Psicólogo, Mestre em Psicologia e escritor Vladimir Nascimento / Foto: Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - VIOLÊNCIAS COM “V” MAIÚSCULO = Por Vladimir Nascimento
É sabido por todos que a violência, em suas expressões multifacetadas, sempre existiu. Atualmente, esse fenômeno está mais visível e disseminado socialmente em função do aumento dos canais de denúncia, órgãos de combate e prevenção, mas principalmente devido ao empoderamento da vítima em reconhecer-se como um ser humano com direito a ter uma vida digna e livre de quaisquer tipos de violência.
Uma das formais mais sutis – e paradoxalmente – mais cruéis de violência é a psicológica, cujas interfaces podem ser identificadas como: Bullying, humilhação, manipulação, ameaças, preconceito. Todavia, exceto às vítimas, são poucos os que consideram nocivas essas formas de atentado à dignidade humana.
Com o boom das redes sociais, ficou muito mais fácil para os perpetradores serem identificados e as vítimas terem provas ao seu favor. Porém, o fôlego que essas pessoas começaram a ter foi revertido em uma espécie de re-vitimização a partir do momento em que parte da sociedade começa a deslegitimar as diversas formas de violência através de comentários, como: “o mundo tá chato”, “no meu tempo não tinha isso”, “mi-mi-mi para chamar atenção”, etc.
Mas não podemos deixar que os papéis “agressor-vítima” se invertam. Não é violência entre aspas; é Violência com “V” maiúsculo, e precisa ser combatida mesmo. Nossa sociedade ocidental foi incubada pela hegemonia branca, machista, heteronormativa, judaico-cristã, que sempre ditou o que era “certo”, e que todos tinham que ser subservientes e acatar. Hoje as minorias tem voz e estão exigindo respeito e reparação. E esse abalo do status quo está incomodando aqueles que fazem parte desse núcleo dominante porque estão sentindo na pele os que os dominados sofreram por quinhentos anos.
Devemos observar a realidade não sob uma ótica reducionista, a-histórica e simplista, mas de forma holística, complexa e multifacetada. Só assim poderemos reconhecer que exigir igualdade salarial não é exagero da mulher; lutar pela mudança do nome e gênero nos documentos não é frescura; reclamar de uma piada racista não é vitimismo.
Não se calar é o aspecto nevrálgico da luta das minorias, e essa é a direção da corrente que devemos seguir, apesar dos contrafluxos que certamente se apresentarão. E nossa insistência através de micro-revoluções diárias contra quaisquer tipos de violências certamente contribuirá para abalar as vigas mestras do sistema dominante, a fim de que as futuras gerações possam vivenciar um mundo mais justo e benevolente.
Vladimir de Souza Nascimento
Psicólogo, mestre em Psicologia (UFBA), escritor e Palestrante.
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