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Carnaval de 2026 é o mais violento da década e acende alerta para "epidemia" de embriaguez
O balanço final da Operação Carnaval 2026, realizada entre 13 e 18 de fevereiro, desenha um quadro crítico: foram 1.241 acidentes de trânsito e 1.481 feridos. O número de mortes saltou de 85, em 2025, para 130 neste ano, um uma alta de 8,54% nas ocorrências consideradas graves. Para a psicóloga especialista em trânsito e presidente da ACTRANS-MG (Associação de Clínicas de Trânsito do Estado de Minas Gerais), Adalgisa Lopes, o país enfrenta uma perigosa normalização da violência nas ruas.
"Não estamos diante de fatalidades casuais, mas de consequências diretas de escolhas comportamentais. O que os números deste Carnaval mostram é uma sociedade que perdeu a capacidade de se indignar com o evitável. Enquanto a avaliação psicológica for tratada como um laudo vitalício, continuaremos a permitir que pessoas em condições emocionais instáveis assumam o controle de veículos. A saúde mental no trânsito é o filtro que separa a mobilidade da barbárie", afirma Adalgisa.
A fiscalização, embora intensificada com 118.321 testes de bafômetro, revelou uma resistência cultural preocupante: 2.400 motoristas foram autuados por dirigir sob efeito de álcool ou recusar o teste. A diretora da ACTRANS-MG, Giovanna Varoni, destaca que a mente do motorista brasileiro desenvolveu um viés de otimismo que ignora os riscos reais da combinação entre substâncias e direção.
"O motorista frequentemente acredita que o acidente só acontece com os outros, uma ilusão de controle potencializada pelo próprio efeito do álcool no cérebro. Essa percepção distorcida, somada à impulsividade, cria um cenário em que o consumo de bebidas antes de dirigir é socialmente relativizado. O álcool desativa o controle inibitório e compromete o julgamento, transformando o ato de dirigir em uma atividade de alto risco", expõe Giovana.
Além da embriaguez, o excesso de velocidade — flagrado pela PRF em 55.582 imagens — e as 9.263 ultrapassagens irregulares contribuíram para o recorde de óbitos, especialmente os envolvendo veículos de grande porte, cuja letalidade é superior à dos veículos leves. O vice-presidente da ACTRANS-MG e psicólogo especializado em trânsito, Carlos Luiz Souza, reforça que o estresse e o cansaço extremo geram prejuízos cognitivos semelhantes aos do álcool.
"A desatenção e a reação tardia matam tanto quanto o álcool. No Carnaval, a urgência de chegar ao destino faz com que muitos ignorem os sinais de exaustão do próprio organismo. O Brasil desperdiça milhões tratando as sequelas de acidentes que são, em 90% dos casos, provocados pelo fator humano. É necessário que as políticas públicas passem a considerar o cuidado com a saúde física e psicológica como pilares centrais da segurança viária, sob risco de seguirmos registrando recordes de óbitos a cada feriado", conclui Souza.
Por Beatriz Torrecilia Mendes
