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Animação brasileira vira preferência entre crianças autistas e conquista famílias atípicas
Nesta quinta-feira, 2 de abril, quando se celebra o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, cresce também a discussão sobre conteúdos infantis mais adequados para crianças dentro do Transtorno do Espectro Autista (TEA). Entre famílias atípicas, uma animação brasileira vem chamando atenção por reunir características consideradas mais acessíveis para esse público. José Totoy, produção nacional presente em mais de 30 países e entre os conteúdos infantis mais assistidos da Netflix na América Latina, tem se tornado uma das preferências de muitas crianças dentro do espectro.
Entre os fatores apontados por famílias e especialistas em infância estão aspectos como a previsibilidade da narrativa, o ritmo moderado e a simplicidade visual da animação, elementos que ajudam a reduzir a sobrecarga sensorial e facilitam a compreensão das histórias. A psicóloga Isa Vaal, cofundadora da Totoy e cocriadora do personagem José Totoy, explica que algumas características da série dialogam naturalmente com necessidades comuns a muitas crianças dentro do espectro. “Um dos principais pontos é a simplicidade visual. Os cenários são organizados, com baixa poluição de elementos e uso equilibrado de cores, o que contribui para reduzir a sobrecarga sensorial e favorecer a atenção”, afirma.
Segundo ela, outro aspecto importante é a previsibilidade da narrativa. Os episódios seguem uma estrutura clara, com início, desenvolvimento e resolução bem definidos, além de padrões recorrentes que permitem à criança antecipar o que está por vir. “Isso gera maior sensação de segurança e ajuda na regulação emocional”, explica. Ainda de acordo com a especialista, o comportamento do personagem central também contribui para a identificação do público infantil. “Ele é curioso, gentil e aprende com seus erros de forma leve, funcionando como um modelo positivo de interação e exploração do mundo”, diz.
A construção das emoções ao longo dos episódios também é apresentada de forma simples e direta. As situações trazem conflitos compreensíveis e resoluções claras, o que facilita a leitura emocional e a compreensão das dinâmicas sociais. “O estímulo auditivo é cuidadosamente equilibrado, com trilhas e efeitos não invasivos, contribuindo para um ambiente mais regulador. Da mesma forma, o ritmo da narrativa é moderado, respeitando o tempo de processamento da criança”, acrescenta Isa.
Ela ressalta ainda que a repetição de situações e a apresentação de experiências práticas ajudam no processo de aprendizado. “Embora não tenha sido concebida especificamente para o público dentro do espectro, a série reúne elementos que a tornam compatível com ambientes considerados mais previsíveis, organizados e emocionalmente acolhedores. São características que podem beneficiar crianças com diferentes perfis de desenvolvimento”, diz.
Para André Vaz, cofundador, diretor criativo e CEO da Totoy, o cuidado com os estímulos presentes nas animações é um dos pilares da produção. Segundo ele, a equipe responsável pelos episódios reúne pedagogos, psicólogos e especialistas em infância justamente para garantir que o conteúdo vá além do entretenimento. “Observar se o conteúdo traz calma, humor leve e situações que incentivam a empatia e a imaginação é fundamental”, afirma.
A velocidade das imagens e a intensidade dos sons influenciam diretamente o comportamento das crianças. Cenas aceleradas e estímulos visuais muito fortes geram agitação e dificultam a concentração. “A infância precisa de pausas, de ritmo e de espaço para o pensamento”, enfatiza André.
Na prática, essa percepção também aparece no cotidiano de muitas famílias. Daniela Danhez, mãe de Heitor, de 7 anos, que está dentro do espectro TEA, conta que o personagem se tornou um dos favoritos do filho. “Ele aprendeu tanta coisa com o desenho, a importância da alimentação, do que é saudável e do que não é e, principalmente, da escovação dos dentes. Ele passou a escovar os dentes muito melhor depois de assistir aos episódios do José”, relata.
Reconhecida internacionalmente por sua abordagem afetiva e educativa, a Totoy afirma que busca equilibrar diversão e responsabilidade em cada episódio. “Quando a gente produz uma série, pensa primeiro no impacto emocional da criança. Nosso objetivo é que ela se sinta segura, acolhida e inspirada a ser curiosa sobre o mundo. Saber que muitas crianças dentro do espectro também se conectam com o José Totoy e que as famílias percebem esse cuidado no conteúdo é algo que nos emociona e reforça ainda mais a responsabilidade do que estamos construindo”, conclui o CEO.
Por Paula
