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ARTIGO - A IA já entrou nas empresas brasileiras, mas ainda de forma concentrada e padronizada = Por Rodrigo Cabot
Soluções prontas aceleram a entrada da inteligência artificial (IA) nas empresas e reduzem barreiras de adoção. O problema começa quando essa facilidade é confundida com maturidade. No Brasil, a distância entre usar a tecnologia e transformá-la em impacto real de negócio ainda é um dos principais desafios, porque o diferencial depende menos da ferramenta escolhida e mais da forma como ela se conecta à operação.
A nova edição da pesquisa TIC Empresas 2025, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), ajuda a dimensionar esse cenário. De acordo com o estudo, 17% das empresas brasileiras usaram algum tipo de IA em 2025; em 2024, o número era 13%. O dado mostra avanço, sem dúvida. No entanto, a diferença por porte revela uma adoção ainda bastante concentrada: a utilização aparece em 15% das pequenas empresas, 32% das médias e 50% das grandes.
Outro dado ainda mais revelador aparece na forma como essas empresas estão acessando a IA. Entre as companhias que já usam a tecnologia, 80% recorrem a softwares ou sistemas prontos para uso, acima dos 76% registrados em 2024. Esse padrão se repete em todos os portes: 79% nas pequenas, 83% nas médias e 81% nas grandes. Ao mesmo tempo, os percentuais ligados a maior adaptação interna dessa tecnologia seguem bem abaixo desse patamar. Em 2025, 26% disseram usar soluções desenvolvidas pelos próprios funcionários, 30% recorreram a sistemas modificados internamente e 26% utilizaram softwares de código aberto também ajustados dentro da empresa. Como essas formas de aquisição não são excludentes, a mesma empresa pode aparecer em mais de uma categoria.
Esse retrato diz menos sobre preferência técnica e mais sobre estágio de mercado. A IA já entrou nas empresas brasileiras, mas ainda principalmente pela via mais acessível, rápida e padronizada: a compra de soluções prontas, muitas vezes voltadas à automação de processos e fluxos de trabalho, aplicação citada por 68% das empresas usuárias. Isso acelera a entrada e reduz barreiras de adoção, mas não resolve, por si só, integração com sistemas legados, revisão de processos, controle de qualidade, governança e adaptação ao contexto real de cada operação.
Esse movimento é natural em uma fase inicial, mas também tem limite. O próximo passo não parece ser apenas ampliar o número de empresas que usam a tecnologia, mas aprofundar a qualidade desse uso. Daqui para frente, a vantagem competitiva tende a estar menos em adotar IA primeiro e mais em conseguir conectá-la à operação, redesenhar processos e transformar uso em impacto real de negócio.
Rodrigo Cabot é Gerente de P&D da Ecosistemas Global. Engenheiro de Computação pela UNLAM, possui pós-graduações em Administração de Organizações Financeiras (UBA) e em Gestão Estratégica de Inteligência Artificial (UCEMA). Atualmente lidera iniciativas de inovação tecnológica da empresa em diversos países, incluindo Argentina, Brasil, Chile, Espanha, México e Estados Unidos. Com mais de 25 anos de experiência em TI, coordenou projetos de transformação digital, automação e melhoria contínua em setores como bancos, seguros, energia e saúde.
