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ARTIGO - Na juventude, o autoritarismo é ainda mais lamentável = Por Dau Bastos
Cresci em ambiente patriarcal marcadamente autoritário. Em nosso microcosmo, pobre não piava, o corpo feminino era mantido sob rédeas curtas – e tudo parecia divinamente natural. Seguindo destino comum na região, virei coroinha e depois seminarista, chegando a ingressar num mosteiro beneditino. Pois bem: justamente no claustro, conheci a teologia da libertação, que vê no evangelho um convite muito claro ao cultivo de uma igualdade que não admite exploração, tampouco abuso de poder.
Isso transformou de tal maneira minha percepção da vida que, ao abandonar a via religiosa, embarquei na militância secundarista. Em desdobramento lógico, durante a graduação participei do movimento em prol da redemocratização do país. Com uma trajetória tão sinuosa, acredito enxergar as motivações dos jovens de hoje que defendem o autoritarismo. Mas lhes desejo uma guinada semelhante àquela que a existência generosamente me proporcionou.
Como deixei o espírito catequético para trás, não tento convencer ninguém de nada nem mesmo nas redes sociais. Em imitação rasteira de um importante personagem de Machado de Assis, tenho “tédio à controvérsia”. Acontece que o ofício de escritor me obriga a inventar histórias dinamizadas por conflitos. Portanto, é inevitável que embates como a guerra ideológica que alimenta a polarização inspirem a criação de enredos como aqueles que compõem meu novo livro, Manobras de retorno.
A primeira narrativa se passa na década de 1970 e tem como personagem principal uma guerrilheira que quer melhorar o mundo, mas antecipa o questionamento – que os exilados fariam posteriormente – sobre a pertinência da luta armada. Em seguida, uma trupe de teatro universitário encena uma peça simplesmente mutilada pela censura. O terceiro conto situa o escritor Caio Fernando Abreu em 1982, a se perguntar se o processo de abertura política realmente chegaria a bom termo.
Como se vê, são três aventuras protagonizadas por moças e rapazes irmanados no esforço de interromper as barbaridades cometidas pelos militares. Naquele momento, a juventude ocupava o primeiro plano de um enfrentamento visto como vital. Meu livro é de ficção, mas não pode prescindir da perspectiva histórica – à luz da qual os jovens autoritários de nossos dias parecem desinformados, ingênuos ou mal-intencionados.
A quarta trama da coletânea transcorre alguns anos atrás e apresenta um general que reage à iminência da aposentadoria buscando reeditar a ditadura. Tenha ou não afinidade com o pensamento do personagem, o leitor nota que a formação no quartel e a nostalgia de idoso imprimem alguma lógica ao plano. Por sorte, a lembrança que os compatriotas guardam do desastroso período de 1964 a 1985 inviabiliza a realização de seu delírio despótico.
O último entrecho conta a suposta ressurreição de Louis-Ferdinand Céline nos trópicos. Falecido em 1961, o ficcionista concentrou seus escritos em torno das duas guerras mundiais e se firmou como o grande romancista francês do século XX. Mas se enredou na contradição de combinar linguagem libertária a uma visão de mundo tão autoritária que pareceu radioativa aos olhos dos próprios nazistas. No Brasil, desanca a direita e a esquerda, mas, tanto quanto o general do quarto conto, é de um desvario político evidente.
Em síntese, os personagens variam bastante em termos ideológicos, ainda que tenham em comum a vulnerabilidade e o paradoxo. A cercá-los, a realidade abunda em provas de que, independentemente da latitude e da época, as ideias autoritárias são sempre atrozes e anacrônicas. Assim se explica a lástima de vê-las defendidas por uma parcela da juventude brasileira atual.
Dau Bastos – professor de literatura brasileira e autor da obra Manobras de Retorno.
