Professor Nestor Gálvez / Foto: Divulgação UNIFACS
De quem ensina a quem aprende: professores transformam trajetórias por meio da educação na Bahia
Em 2006, Nestor Gálvez Ronceros deixou o
Peru em uma viagem que mudaria para sempre sua história. Engenheiro
mecânico recém-formado, ele buscava no Brasil a oportunidade de
continuar os estudos. Foram dias de deslocamento de ônibus até o Rio
de Janeiro. No bolso, levava aproximadamente 140 dólares (quantia que na
época equivalia a cerca de R$300,00), valor que precisou “esticar” por
cerca de dois meses, até a liberação da bolsa de pesquisa, contando
também com o apoio de colegas que
conheceu pelo caminho.
“Quando olho para trás, percebo que aqueles 140 dólares representavam muito mais do que dinheiro. Representavam coragem, incerteza e, principalmente, a decisão de acreditar que era possível construir uma nova etapa da minha vida por meio da educação e da pesquisa”, relembra.
No Rio, encontrou os laboratórios e os
orientadores de mestrado que procurava e desenvolveu um projeto na área
de liquefação do gás natural, aprofundando conhecimentos em criogenia,
termodinâmica e eficiência energética. Experiência que se
tornou uma das bases para sua aproximação com o hidrogênio verde.
Anos depois, escolheu a Bahia, pelas oportunidades profissionais, para iniciar uma nova fase. Foi aqui que nasceram seus dois filhos, Andrea e Nestor, suas principais motivações para continuar avançando. A eles, procura transmitir uma mensagem que aprendeu com a própria jornada: “conhecimento, persistência e trabalho podem abrir caminhos que, no início, parecem impossíveis”.
Em 2018, Nestor chegou ao campus de Feira
de Santana da Universidade Salvador (UNIFACS), integrante do maior e
mais inovador ecossistema de ensino de qualidade do país: o Ecossistema
Ânima, onde permanece como professor. Na sala de aula, identificou
outro espaço para materializar uma ideia que o acompanha: a educação
também pode despertar curiosidade, estimular a experimentação e
aproximar os estudantes de problemas que vão além dos livros e das
equações.
Ao estudar o hidrogênio verde, o professor busca compreender não apenas a produção, mas toda a cadeia que envolve eficiência energética, armazenamento, liquefação, transporte e utilização, além das condições necessárias para viabilidade econômica. No Nordeste, ele identifica possibilidades relacionadas à disponibilidade de fontes de energia solar e eólica, mas também destaca os desafios que precisam ser enfrentados, como infraestrutura, qualificação profissional, inovação e investimentos. Para ele, entender esse cenário também significa preparar os estudantes para participar de uma área que pode abrir novos caminhos para a engenharia e para o desenvolvimento energético da região.
Em atividades experimentais, sob
direcionamento de Nestor, os alunos puderam construir, testar e observar
sistemas relacionados ao hidrogênio, dando forma a conceitos de um
campo que reúne inovação e sustentabilidade. “Mais do que ensinar
o funcionamento de uma célula de hidrogênio, o objetivo era mostrar aos
estudantes que eles são capazes de construir algo, investigar um
problema e transformar conhecimento teórico em uma experiência
concreta”.
Ao recordar os caminhos percorridos desde o dia em que atravessou a fronteira, o peruano enxerga uma trajetória em que pesquisa e docência se encontram. O hidrogênio verde tornou-se uma espécie de conexão entre momentos distintos de sua carreira, mas também uma forma de pensar no futuro e nas pessoas que poderão construí-lo.
“Talvez essa seja a principal contribuição que procuro deixar como professor e pesquisador: preparar pessoas para aquilo que ainda está sendo construído. Se conseguirmos despertar nos estudantes a capacidade de pesquisar, experimentar, questionar e propor soluções, estaremos formando não apenas engenheiros para o mercado de trabalho, mas profissionais capazes de participar da construção dos próximos sistemas energéticos”, acredita Nestor, que se aproxima dos 15 anos de ensino.
Para além da sala de aula
Se a história de Nestor foi marcada pela mudança de país e pela pesquisa, a do professor de Arquitetura Johniery Almeida, da UNIFACS, mostra que a docência pode inspirar e transformar por diferentes ângulos.
A relação de Johniery com a Arquitetura vem desde a infância. Antes mesmo de escolher a profissão, ele já observava atentamente a dinâmica das cidades, os edifícios e os espaços ao seu redor, traduzindo essa percepção em desenhos criativos de casas e ambientes. Durante o ensino médio, o olhar curioso do jovem encontrou incentivo na escola, especialmente nas aulas de um professor de Geometria, engenheiro de formação, que o aproximou dos primeiros conceitos da disciplina e confirmou sua aptidão.Decidido a seguir o caminho técnico e criativo, Johniery ingressou na graduação em Arquitetura e Urbanismo justamente na UNIFACS, instituição onde construiu uma etapa marcante de sua trajetória e da qual se orgulha de ser egresso. Foi no ambiente universitário que o desejo de lecionar começou a ganhar força, motivado pela admiração por seus próprios professores e por experiências como monitoria e iniciação científica. O caminho na carreira acadêmica consolidou-se no mestrado e, atualmente, segue em expansão no doutorado.“Minha vocação pela Arquitetura sempre foi muito presente. Acredito que, em grande medida, isso se deve ao caráter criativo da profissão e à possibilidade de estabelecer um diálogo constante com as artes, experimentando ideias e propondo novas soluções para os espaços e para a vida das pessoas”, comenta.
Essa visão encontra no Escritório Público de Arquitetura e Engenharia (EPAE) da UNIFACS um local de atuação. “O EPAE é um projeto de extensão que materializa de forma muito concreta o compromisso da universidade com a sociedade. Por meio dele, buscamos aproximar o conhecimento produzido na universidade das necessidades reais da população, proporcionando aos estudantes uma experiência de formação que ultrapassa os limites da sala de aula”, conta o educador.
À frente do EPAE no campus de Feira de Santana há cinco anos, o professor acompanha iniciativas que também possuem uma importante dimensão social. Em parceria com a Defensoria Pública do Estado da Bahia, o projeto presta serviços técnicos de Arquitetura e Engenharia, especialmente em demandas relacionadas à Assistência Técnica para Habitação de Interesse Social (ATHIS). Nesse período, o trabalho atendeu diversas famílias, especialmente em processos de regularização fundiária. “São situações em que um conhecimento técnico que, muitas vezes, parece restrito ao universo profissional da Arquitetura e da Engenharia passa a ter um impacto muito concreto na vida das pessoas, contribuindo para assegurar direitos e proporcionar maior segurança em relação à sua própria moradia”, avalia.
Essa conexão entre universidade e comunidade está no centro daquilo que Johniery considera essencial na formação acadêmica. Para ele, a extensão cria oportunidades para que os estudantes aprendam a partir de situações reais, ao mesmo tempo em que permite que o conhecimento produzido na universidade alcance a sociedade.
“Quando um estudante percebe que o conhecimento que adquiriu em sala de aula pode ajudar uma família a ter mais segurança em sua própria casa, contribuir para que alguém tenha acesso a um direito ou simplesmente encontrar uma solução para um problema que parecia difícil, ele começa a compreender o verdadeiro sentido da profissão que escolheu. E é muito bonito acompanhar esse processo, porque nós também nos transformamos enquanto ensinamos".
O professor reflete ainda sobre o papel que exerce: "Formar profissionais, sim, mas formar pessoas conscientes do lugar que ocupam no mundo e da responsabilidade que têm com as vidas que podem tocar. Se conseguirmos fazer com que nossos estudantes saiam daqui entendendo que o conhecimento só ganha todo o seu valor quando é colocado a serviço das pessoas, então teremos cumprido uma parte muito importante da nossa missão”.
Por Andréa Castro
