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ARTIGO - Tecnologia não salva empresa mal liderada = Por João Chebante
Nunca houve tanta tecnologia disponível para empresas quanto agora. Inteligência artificial, automação, análise de dados, computação em nuvem e plataformas capazes de integrar toda a operação prometem aumentar produtividade, reduzir custos e acelerar decisões.
Ainda assim, uma pergunta continua incomodando conselhos de administração e lideranças: por que tantas iniciativas de transformação digital entregam resultados muito abaixo do esperado? A resposta, cada vez mais evidente, é que a tecnologia raramente é o principal problema, na maioria dos casos, o obstáculo está na forma como as organizações são lideradas e geridas.
É possível comprar os melhores sistemas do mercado, contratar consultorias renomadas e investir milhões em inovação, pesquisa por melhores práticas e instrumentos que balizam processos. Mas nenhuma ferramenta é capaz de corrigir falta de direção estratégica, processos desorganizados ou uma cultura resistente à mudança.
Durante anos, muitas empresas trataram a transformação digital como um projeto de TI. A lógica era simples: adquirir novas plataformas, automatizar processos e esperar ganhos de eficiência. Hoje, está claro que essa visão é insuficiente. Segundo estudo da McKinsey & Company, cerca de 70% das iniciativas de transformação organizacional não atingem plenamente seus objetivos, sendo fatores humanos, como liderança, engajamento e cultura as principais causas de insucesso. Essas dificuldades se repetem em programas de transformação digital e adoção de novas tecnologias.
Isso mostra que tecnologia não substitui capacidade de gestão, ela potencializa aquilo que a organização já faz, para o bem ou para o mal. Portanto, automatizar um processo ruim apenas acelera o problema.
Neste sentido, existe um erro recorrente nas empresas, pois antes de revisar processos, muitas organizações tentam automatizá-los. O resultado é previsível:
Fluxos ineficientes tornam-se apenas mais rápidos.
Erros passam a acontecer em maior escala.
Retrabalhos continuam existindo, agora dentro de sistemas mais sofisticados.
É preciso entender que a inteligência artificial não corrige decisões equivocadas, ela amplia sua velocidade. Por isso, a transformação digital começa muito antes da implementação tecnológica, ela começa na revisão de processos, definição de responsabilidades e clareza sobre os objetivos do negócio.
Segundo a pesquisa Global Human Capital Trends, da Deloitte, organizações com lideranças capazes de conduzir mudanças, estimular aprendizado contínuo e desenvolver confiança apresentam maior capacidade de adaptação diante de transformações tecnológicas. Isso acontece porque a inovação depende menos da ferramenta e mais da disposição das pessoas para utilizá-la de forma consistente. Sem apoio da alta liderança, qualquer projeto de transformação tende a perder prioridade diante das urgências do dia a dia.
É preciso entender que a chegada da IA generativa trouxe uma expectativa de que decisões empresariais poderiam ser amplamente automatizadas, mas na prática, acontece o contrário. Quanto mais informação a tecnologia produz, maior passa a ser a importância da capacidade humana de interpretar contextos, estabelecer prioridades e tomar decisões estratégicas.
A IA identifica padrões, produz cenários e calcula probabilidades. Mas quem define os rumos da empresa continua sendo a liderança e essa distinção será cada vez mais importante. Empresas que confundem recomendação algorítmica com decisão executiva correm o risco de terceirizar justamente aquilo que representa sua principal vantagem competitiva.
Segundo o World Economic Forum, fatores como pensamento analítico, liderança, colaboração, resiliência e aprendizado contínuo estão entre as competências que mais ganharão importância até o fim da década, justamente porque sustentam a adoção eficaz de novas tecnologias. Ou seja, a inovação depende de pessoas preparadas para mudar.
Finalizo destacando que a próxima geração de empresas vencedoras não será formada por aquelas que simplesmente adotarem inteligência artificial antes dos concorrentes. Serão aquelas capazes de alinhar tecnologia, estratégia, processos e pessoas em torno de um objetivo comum.
A tecnologia continuará evoluindo em ritmo acelerado, ferramentas serão substituídas, plataformas ficarão obsoletas e novos modelos de IA surgirão continuamente. Mas o que permanecerá como diferencial competitivo será a capacidade da liderança de transformar inovação em resultado.
Porque a tecnologia pode aumentar produtividade, reduzir custos e acelerar decisões, mas ela nunca será capaz de substituir aquilo que define o sucesso de qualquer organização: uma liderança preparada para tomar boas decisões, mobilizar pessoas e conduzir mudanças com propósito.
João Chebante é CEO da Sinergis, empresa brasileira especializada em revenda de software e consultoria estratégica para a transformação digital.
