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Dia das Mães: quando a responsabilidade por crianças autistas é integral, invisível e, muitas vezes, solitário
No
Brasil, o Dia das Mães ganha um significado ainda mais profundo para
milhares de mulheres que são mães de pessoas autistas e
neurodivergentes. Além dos desafios cotidianos da criação, muitas
assumem de forma quase integral o cuidado de seus filhos — uma realidade
marcada por sobrecarga, renúncias e também por vínculos intensos e
transformadores.
Dados
da pesquisa Mapa Autismo Brasil mostram que cerca de 92,4% dos
responsáveis pelo cuidado de pessoas autistas são mães. O levantamento
também revela um impacto significativo na vida profissional dessas
mulheres: 30,5% estão desempregadas ou sem renda, muitas vezes por
precisarem abandonar o mercado de trabalho para se dedicar integralmente
às demandas de cuidado.
“As
mães hoje estão sobrecarregadas, isso é um fato! Quando falamos de mães
de crianças autistas ou com outras deficiências é preciso observar que o
peso que elas carregam não é o(a) filho(a) ou sua deficiência em si,
mas a forma como a sociedade lida com as diferenças. Preconceitos,
estereótipos, julgamentos fazem parte da rotina dessas mães. Assim como
também é parte do dia a dia delas ter de “brigar” por direitos básicos e
lutar pelo reconhecimento de que seu filho é um sujeito de direitos
inteiro. Então, essas mães também vivenciam a “fadiga de acesso”, informou Juliana Segalla, vice-presidente da Autistas Brasil.
Esse
cenário evidencia uma sobrecarga estrutural que recai majoritariamente
sobre as mulheres, reforçando desigualdades de gênero e a falta de
políticas públicas eficazes de apoio. A ausência de redes de suporte —
tanto familiares quanto institucionais — contribui para um quadro
recorrente de exaustão física e emocional entre mães de pessoas autistas
ou neurodivergentes.
De
acordo com o Autistas Brasil, é fundamental ampliar o debate público
sobre o papel dessas mulheres, especialmente em datas simbólicas como o
Dia das Mães. A organização destaca que, embora o amor e o vínculo com
os filhos sejam centrais nessa experiência, é preciso reconhecer que o
cuidado contínuo, muitas vezes solitário, exige suporte estruturado e
políticas de inclusão.
“As
políticas públicas de cuidado são fundamentais! É preciso lembrar de
“cuidar de quem cuida”. As mães de autistas (e de outras pessoas com
deficiência) precisam que olhem para sua saúde mental e física. A
realidade mostra o adoecimento dessas mães e o Estado precisa dar
atenção a isso”, disse Segalla.
O
Brasil tem cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, segundo
estimativas com base em dados do IBGE, o que reforça a urgência de ações
voltadas não apenas para o diagnóstico e acompanhamento, mas também
para o acolhimento das famílias — especialmente das mães, que estão na
linha de frente desse cuidado.
Ao
mesmo tempo em que enfrentam desafios significativos, muitas dessas
mulheres relatam que a maternidade também traz aprendizados profundos,
como o desenvolvimento de novas formas de comunicação, empatia e
resiliência. Ainda assim, a Autistas Brasil alerta: reconhecer essas
potências não pode significar romantizar a sobrecarga.
“Nem
no meu melhor sonho imaginei que ser mãe era tão bom (e intenso)!
Logicamente que qualquer maternidade também traz desafios e dores.
Nenhuma mãe quer que os filhos sofram e nós sabemos que temos de
prepará-los para a vida com o máximo de autonomia possível. Acho que o
que mais me dói é saber o quão cruel as pessoas podem ser e quantas
barreiras sociais nossos filhos podem enfrentar. Todavia, estamos aqui,
empoderando-os e fazendo com que eles saibam do seu valor e do quanto
são amados. Não trocaria meus filhos por ninguém! E eles não precisam de
conserto… O mundo é que precisa (e nós lutamos por isso)”, concluiu Juliana.
Neste
Dia das Mães, o convite é para ampliar o olhar sobre essas histórias,
dar visibilidade às múltiplas realidades da maternidade e fortalecer o
debate sobre políticas públicas que garantam dignidade, apoio e
qualidade de vida para mães de pessoas autistas e suas famílias.
SOBRE O PORTA-VOZ
Juliana Izar Soares da Fonseca Segalla é autista, mãe, vice-presidente da Autistas Brasil, pesquisadora
e advogada dedicada à promoção da justiça social. Professora de Direito
na Universidade Estadual do Norte do Paraná (UENP), é Pós-Doutora em
Democracia e Direitos Humanos na Universidade de Coimbra.
SOBRE A AUTISTAS BRASIL
Organização
nacional fundada e liderada por pessoas autistas, a Autistas Brasil
atua na formulação de políticas públicas, na incidência jurídica e no
desenvolvimento de programas educacionais em larga escala. Nos últimos
três anos, suas ações alcançaram mais de 21 mil educadores em todo o
país, consolidando a instituição como referência em inclusão,
neurodiversidade e direitos humanos.
Por Myllena Amorim
