Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
Autistas Brasil repudia fraudes em clínicas de autismo e denuncia práticas sem base científica que colocam pacientes em risco
A
Autistas Brasil manifesta repúdio contundente às práticas identificadas
em clínicas investigadas pela Polícia Civil de São Paulo por suspeita
de fraude em laudos de diagnóstico de autismo e reforça a necessidade
urgente de responsabilização rigorosa dos envolvidos.
A
operação, realizada em Santos e Praia Grande, no litoral de São Paulo,
apura um suposto esquema de falsificação de documentos médicos
utilizados para obtenção indevida de benefícios, incluindo indícios de
adulteração de assinaturas de profissionais de saúde e pacientes.
Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em unidades nas cidades de
Santos e Praia Grande, além de endereços ligados a funcionários da
clínica investigada.
Para
a Autistas Brasil, o caso não é isolado e evidencia um problema
estrutural mais amplo: a atuação de clínicas que operam à margem da
ciência, oferecendo tratamentos sem comprovação de eficácia e, em muitos
casos, potencialmente prejudiciais ao desenvolvimento de pessoas
autistas.
“A
gente não pode tratar o autismo como um espaço para oportunismo. Quando
uma clínica oferece práticas sem base científica ou manipula
diagnósticos, ela não está só cometendo um crime, está colocando em
risco o desenvolvimento de crianças e violando direitos básicos dessas
famílias. E isso não são desvios isolados, é um problema que nasce do
próprio modelo com o qual parte dessas clínicas opera”, afirma Arthur
Ataide, vice-presidente da Autistas Brasil.
A
Autistas Brasil alerta que esse tipo de prática representa uma dupla
violação. De um lado, configura crime ao fraudar documentos e sistemas
públicos. De outro, expõe crianças e adolescentes a intervenções
inadequadas, que não seguem protocolos baseados em evidências e podem
comprometer seu desenvolvimento, saúde e bem-estar.
“Esse
modelo transforma cuidado em produto e o autismo em mercado. Padroniza
crianças, ignora subjetividades e vende uma promessa de normalização sem
respaldo científico. No fim, cria um ecossistema onde o lucro depende
do medo e da expansão contínua dos serviços. Isso não é ciência, não é
cuidado e não é ética. É exploração”, afirma Arthur Ataide.
“A
indústria do autismo não vende para uma família tranquila. Ela vende
para uma família em choque. Por isso o discurso da urgência e da ‘janela
de oportunidade’ é tão central — é o que produz a decisão antes da
informação”, afirma Guilherme de Almeida, presidente da Autistas Brasil.
A
organização ressalta que o tratamento do Transtorno do Espectro Autista
deve ser conduzido com base em diretrizes científicas consolidadas, com
acompanhamento multiprofissional qualificado e respeito às
especificidades de cada pessoa. Qualquer abordagem que prometa
resultados rápidos, padronizados ou sem respaldo técnico deve ser vista
com extrema cautela.
Além
disso, a entidade chama atenção para o impacto social dessas práticas,
que acabam alimentando desinformação, distorcendo a compreensão pública
sobre o autismo e colocando sob suspeita diagnósticos legítimos — o que
pode dificultar o acesso de famílias a direitos fundamentais, como
saúde, educação e assistência.
“A
mãe que duvida de quarenta horas semanais é tratada como mãe
negligente. Não é. É mãe que pensa. E o sistema foi construído para não
tolerar mãe que pensa”, completa Guilherme de Almeida.
A
Autistas Brasil também destaca que clínicas com histórico de
irregularidades, denúncias recorrentes ou métodos questionáveis já vêm
sendo alvo de preocupação por parte de especialistas e famílias, o que
reforça a importância de fiscalização contínua e atuação mais rigorosa
dos órgãos competentes.
Diante
do avanço da desinformação sobre o autismo no país, a entidade reforça
que combater fraudes e coibir práticas antiéticas é essencial para
proteger não apenas políticas públicas, mas principalmente a dignidade e
os direitos das pessoas autistas.
A
organização defende o fortalecimento da regulação dos serviços
especializados, maior transparência nos processos de diagnóstico e
tratamento, e o compromisso absoluto com práticas baseadas em evidências
científicas.
Por Myllena Amorim
