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ARTIGO - COP30 e a descolonização do futuro: o poder da favela na justiça climática = Por Natália Cunha
A realização da COP30, em Belém do Pará, no coração da Amazônia, traz luz a uma verdade inegável: a crise climática é um desafio complexo, com raízes em um modelo de organização da sociedade política e econômica, que insiste em marginalizar determinados grupos e territórios. Ao sediar o evento na capital brasileira com maior índice de "favelização", segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil coloca no centro do debate a mesma divisão geopolítica que Frantz Fanon, um século atrás, denunciava: a segregação baseada em acesso a recursos.
São as populações periféricas, majoritariamente negras e indígenas, que vivem nas zonas de sacrifício e maiores impactos sobre a crise ambiental, arcando com a falta de saneamento, a moradia insegura e a exposição a desastres como inundações e deslizamentos. A sobrevivência se torna, para esses grupos, um desafio permanente.
A discussão sobre justiça climática precisa incorporar de maneira abrangente a perspectiva descolonial. Fanon, em “Os Condenados da Terra”, nos ensina que a luta pela dignidade começa com a desalienação e a tomada de palavra. A crise climática representa um desafio que limita o desenvolvimento social, humano e econômico além da autonomia e segurança desses povos. Portanto, a solução começa com o protagonismo e escuta das comunidades.
Precisamos destacar o poder de invenção e reexistência que reside na favela. É desse lugar que emerge a imaginação necessária para construir alternativas e resgatar modos de enfrentamento às mazelas e a todos os impactos que já existem, na perspectiva de garantir outros futuros. E essa imaginação se materializa nas soluções que as comunidades desenvolvem por necessidade. É a força da “sevirologia”, mais conhecida como a arte de se virar, que transforma a urgência em tecnologia social. Estamos falando de economias de solidariedade, de sistemas de cuidado mútuo mais resilientes e colaborativos do que o individualismo que está forjado em grandes conexões que cada vez mais estão a serviço dos isolamentos e privilégios sem considerar os seus impactos ambientais.
A verdadeira inovação para a emergência climática que vivemos hoje não virá dos centros de alta tecnologia ou das cúpulas diplomáticas. Ela emergirá do esforço conjunto de reconhecimento ao essencial à vida que reconheça a diversidade de territórios, de povos, de identidades de cidades, de tecnologias de papéis e de canetas. O conhecimento construído pela experiência e das práticas de autogestão que vêm dos territórios periféricos precisa ter espaço para compartilhamento e capacidade para afetar os demais de modo que seja reconhecido como parte da solução para um futuro sustentável. É tempo de mudar para mudar.Natália Cunha é Diretora do Museu das Favelas, instituição da Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo
