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ARTIGO - O lado oculto da eficiência energética predial na climatização = Por Bruno Hessel
O debate sobre transição energética no Brasil atinge um momento decisivo. Se por um lado o país ostenta uma matriz elétrica onde 88,2% da capacidade provém de fontes renováveis, por outro o país enfrenta o desafio crônico da eficiência no consumo final. Dados do Ministério de Minas e Energia (MME) apontam que as edificações comerciais, públicas e residenciais consomem aproximadamente 50% de toda a energia elétrica gerada no território nacional. No entanto, ao analisar a anatomia do consumo interno de um grande edifício, um gigante silencioso se destaca: os sistemas de Aquecimento, Ventilação e Ar Condicionado (HVAC/AVAC).
Sozinho, o subsistema de climatização chega a responder por até 40% de toda a fatura energética de um edifício comercial ou industrial. Historicamente operado de forma rígida ou isolada, o HVAC representa o 'lado oculto' dos custos operacionais, onde desencontros de ocupação, falta de calibração térmica e ausência de previsibilidade geram perdas financeiras contínuas e aumentam desnecessariamente a pegada de carbono das empresas.
A complexidade da gestão térmica intensifica-se em setores de alta exigência operacional. Em ambientes hospitalares, o controle do HVAC ultrapassa o conforto e torna-se um fator crítico de segurança biológica, onde o fluxo de ar e a pressurização evitam contaminações. Em data centers, infraestruturas cuja demanda cresce em ritmo acelerado, a climatização de precisão é o garante da continuidade operacional, com a eficiência medida rigorosamente pelo indicador de PUE (Power Usage Effectiveness).
Já no segmento de hotéis e edifícios corporativos de alto padrão, a climatização atua diretamente na atração de locatários e hóspedes em busca de conforto aliado a certificações sustentáveis de prestígio, como LEED e WELL. Nesses ambientes, manter equipamentos operando com capacidade máxima em áreas com baixa ocupação ou durante horários de vacância pós-checkout é um exemplo claro do desperdício que a tecnologia moderna se propõe a extinguir.
Diante da urgência por operações mais enxutas, a automação predial de nova geração disponível no mercado rompe com o isolamento do HVAC. As tecnologias atuais introduzem um novo patamar de flexibilidade no controle de sistemas de climatização e utilidades prediais. Com arquiteturas abertas baseadas em protocolos padronizados de comunicação, como BACnet (IP e MS/TP), Modbus, KNX e MQTT, e o uso de pontos universais configuráveis (capazes de atuar como entradas ou saídas analógicas e digitais de forma flexível), a infraestrutura ajusta-se dinamicamente à carga térmica real das instalações.
Essa precisão é potencializada pela integração com plataformas de gestão centralizada e sistemas BMS (Building Management System) de alta capacidade. Atuando como um hub unificado, esses sistemas correlacionam dados de iluminação, presença e condições meteorológicas para comandar o HVAC de forma preditiva. O resultado é a eliminação de picos de consumo e uma redução global que pode chegar a 25% no consumo elétrico do edifício.
A evolução da gestão de instalações avança além da automação básica com a incorporação de algoritmos de inteligência artificial, analytics e monitoramento 24/7. Em vez de reagir a reclamações de temperatura ou a falhas catastróficas em chillers e fancoils, os gestores prediais passam a contar com manutenção preditiva contínua.
Sensores IoT monitoram vibrações anormalizadas, oscilações térmicas e desgastes em motores antes que estes se traduzam em parada do sistema. Um equipamento operando fora da calibração ideal não apenas consome mais energia como sofre desgaste prematuro. A identificação antecipada dessas desregulagens prolonga a vida útil dos ativos, maximiza o Retorno sobre o Investimento (ROI) e consolida a previsibilidade orçamentária.
A urgência dessa transição é sublinhada pelo ciclo de investimentos 2026–2031. Impulsionado pela abertura do mercado livre de energia e pela pressão corporativa por adequação a metas ESG, o mercado sul-americano de automação predial tem projeção de saltar de US$ 1,31 bilhão para US$ 1,92 bilhão até 2031.
Neste contexto, a transformação de edifícios passivos em ecossistemas eficientes e hiperconectados deixa de ser uma escolha pontual e assume o papel de diretriz corporativa. Dominar o 'lado oculto' do HVAC através do casamento entre hardware avançado, inteligência de dados e protocolos abertos é o caminho mais rápido para reduzir custos, garantir a resiliência operacional e cumprir metas concretas de descarbonização no setor imobiliário brasileiro.
Bruno Hessel é Engenheiro Especialista de Produtos Smart Buildings da ABB Eletrificação. É formado em Engenharia Mecatrônica pela Escola Politécnica da USP (com período de intercâmbio acadêmico na California State University, Chico), possui especialização em Indústria 4.0 pela Fundação Getulio Vargas e é pós-graduado em Engenharia de Controle e Automação com ênfase em Gerenciamento de Projetos pelo Instituto Mauá de Tecnologia (IMT).
