Foto: Águeda Mascarenhas
A música enquanto negócio sustentável: empreendedores baianos contam como unem impacto social e empreendedorismo
Entre janeiro e fevereiro de 2026, a Bahia contabilizou 45.745 novas empresas, segundo dados da Receita Federal analisados pelo Sebrae. O levantamento aponta que, dentre os principais setores, está o de serviços, incluindo aqueles voltados ao mercado musical. A música deixou de ser apenas uma expressão artística para se consolidar também como um campo de empreendedorismo e impacto social, podendo ser executada em algumas frentes como produção, gravação e aulas preparatórias. A exemplo disso, temos o surgimento de iniciativas que unem ensino, experiência prática e imersão cultural, que têm se destacado e demonstrado como é possível transformar talento em um negócio sustentável. Mylane Mutti, professora de canto, iniciou seu processo de empreendedorismo ainda nos corredores da faculdade, o que mais tarde viria a se tornar a escola vocal Cantoário, com uma abordagem multidisciplinar, envolvendo música, dança, teatro e referências de diversas áreas artísticas, indo além da técnica vocal. Já os percussionistas Alexandre Lins e Daniela Penna, que possuem mais de 30 anos de experiência na música, sentiram a necessidade de idealizar o projeto Tocatambor depois de perceberem a necessidade de um espaço voltado para o público adulto inexperiente na pratica percussiva da capital baiana. A iniciativa oferece não só o aprendizado técnico de percussão, mas um conhecimento maior sobre a cultura afro-baiana. Para Mylane Mutti, um dos maiores mitos é achar que a arte não pode ser empreendida, mas que ela exige criatividade e gestão é um fato. “Uma dualidade interessante porque enquanto artista a gente cria muito e como gestor a gente desenvolve o que cria e, por muitas vezes, temos criação mas falta o desenvolvimento, porque ainda estão no mundo das ideias. Para equilibrar essa criatividade junto com a gestão, eu reorganizei as necessidades e passei a ter prioridade de projeto, criei listas expondo todas as ideias para que pudesse visualizá-las e conseguir desenvolvê-las. Gerir é entender como trazer uma ideia para a realidade e qual protocolo eu vou criar para que aquilo seja viável e interessante para as pessoas que vão consumir”, conta Mylane Mutti. O mercado de empreendedorismo musical no Brasil vive um momento de forte expansão impulsionado pelo ecossistema digital. De acordo com os dados da Pró-Música, em 2025 o mercado fonográfico no país faturou R$3,958 bilhões, levando-o a ocupar 8ª posição no ranking dos maiores mercados musicais do mundo. A Bahia que é uma fonte de riqueza artística e consequentemente um lugar com muitas possibilidades para empreender, faz parte desse cenário. Seja no recôncavo, com o samba de roda declarado obra-prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade pela Unesco ou em Salvador, com as múltiplas expressões artísticas, a música e suas manifestações culturais têm permitido o surgimento de diversas iniciativas criativas de produção musical. Escolas de canto e percussão como a Cantoário e a Tocatambor ressignificam a forma de aprender e inserem pessoas em um contexto de aprendizado sobre a estética do estado, promovem o ensino técnico e fortalecem a socialização. O empreendedorismo impõe desafios que fazem com que muitas empresas não consigam chegar nem aos cinco anos de atividade. As dificuldades que vão da gestão financeira à concorrência de mercado são obstáculos que exigem planejamento de longo prazo. Dicas para quem deseja empreender no mercado da música: Elabore um plano de negócios claro, que inclua metas e custos iniciais Faça um teste dos serviços oferecidos para entender o retorno do público Separe as contas pessoais do caixa da empresa É imprescindível ter uma reserva de emergência Formalize a empresa para ter segurança jurídica e acesso a possíveis linhas de crédito
Alexandre Lins pontua que ensinar música e gerir um empreendimento cultural são missões desafiadoras: “Não me refiro nem aos desafios do mercado. Me refiro a trabalhar com cultura e com pessoas. É preciso ter muita sensibilidade e estar sempre muito preparado. Desenvolvendo novos recursos. O mercado sempre foi e sempre será duro. Acredito que se fazemos com o máximo de competência, temos mais chances.” O artista ressalta que o respeito, a valorização e a difusão da cultura percussiva afro-baiana são uma missão tão importante quanto ensinar e entreter. “Sempre estamos transmitindo as técnicas, os ritmos e os arranjos junto com uma contextualização histórica. Se não houver esta preocupação com a memória, não haverá futuro para nossa música”, conta Alexandre Lins.
