Foto: Laila Andrade
O que é ‘comunicação decolonial’ e porquê o tema ganha espaço com a aproximação das ‘Eleições 2026’
Você já ouviu falar em comunicação decolonial? O conceito, cada vez mais presente em debates sobre linguagem, cultura e sociedade, traz uma ruptura aos padrões de comunicação herdados por estruturas coloniais, que definiram quem pode falar, como falar e quais vozes são legitimadas no espaço público.
Na prática, a comunicação decolonial questiona padrões considerados ‘universais’, revelando como essas normas foram construídas a partir de uma lógica excludente. Em ambientes de prestígio, como empresas, instituições e espaços acadêmicos, esses códigos ainda imperam como filtros ocultos, determinando comportamentos, linguagem, vestimentas, entonação, postura e principalmente, estética.
Com a aproximação das ‘Eleições 2026’, especialistas observam uma ampliação do eleitorado negro, que tem pressionado a linguagem política tradicional, baseada em códigos historicamente restritivos de representação e legitimidade. A força motriz dessa comunidade é emplacada por aproximadamente 112 milhões de brasileiros, segundo dados do Censo 2022 do IBGE.
Ao articular estética, discurso e letramento racial, o trabalho desenvolvido por Cáren Cruz, Investida da 9ª edição do Shark Tank Brasil, Comunicóloga e CEO da Pittaco Consultoria, parte da experiência cotidiana com códigos coloniais que não dialogam com suas vivências enquanto mulher preta. Segundo a CEO, narrativas decoloniais atuam diretamente na reconstrução da autoestima e do senso de pertencimento.
“Comunicação decolonial é quando a gente para de chamar de ‘neutro’ aquilo que foi treinado como regra. Não é apenas sobre palavras, mas sim o pacote completo de códigos: o jeito de falar, vestir, a estética ‘aceitável’, a postura ‘profissional’. Na Pittaco, eu trabalho exatamente essa virada: ler os códigos sociais e parar de pedir que pessoas negras apaguem referências culturais para serem respeitadas”, explica Cáren Cruz.
Segundo Cáren, quando a linguagem deixa de exigir apagamentos, pessoas negras passam a ocupar espaços formais com mais segurança, sem a necessidade de abandonar referências culturais ou expressões identitárias. No cenário acadêmico, corporativo, institucional ou político, não é diferente. “O que chamam de padrão muitas vezes é só um costume colonial, com cara de excelência. Quando a comunicação muda, o corpo muda junto. A pessoa não precisa performar distanciamento para ser lida como competente. Ela sustenta presença que, no fim, é um debate político”, revela.
A comunicação decolonial, de acordo com a CEO da Pittaco Consultoria, contribui para que profissionais negros se reconheçam como pertencentes, já que o discurso atua como mediador entre identidade e performance social, permitindo trajetórias mais alinhadas à experiência individual. “Eu observo isso na prática. Quando a narrativa valida a identidade, a pessoa para de gastar energia tentando caber e começa a gastar energia liderando. É por isso que comunicação decolonial não é tendência acadêmica; mas uma ferramenta de autonomia, pertencimento e reposicionamento social”, conta.
Para Cáren, a consolidação dessas narrativas possuem amplo impacto coletivo, o que o torna ‘fator determinante’ para a corrida eleitoral. Ao circular em espaços de visibilidade e prestígio, Cáren explica que os discursos rompem normas coloniais e influenciam práticas institucionais, campanhas de comunicação e políticas de diversidade, ampliando a noção sobre excelência, competência e liderança a partir de perspectivas plurais.
“Campanha é disputa de imaginário. E se o eleitorado negro é maioria num país como o Brasil, não faz sentido insistir numa linguagem que trata a negritude como tema, e não como centro de experiência social. Quem entender isso vai comunicar com mais verdade e mais conexão”, revela.
Nesse cenário, iniciativas que utilizam a comunicação como ferramenta de reconstrução subjetiva ganham relevância. Para a especialista, ao articular discurso, identidade e contexto social, as narrativas decoloniais redefinem às autoridades e o reconhecimento na sociedade contemporânea.
“A comunicação decolonial não é apenas falar de diversidade, mas sobre mudar o que a sociedade chama de referência. É reeducar o olhar: quem é lido como confiável, sofisticado, quem é lido como ‘preparado’. Quando esses critérios mudam, muda o poder”, conclui.
