Prof. Bernardo Tavares Freitas, do IG/Unicamp Foto: Acervo pessoal
Pesquisa da Unicamp busca reduzir incerteza na datação de rochas que registram a história da Terra
A datação de rochas sedimentares — que registram a maior parte da história da Terra — ainda opera com incertezas que podem chegar a 10% da idade medida, o que, em escalas geológicas, representa milhões a dezenas de milhões de anos. Esse limite de precisão tem restringido a capacidade de reconstruir com exatidão eventos-chave da evolução do planeta.
É justamente esse desafio que um projeto conduzido por pesquisadores do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas, no âmbito do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (CEPETRO) e financiado pela Petrobras, busca enfrentar ao avançar em métodos capazes de datar diretamente essas rochas com maior confiabilidade.
Tempo geológico
O
avanço na datação de rochas sedimentares tem implicações diretas para a
compreensão de alguns dos principais eventos da história da Terra. Com
maior precisão temporal, torna-se possível testar hipóteses sobre
mudanças globais na composição da atmosfera, episódios de glaciação em
escala planetária, o surgimento e a expansão da vida multicelular e a
duração e a dinâmica de grandes extinções.
Hoje, muitos desses eventos são reconstruídos a partir de correlações entre registros geológicos distribuídos em diferentes regiões do mundo. Sem uma datação precisa, ainda há incertezas sobre a sincronia desses fenômenos.
Um limite histórico
Durante
décadas, a geocronologia — área que estuda a idade das rochas — se
apoiou principalmente em minerais de origem ígnea, que funcionam como
“relógios naturais” mais estáveis: ao se formarem, eles aprisionam
elementos radioativos que, ao longo do tempo, se transformam em outros
elementos em ritmo conhecido, permitindo calcular sua idade.
Já
as rochas sedimentares, organizadas em camadas que funcionam como
páginas da história do planeta, sempre representaram um desafio. Seus
minerais possuem baixos teores desses elementos radioativos e são mais
suscetíveis a alterações ao longo do tempo, o que dificulta a obtenção
de idades precisas.
Sem
datação direta, a ciência avançou apoiada principalmente em fósseis —
usados para identificar e correlacionar camadas (bioestratigrafia) — e
em outros métodos indiretos, capazes de indicar a ordem dos eventos, mas
não exatamente quando eles ocorreram.
Nova fronteira científica
Nos
últimos anos, avanços tecnológicos passaram a permitir a datação de
minerais carbonáticos — como calcita e dolomita — formados dentro das
próprias rochas sedimentares.
Isso
representa uma mudança importante: em vez de depender de eventos
externos, como erupções vulcânicas, os pesquisadores passam a atribuir
idades diretamente às camadas que registram os processos geológicos.
O
desafio, no entanto, permanece. Esses minerais apresentam baixa
concentração de urânio e alta sensibilidade a alterações químicas, o que
gera resultados frequentemente complexos. “Em muitos casos, você obtém
várias idades diferentes e precisa entender o que, de fato, representa a
história daquele sistema”, explica Freitas.
Do dado ao método
O
projeto desenvolvido na Unicamp, cujo foco é reduzir incertezas na
exploração de petróleo, busca justamente aumentar a precisão e a
confiabilidade dessas datações. Mais do que gerar novas idades, o
objetivo é entender por que alguns resultados são consistentes e outros
não — um ponto central para consolidar a técnica como ferramenta
científica mais robusta.
Para
isso, a equipe combina múltiplas técnicas de análise — incluindo
microscopia eletrônica, mapeamentos espectrais e isotópicos — para
construir um retrato detalhado da composição e da textura das rochas.
Esses dados são integrados por meio de algoritmos que buscam identificar
padrões associados à qualidade dos resultados geocronológicos.
A
expectativa é que esse cruzamento permita, no futuro, prever quais
amostras têm maior potencial de gerar idades confiáveis e, assim,
direcionar o uso de análises mais complexas e destrutivas — com
potencial para reduzir incertezas na exploração de petróleo. Ao mesmo
tempo, os avanços metodológicos desenvolvidos no projeto podem ampliar a
capacidade de datação de rochas sedimentares em diferentes contextos,
com implicações que vão além da indústria de energia e alcançam a
própria compreensão da história da Terra.
Por Angela Trabbold
