Foto: Divulgação/Acervo pessoal
Marquinhas, Juliet e cabelo ‘na régua’: a estética das periferias explicada por uma Consultora de Imagem
Óculos estilo Juliet, ‘bigode finin’ e o loiro pivete: a estética das periferias encontrou uma base fiel de brasileiros que transformaram o cotidiano em uma linguagem que atravessa fronteiras. Pela primeira vez, esse público dita a moda no mainstream e conquista olhares de marcas e parceiros.
Esse manifesto visual, com cores vivas e elementos comuns encontrados na favela, se reafirmou como uma estética própria, reproduzida no audiovisual com força. Se a MTV popularizou a estética da “cultura hip-hop” nos Estados Unidos, a indústria audiovisual no Brasil consagrou a ‘coroinha’ do cria da favela.
Para a especialista em Colorimetria, RP e Investida do ‘Shark Tank Brasil’, Cáren Cruz, elementos que caracterizam a cultura das favelas, como os chinelos de dedo, marquinhas, cabelo ‘na régua’ e camisas de time, não são escolhas exclusivamente estéticas, mas atuam como marcadores de pertencimento.
“Esses são códigos visuais que comunicam origem, repertório cultural e alinhamento simbólico. Muito além da escolha estética, essa categoria carrega uma semiótica própria, marcada por símbolos que evocam as periferias (mesmo quando estão fora delas); e exaltam o cotidiano de quem as habita. Para um público que sempre se viu à margem do mainstream, historicamente pressionado a se adequar a padrões que não os representavam nas tevês, ver seus próprios signos e referências ocupando o centro explica o fenômeno do pertencimento e identificação nas periferias”, explica.
Para Cáren, a consolidação dessa linguagem não acontece por acaso. O sistema de signos empregados, segundo a Consultora de Imagem, é resultado do processo histórico em que sujeitos periféricos passaram a disputar narrativa e representação, transformando signos antes estigmatizados em símbolos de orgulho.
“Após a revolução cultural (que aconteceu de dentro para fora nesses espaços), o que antes era marginalizado, tornou-se uma referência estética. Esse fenômeno foi potencializado pela indústria audiovisual, que viu nos elementos semióticos e na ‘mensagem por trás’ das produções uma nova forma de conversar com o público – para além da música. Os artistas perceberam que os cenários, as roupas, as makes, as cores vivas; toda essa construção cotidiana conversava para além das letras”, comenta.
Muito antes de videoclipes como Desliza (‘Ólhinho’ no Corpinho), de Leo Santana e Melody, estourarem na cena, os códigos visuais das periferias já circulavam na cultura popular brasileira. Ainda na década de 50, produções como Rio 40 Graus (1955) registravam no audiovisual elementos do cotidiano e da estética popular urbana.
Ao longo das décadas, esses signos também ganharam forma em movimentos culturais como o Movimento Black Rio, nos anos 1970, e mais tarde na consolidação do Funk carioca e do Passinho do Funk, que reforçaram códigos visuais e comportamentais ligados às periferias. Para Cáren, o movimento de identidade como construção social, embora escancarado na atualidade, já era amplamente debatido, ganhando base teórica com o sociólogo Stuart Hall, especialmente em suas reflexões sobre identidade cultural na pós-modernidade.
“Ao circular por novos espaços, os códigos visuais não perdem necessariamente a sua origem, mas ganham novas camadas de significado. Eles tornam-se afirmação, performance e, ao mesmo tempo, estratégia. A força dessa narrativa reside na sua capacidade de reinvenção constante. Nascida do improviso, da criatividade e da adaptação, ela não depende da legitimação institucional para existir”, complementa.
Em contrapartida, Cáren destaca o risco de esvaziamento ou da romantização dos problemas que acontecem em meio às favelas. “Ainda que essa moda própria tenha valorizado marcas autorais e aquecido o mercado nas próprias comunidades, o que observamos também é uma romantização dos problemas que acontecem na favela. No quesito social, para além da imagem, é preciso cuidado para que a visibilidade não transforme precariedade em estética. Quando o mercado absorve apenas a superfície (as cores, cortes e códigos) e ignora as estruturas que moldam esses territórios, há o risco de glamourizar realidades marcadas por ausência de políticas públicas e vulnerabilidade histórica”, conclui.
Sobre Cáren Cruz
Cáren Cruz é Comunicóloga, especializada em Relações Públicas e Marketing e possui MBA em Gerenciamento de Projetos e Políticas Públicas. Como Palestrante, Mentora de Negócios e Consultora de Imagem Identitária, que foge dos moldes tradicionais da consultoria de imagem, Cáren se destaca como especialista em pele negra e foi recentemente investida no Shark Tank Brasil para impulsionar o App Pittaco e a Pittaco Academy, produtos digitais que integram tecnologia e IA para redefinir os estereótipos das pessoas negras principalmente em ambiente corporativo. O investimento contou com o apoio das sharks Monique Evelle, Carol Paiffer e Cláudia Rosa, tornando Cáren a segunda baiana negra a receber esse aporte.
