"Em medição de combustível, o pior resultado da diferença entre compra e utilização é o número zero", afirma Nelson Margarido / Foto: Divulgação
ARTIGO - Controle de combustível no campo: o mito do zero = Por Nelson Margarido
Recentemente, um cliente nos acionou pois acreditava ter encontrado uma grande falha em seu sistema de controle de combustível. Ao comparar as notas fiscais de diesel adquiridas com os registros de abastecimento da frota, a empresa identificou uma diferença de cerca de 8 mil litros.
À primeira vista, o número parecia elevado. Mas havia um detalhe importante: o consumo total da operação ultrapassou 1,1 milhão de litros ao longo de uma obra de dez meses. Na prática, a diferença representava cerca de 0,7% do volume total utilizado, um resultado que, do ponto de vista técnico, indicava um controle bastante consistente.
Quando perguntamos qual era o número esperado pela diretoria da empresa, a resposta foi direta: zero.
O mito da diferença igual a zero
Embora pareça contraintuitivo, esse é justamente o pior resultado possível em um processo real de medição. Quando a diferença entre volumes comprados e utilizados é exatamente zero, o mais provável é que os números tenham sido ajustados manualmente para “fechar a conta”. Ou seja, em operações reais, erro zero simplesmente não existe.
Isso ocorre porque toda medição de combustível está sujeita a pequenas variações físicas e mecânicas que fazem parte do próprio processo. O diesel, por exemplo, sofre dilatação e contração conforme a temperatura. De forma aproximada, cada 1.000 litros podem variar cerca de 1 litro para cada grau Celsius de temperatura. Por esse motivo, as distribuidoras informam nas notas fiscais o volume corrigido a 20 °C.
Outro fator relevante é a medição de níveis nos tanques de armazenamento. Estoques calculados a partir do nível do combustível podem ser afetados por variações de temperatura, pela presença de água ou sedimentos no fundo dos tanques e até pela própria geometria do reservatório. Na prática, esses sistemas costumam indicar volumes maiores do que o real, justamente porque água e impurezas acumuladas elevam o nível medido.
Além disso, os medidores volumétricos utilizados nos abastecimentos, os chamados blocos medidores, também possuem características próprias de funcionamento. Esses equipamentos apresentam erros inerentes de precisão e repetibilidade e, por característica construtiva, tendem a registrar volumes menores do que o volume real abastecido. Mesmo quando novos, esses equipamentos costumam apresentar desvios próximos de 0,2%. Com o uso, o desgaste das peças internas pode ampliar esse intervalo.
Agora, imagine todo esse cenário em operações de campo, como agricultura, florestal, mineração ou construção pesada, quando o combustível frequentemente passa por vários pontos de medição: tanque principal, caminhão de abastecimento, comboio e, finalmente, o equipamento em operação. A cada uma dessas etapas se adicionam pequenas variações ao processo.
Quando se cruza a informação dos blocos medidores, que tendem a registrar volumes menores, com os dados de nível dos tanques, que frequentemente indicam volumes maiores, o efeito pode ser potencializado, ampliando a diferença entre as medições. Somadas ao longo de milhares de litros abastecidos, essas diferenças tornam inevitável que o resultado final apresente algum desvio.
O real desafio está em garantir confiabilidade
Por isso, o verdadeiro desafio da gestão de combustível não é buscar números perfeitos, mas sim garantir medições confiáveis. Isso passa necessariamente por dois cuidados básicos: aferição periódica e calibração adequada dos medidores.
A calibração corrige pequenas variações mecânicas dos blocos medidores e garante que equipamentos diferentes apresentem resultados consistentes. Já a aferição periódica permite identificar quando o desgaste das peças começa a comprometer a precisão do sistema.
Esses equipamentos normalmente possuem lacres que garantem que a calibração realizada não seja alterada. No entanto, em muitas operações esse controle simplesmente não existe. Sem a gestão adequada desses lacres, torna-se possível alterar o ajuste do medidor aumentando ou reduzindo o erro de medição, o que pode abrir espaço para fraudes.
Esse tipo de situação é mais comum em sistemas manuais. Em sistemas automatizados de abastecimento, os controles eletrônicos e de auditoria reduzem significativamente esse risco. São procedimentos relativamente simples, mas essenciais para quem precisa controlar grandes volumes de combustível.
Em operações intensivas, pequenas diferenças de medição são inevitáveis. O que define a qualidade da gestão é saber interpretá-las corretamente e manter o processo dentro de limites técnicos aceitáveis. De forma geral, desvios abaixo de 1% indicam que o controle está funcionando de forma adequada.
No fim das contas, eficiência operacional não significa eliminar completamente as diferenças de medição. Significa compreender suas causas, monitorar os equipamentos e garantir que todo o sistema esteja calibrado e funcionando corretamente.
Porque, em gestão de combustível, o verdadeiro risco não está nos pequenos desvios. Está justamente naquele número que parece perfeito demais para ser verdadeiro: zero.
Nelson Margarido, Diretor operacional da Korth
