Foto: Andreia Tarelow / Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - Honra não tem preço, tem valor = Por Ives Gandra
Ministros
do Supremo Tribunal Federal têm se considerado atingidos em sua honra
por críticas de fulano, beltrano, sicrano e, inclusive, de candidatos à
Presidência.
Pessoalmente,
tenho uma opinião a respeito da indenização por danos morais. Certa
vez, participava de um congresso no Rio de Janeiro com o ministro
Moreira Alves, e nós dois tínhamos como tema da palestra a
“quantificação de indenização por danos morais”.
Naquela
oportunidade, o ministro Moreira Alves, grande civilista, defendia que
nós temos que quantificar a honra e que se trata de um pretium doloris — um preço da dor. Desde aquela época, entretanto, defendi a tese de que a minha honra não tem preço.
Nunca
vou entrar com uma ação judicial contra alguém que pretenda me ofender.
Conhecendo quem sou e sabendo que, às vezes, trata-se de uma mera
agressão, nunca respondo, pois a melhor forma de responder é não dando
atenção.
Ao contrário do ministro Moreira Alves, que defendeu a necessidade de haver um pretium doloris,
dizia e digo o seguinte: a honra não tem preço; ela não está no
mercado, valendo "tanto" ou "tanto". Eu defendia e continuo defendendo
que a honra verdadeira não tem preço.
Mas
o que vemos hoje tem, sobretudo, um viés político, pois quando se
procura atingir um candidato à Presidência da República, um deputado, um
senador ou um ministro da Suprema Corte, a pessoa reage, demonstrando
que realmente foi afetada pela manifestação de quem está dizendo.
Além
disso, a judicialização das críticas — especialmente por parte de quem
detém o poder — acaba por criar um efeito inibidor na liberdade de
expressão. Quando figuras públicas reagem a qualquer contestação com
processos, não protegem apenas sua honra; inadvertidamente, sinalizam
que o debate democrático é perigoso e deve ser contido. Isso transforma o
Poder Judiciário em uma arena de vaidades, onde questões que deveriam
ser resolvidas no campo do debate público ou da indiferença soberana
passam a ocupar uma pauta que deveria ser reservada a temas de real
interesse coletivo.
É
preciso distinguir, portanto, a crítica ácida ou o insulto gratuito da
calúnia ou difamação propriamente ditas, que possuem contornos legais
definidos. A honra, em sua acepção subjetiva — o sentimento que temos de
nós mesmos —, não pode ser tutelada pelo Estado. Quando um magistrado
ou um político utiliza a máquina judicial para punir ofensas menores,
ele transfere a outros a responsabilidade por sua própria estabilidade
emocional, o que, ironicamente, diminui a estatura moral do cargo que
ocupa.
Reafirmo:
quem tem, verdadeiramente, honra pouco se importa com a opinião alheia.
A pessoa mais importante — que é Cristo, para mim o próprio Deus — não
deu atenção aos ataques que sofreu e perdoou a todos quando estava na
cruz. Ora, nós, que somos um ponto temporário no Universo, dizer “fui
atacado na minha honra e ela tem um preço” é, no mínimo, curioso.
Quem
ataca, sim, demonstra que não tem honra. E quem reage está dando um
preço à sua honra e, ao mesmo tempo, desvalorizando-a. Por esta razão,
pessoalmente, nunca respondo, nem dou atenção.
Acredito,
pois, que a melhor forma de mostrar que aquela agressão não vale nada é
desconsiderá-la; é não dar importância, considerá-la sem relevo. Sendo
assim, ao contrário do meu queridíssimo e saudoso amigo Moreira Alves,
eu sempre dizia e digo: a minha honra não tem preço.
O
silêncio diante da injúria não é sinal de fraqueza, mas de
superioridade. Quem ocupa postos de mando deve compreender que a
autoridade não emana da capacidade de silenciar críticos através de
sentenças, mas da solidez de um caráter que entende que a verdadeira
honra, por ser inalienável, jamais deveria ser objeto de compensação
pecuniária.
Quem dá preço à sua honra é porque, realmente, a ela não dá muito valor.
Ives Gandra da Silva Martins é
professor emérito das universidades Mackenzie, Unip, Unifieo, UniFMU,
do Ciee/O Estado de São Paulo, das Escolas de Comando e Estado-Maior do
Exército (Eceme), Superior de Guerra (ESG) e da Magistratura do Tribunal
Regional Federal – 1ª Região, professor honorário das Universidades
Austral (Argentina), San Martin de Porres (Peru) e Vasili Goldis
(Romênia), doutor honoris causa das Universidades de Craiova (Romênia) e
das PUCs PR e RS, catedrático da Universidade do Minho (Portugal),
presidente do Conselho Superior de Direito da Fecomercio
-SP, ex-presidente da Academia Paulista de Letras (APL) e do Instituto
dos Advogados de São Paulo (Iasp).
