Novos smartwatches não substituem avaliação profissional de saúde / Foto: Divulgação
Relógios inteligentes ampliam monitoramento de saúde, mas dados não substituem avaliação profissional
Apresentados no último dia 9 de setembro, os novos relógios inteligentes da Apple prometem transformar o pulso do usuário em uma fonte contínua de informações sobre saúde e bem-estar. Os dispositivos Apple Watch Series 12 e Apple Watch Ultra 4, que realizam a coleta de vários dados como frequência cardíaca, qualidade do sono e até uma estimativa de “idade da saúde” do usuário, chegam em meio às discussões do Setembro Amarelo, mês dedicado à saúde mental. A tecnologia pode ajudar o usuário a acompanhar sinais do próprio organismo, mas não substitui avaliação médica nem permite, por si só, fechar diagnósticos, alerta a professora de Biomedicina da UNIASSELVI, Michele Cristina Michels.
Os novos modelos incorporam recursos voltados ao acompanhamento mais detalhado de indicadores fisiológicos. O sistema de monitoramento de frequência cardíaca, por exemplo, passa a realizar leituras em intervalos menores, enquanto a variabilidade da frequência cardíaca (VFC), indicador relacionado à resposta do organismo ao estresse e à recuperação, também ganha maior acompanhamento. Outro recurso anunciado é o Readiness, que cruza informações sobre atividade física, sinais vitais e sono para estimar o nível de preparo do corpo para as atividades do dia.
A tendência não se restringe aos lançamentos da Apple. Alguns dos ‘wearables’ mais avançados incluem sensores de atividade eletrodérmica (EDA), que detectam microvariações na temperatura e transpiração da pele, outro sinal de ativação do sistema nervoso simpático; a frequência respiratória, que pode se elevar ou se tornar irregular durante situações estressantes; e a qualidade do sono, cuja duração, regularidade e intermitências podem servir de alerta para a saúde mental.
Segundo a professora, esses são dados importantes, mas que não podem ser vistos isoladamente. A frequência cardíaca de uma pessoa pode se elevar momentaneamente por causa de um café ou de uma subida de escada, por exemplo. “Nosso organismo é dinâmico: frequência cardíaca, sono e outros parâmetros podem mudar ao longo do dia por diversos fatores. Uma única medição pode representar apenas uma alteração momentânea. Quando acompanhamos esses dados ao longo de dias ou semanas, conseguimos conhecer melhor o padrão habitual da pessoa e perceber mudanças persistentes ou fora desse padrão. Isso torna a informação mais útil para o acompanhamento da saúde”, ressalta.
Acompanhamento contínuo é mais relevante
As informações fornecidas pelos relógios podem funcionar como uma ferramenta de acompanhamento, mas precisam ser interpretadas dentro de um contexto mais amplo. “A própria ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) alerta que os dados fornecidos por esses dispositivos devem ser vistos apenas como informações complementares. Eles não são suficientes para diagnosticar ou excluir doenças, orientar tratamentos, modificar o uso de medicamentos nem substituir exames e avaliações realizados por profissionais de saúde. Um alerta emitido pelo relógio não significa necessariamente que existe uma doença. Da mesma forma, a ausência de alertas não garante que tudo esteja perfeito. A principal limitação é que esses dispositivos ainda não apresentam a mesma robustez dos exames laboratoriais”, afirma Michele.
No caso da saúde mental, a atenção é ainda maior. Alterações no sono, frequência cardíaca e outros parâmetros fisiológicos podem estar associadas a diferentes situações, incluindo estresse e mudanças na rotina, mas não indicam necessariamente a presença de um transtorno ou problema de saúde específico.
“Um alerta de estresse alto, por exemplo, indica que o algoritmo identificou alterações fisiológicas compatíveis com aquilo que foi programado para reconhecer como estresse. Ele não determina a causa dessas alterações e não avalia, sozinho, os aspectos emocionais, sociais e clínicos da pessoa. O mesmo padrão pode ocorrer durante atividade física, febre, ansiedade, dor, privação de sono ou até uma situação de entusiasmo. O diagnóstico de transtornos como ansiedade ou depressão exige avaliação clínica realizada por profissional habilitado”, destaca a professora da UNIASSELVI.
Excesso de monitoramento pode trazer prejuízos
A biomédica alerta que o monitoramento constante e o alto número de dados coletados pelos relógios e anéis inteligentes podem provocar efeito contrário na saúde da pessoa. “Precisamos lembrar que o nosso organismo não funciona com números fixos: frequência cardíaca, sono e outros parâmetros variam naturalmente ao longo do dia. O acompanhamento constante desses dados pode fazer com que algumas pessoas fiquem excessivamente atentas a qualquer alteração nos seus indicadores. Isso pode gerar ansiedade e até criar um ciclo vicioso: ela vê uma alteração, fica preocupada, essa preocupação modifica alguns parâmetros fisiológicos e, ao perceber uma nova alteração no relógio, fica ainda mais ansiosa”.
A profissional afirma, no entanto, que os aparelhos que monitoram a saúde do usuário são importantes. “Acredito que o papel mais interessante da tecnologia seja o de conscientizar e estimular o autocuidado, a prática de exercícios físicos, alimentação saudável, regular o sono. Ela pode funcionar como um sinal para a pessoa olhar para si mesma, conversar sobre saúde mental e, quando necessário, procurar ajuda profissional. O dispositivo pode sinalizar que algo mudou, mas quem consegue avaliar o conjunto, como sintomas, histórico e contexto daquela pessoa, é o profissional de saúde”.
Por Luciana da Silva Messa
