Foto: Divulgação/Acervo pessoal
Câncer de mama e desinformação: médica alerta sobre os perigos das fake news para a saúde da mulher
Ao alimentar o medo infundado, a desinformação sobre o câncer de mama afasta mulheres da rotina de exames, comprometendo o diagnóstico precoce, principal aliado do sucesso no tratamento. Em meio a correntes com notícias falsas, receitas milagrosas e discursos sem comprovação científica, levar informação precisa e acolhedora é uma pauta de saúde pública urgente. Em 2019, o canal de checagem do Ministério da Saúde já apontava o câncer como a doença mais citada em notícias falsas. Cinco anos depois, em 2024, o problema atingiu o ápice no Brasil, quando conteúdos que desencorajam a mamografia viralizaram, resultando na interdição cautelar de uma médica pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e na remoção judicial das publicações no início de 2025. Para a médica mastologista Larissa Bitencourt, a informação correta é a melhor ferramenta de combate a esse cenário. "O maior perigo da notícia falsa é o desespero que paralisa. Quando uma mulher deixa de fazer a mamografia por medo da radiação ou ignora um sinal por achar que sem histórico familiar está imune, perdemos a chance da descoberta precoce. Orientar com base em evidências é devolver a tranquilidade a essa mulher", ressalta a especialista. A certeza de que a ausência de casos na família garante proteção é um dos mitos mais comuns. Na verdade, a maioria dos diagnósticos ocorre em mulheres sem histórico familiar. Estudos na revista The Lancet apontam que cerca de 90% dos casos são esporádicos e apenas 5% a 10% estão ligados a mutações genéticas hereditárias (como o BRCA1 e BRCA2). Fatores como idade, estilo de vida, hormônios e densidade mamária também influenciam o risco. Embora a incidência seja maior após os 50 anos, o câncer de mama também atinge mulheres jovens e também homens (1% dos casos, segundo o New England Journal of Medicine). Dados do Morbidity and Mortality Weekly Report registraram aumento no diagnóstico entre mulheres de 20 a 39 anos, reforçando que qualquer alteração persistente exige investigação, independentemente da idade. Hábitos cotidianos também são alvo de mitos. A literatura médica não reconhece, por exemplo, impactos físicos como causa de tumores; o trauma apenas leva a mulher a apalpar a região e notar um nódulo pré-existente ou uma alteração benigna (British Journal of Surgery). Da mesma forma, pesquisas no Journal of the National Cancer Institute e na Cancer Epidemiology, Biomarkers & Prevention descartaram qualquer relação entre a doença e o uso de sutiãs encorpados ou desodorantes com alumínio. Na alimentação, a ideia de que o açúcar "alimenta" o tumor é incorreta. A diretriz da American Cancer Society esclarece que todas as células usam glicose e que o risco do consumo excessivo é indireto, por favorecer a obesidade no pós-menopausa. Uma metanálise na Nutrition Reviews com 2,2 milhões de mulheres confirmou a ausência de ligação direta entre o açúcar e a doença. O medo de procedimentos também é um ponto que merece atenção. "A mamografia utiliza doses baixíssimas de radiação e a compressão não espalha células tumorais. O exame permanece como o único capaz de identificar microcalcificações iniciais, não sendo substituído pelo ultrassom e nem pela ressonância de mamas, que atuam como exames complementares em mamas densas. Já a biópsia por agulha é um procedimento seguro e indispensável para confirmar o diagnóstico e definir o tratamento, sem o risco de "acordar" ou “espalhar” o tumor, esclarece a mastologista. Diante do volume de conteúdos que circulam nas redes, a médica reforça a importância da checagem antes do compartilhamento. "A desinformação se veste de autoridade para gerar engajamento. Checar se a mensagem tem respaldo no Ministério da Saúde, no Instituto Nacional do Câncer (INCA) ou na Sociedade Brasileira de Mastologia é uma forma de autocuidado", orienta Dra. Larissa Bitencourt. A recomendação para o público é confirmar o registro do profissional no site do Conselho Federal de Medicina (CFM), verificando se ele possui o Registro de Qualificação de Especialista (RQE) na área. Manter os exames em dia e buscar fontes seguras continuam sendo os caminhos mais eficazes para cuidar da saúde das mamas.
