variando apenas 1,4 ponto percentual entre os institutos, demonstrando um comportamento muito mais estável do seu eleitorado.
A comparação das três pesquisas mostra que não existe apenas uma forma de interpretar o cenário eleitoral baiano. Cada instituto fotografa um momento utilizando critérios próprios de amostragem, abordagem e tratamento estatístico. Ainda assim, quando os levantamentos são analisados em conjunto, surgem padrões bastante claros. Há consenso sobre a estabilidade eleitoral de Jerônimo Rodrigues e também sobre a força de Rui Costa e Jaques Wagner na disputa pelo Senado. As maiores divergências concentram-se na dimensão eleitoral de ACM Neto e na leitura sobre o tamanho do eleitorado que ainda não definiu seu voto, especialmente para senador.
Mais do que responder quem está na frente, as pesquisas ajudam a compreender o comportamento do eleitor. E, neste momento da campanha, talvez o dado mais relevante não seja a liderança de um ou outro candidato, mas a constatação de que os institutos ainda discordam profundamente sobre quanto da eleição já está decidido e quanto ainda permanece aberto à disputa. Essa diferença de diagnóstico poderá ser decisiva para a estratégia das campanhas ao longo das próximas semanas.
Paulo Maneira é jornalista, estrategista político e especialista em marketing eleitoral. Atua há mais de duas décadas na comunicação política e já participou de cerca de 30 campanhas eleitorais em diferentes estados brasileiros, coordenando estratégias para disputas proporcionais e majoritárias. É autor do livro Campanha Planejada, diretor da YellowFANT Comunicação e editor de sites onde analisa pesquisas, comunicação eleitoral e os principais movimentos do cenário político brasileiro.
