Foto: Divulgação
Arte sem fronteiras: 19º Festival Internacional de Artistas de Rua da Bahia ocupa praças com espetáculos e oficinas gratuitas
De 07 a 15 de março de 2026, a Bahia se transforma em um palco a céu aberto com a 19ª edição do Festival Internacional de Artistas de Rua. Consolidado como um dos principais encontros de arte pública do país, o evento celebra 24 anos de história levando uma programação diversificada e gratuita para as cidades de São Felipe, Jequié e Salvador.
Criado em 2002, com raízes no antigo Aeroclube Plaza Show, o festival preserva sua essência: democratizar o acesso à cultura e promover o encontro genuíno entre artista e plateia. Nesta edição, 20 atrações vindas da Argentina, Chile, Colômbia, Guiné-Bissau, EUA e Brasil (representado por PE, SC, RS, MG, SP, RJ e Bahia) se reúnem para uma maratona de música, teatro, circo, dança, performance e artes visuais, acompanhada por um abrangente eixo de oficinas formativas voltado para a comunidade local.
Roteiro e Destaques da Programação
O festival é itinerante e leva a mesma excelência técnica para o interior e para a capital. Confira o cronograma:
1. São Felipe (07 e 08 de março)
Local: Praça da Igreja Matriz
A abertura do festival em São Felipe ganha um simbolismo especial ao colocar o Samba da Casa Grande em posição de destaque. Representante legítimo da memória ancestral do município e do Centro de Umbanda Caboclo Boiadeiro Jequiriçá, o grupo saúda o público com o autêntico samba de roda, reafirmando que a ocupação da rua começa pela valorização da casa.
A partir desse encontro com a raiz baiana, o festival abre alas para o intercâmbio internacional e a diversidade de linguagens. Na música, além da voz potente de Eneida Marta (Guiné-Bissau), o público confere o espetáculo musical do brasileiro Tomás Gleiser (SP). O impacto visual e a destreza física ficam por conta da acrobacia de solo do Adagio Triple (PE) e das técnicas circenses do Circo Giramundo (Chile/Colômbia) e de Natália Cansler (Argentina), somando-se ainda ao brilho e à baianidade do Grupo Barlavento.
O envolvimento com a cidade se estende à educação através da Oficina de Percussão ministrada por Márcio Silva (Marcinho e Grupo Cantação). Voltada a alunos de escolas públicas de São Felipe, a atividade promove o ensino de ritmos regionais e terá seu resultado apresentado no dia 08 de março, integrando os jovens talentos locais à programação oficial.
2. Jequié (10 e 11 de março)
Local: Praça do Agarrajão – Jequiezinho
Além das atrações do circuito internacional, Jequié recebe talentos exclusivos da região. O público poderá conferir a Comédia Matuta, inspirada na tradição do cordel, e o forró autêntico de Cumpadi Pêdo, assim como a música caipira de Leandro Pires, reforçando a identidade cultural do sudoeste baiano.
A "Cidade Sol" também se torna um polo de capacitação no dia 10 de março. Em parceria com o Município e a Associação Cultural de Jequié (ACJ), o festival promove uma maratona de formação com oficinas gratuitas de Teatro de Bonecos (com Carolina Marques-RS), Mágica, Mosaico, Teatro, Maquiagem Artística e Produção Cultural (com Selma Santos e Márcia Alves), ocupando espaços como a Casa da Cultura e o Espaço Arte Viva no Cansanção.
3. Salvador (13 a 15 de março)
Local: Fábrica Cultural – Mercado IAÔ, Ribeira
O encerramento ganha um reforço de gala no domingo: o mestre da percussão Marco Lobo sobe ao palco acompanhado por seu Quinteto. Em uma apresentação que transita entre o jazz, o maracatu e o samba, o músico soteropolitano sintetiza a proposta de experimentação sonora e ocupação de espaços criativos que o festival propõe, fechando com chave de ouro a 19ª edição.
Na capital, o público também poderá vivenciar o eixo formativo do evento com atividades imersivas e exclusivas. A programação inclui a vivência de Grafismo Indígena com Gleice Ferreira, a Oficina de Reciclagem Criativa da Cooperativa CAMAPET, o circuito de experimentação Circo para Todos, coordenado por Alexis Ayala.
Experiências Intimistas e Inovação
Um dos destaques desta edição é o Teatro Lambe-Lambe, com as caixas cênicas de Carolina Marques (RS) e Vitor Ribeiro (SC), que oferecem espetáculos em miniatura para um espectador por vez, criando uma conexão profunda e poética em meio ao agito das ruas.
Democratização e Apoio
O 19º Festival de Rua reafirma sua vocação como plataforma de intercâmbio e democratização cultural. "Nossa missão é transformar praças e espaços urbanos em palcos vivos, onde a arte acontece olho no olho, sem barreiras", afirma a produção.
O projeto conta com direção artística de Bernard M. Snyder, é uma realização da Selma Santos Produções e tem apoio financeiro do Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.
SERVIÇO
- Evento: 19º Festival Internacional de Artistas de Rua da Bahia
- Datas e Locais:
- São Felipe: 07 e 08 de março – Praça da Igreja Matriz.
- Jequié: 10 e 11 de março – Praça do Agarrajão (no Jequiezinho).
- Salvador: 13 a 15 de março – Fábrica Cultural (Mercado IAÔ, Ribeira).
- Entrada: Gratuita.
- Oficinas: Atividades gratuitas. Para as oficinas em espaços fechados ou com limite de participantes, as inscrições serão feitas por ordem de chegada no local de cada atividade.
- Site Oficial: www.festivalderua.com
- Redes Sociais: Instagram @festivalderua | Facebook @festivalderuaba
- Direção Artística: Bernard M. Snyder.
- Curadoria: Bernard M. Snyder, Selma Santos e Tenille Bezerra.
- Realização: Selma Santos Produções.
- Apoio Financeiro: Governo do Estado, através do Fundo de Cultura, Secretaria da Fazenda e Secretaria de Cultura da Bahia.
GUIA DE ARTISTAS (PROGRAMAÇÃO COMPLETA)
Abaixo, a descrição detalhada dos artistas que compõem a 19ª edição do festival:
MÚSICA: Do Erudito ao Terreiro
- Tomás Gleiser (Brasil/SP) – "Harpa de Vidro": Um dos raros músicos a dominar a técnica das taças de vidro. Com 27 taças elétricas e pedais de efeitos, Gleiser cria uma ponte hipnotizante entre o jazz, o choro e o erudito, transformando o som do cristal em uma experiência contemporânea de rua.
- Eneida Marta (Guiné-Bissau): Estrela da África Ocidental, em um show que conecta a tradição africana a sonoridades contemporâneas. A artista, que canta pela primeira vez na Bahia, será acompanhada pelo músico, compositor, arranjador e diretor musical Luciano Bahia e o percussionista Menino Henrique.
- Marco Lobo Quinteto (Brasil/BA): Liderado pelo percussionista que já acompanhou ícones como Milton Nascimento e Maria Bethânia, o grupo oferece uma aula de brasilidade onde jazz, maracatu e baião se fundem em um show instrumental de altíssimo nível técnico. O espetáculo marca um momento aguardado pelo público baiano: o retorno de Marco Lobo às apresentações com banda completa no estado, acompanhado pelos renomados músicos André Becker (Sax e Flauta), Beto Martins (Bateria), Luizinho Assis (Teclados) e Nino Bezerra (Baixo).
- Marco Lobo Solo (Brasil/BA): Uma imersão sensorial onde o artista utiliza mais de 20 instrumentos (incluindo berimbau de PVC e recicláveis) para evocar os quatro elementos da natureza em paisagens sonoras únicas.
- Samba da Casa Grande (Brasil/São Felipe-BA): A voz do território. Vinculado ao Centro de Umbanda Caboclo Boiadeiro Jequiriçá, o grupo preserva o samba de terreiro e a memória dos ancestrais, conectando o sagrado ao cotidiano da rua.
- Grupo Barlavento (Brasil/BA): Patrimônio do festival, presente em todas as 19 edições. Especialistas em Samba de Raiz, Davizinho de Mutá e Hamilton Reis transformam a praça em uma roda vibrante que já ecoou até em palcos europeus.
- Samba de Dois (Brasil/BA): Luciano Salvador Bahia e Mazzo Guimarães celebram a cronologia do samba. Um encontro de dois intérpretes refinados que revisitam clássicos e pérolas da nossa identidade musical.
- Cumpadi Pêdo (Brasil/Jequié-BA): O forró tradicional em sua forma mais autêntica. Liderado pelo sanfoneiro Palmeiron Andrade, o projeto defende a pureza rítmica do Nordeste com um repertório autoral e dançante.
- Marcinho e Grupo Cantação (Brasil/Conceição do Almeida-BA): Exemplo de arte e sustentabilidade, o grupo utiliza instrumentos de materiais recicláveis para ensinar e tocar o forró tradicional, unindo juventude e tradição regional.
- Leandro Pires (Brasil/Jequié-BA): A voz da música caipira e do "modão". Com raízes profundas no sertanejo de raiz, Leandro promove apresentações que prezam pela comunicação direta e o resgate da memória afetiva do público.
CIRCO E PERFORMANCE: Corpo e Movimento
- Adágio Triple (Brasil/Recife-PE): Técnica e plasticidade em um número acrobático de alto impacto. O trio pernambucano utiliza a força e o equilíbrio do "adágio" para criar esculturas humanas vivas no cenário urbano.
- Circo Giramundo (Chile/Colômbia) – "Gira Risas": A união latina da palhaçaria, malabares e monociclo. Um espetáculo dinâmico que usa o improviso e o erro como combustível para o riso e a celebração coletiva.
- Nat Cansler (Argentina): Uma pesquisa poética sobre o circo contemporâneo. Em suas performances, o bambolê, a elegância do corpo e a acrobacia tornam-se ferramentas para refletir sobre a percepção do tempo e a ocupação do espaço público.
TEATRO E DANÇA: Narrativas e Provocações
- Mamulengo Flor do Cafezal (Brasil/MG): A tradição mineira do teatro de bonecos. O espetáculo "O Bicho, o Pinheiro e a Festa" usa o humor e a crítica social para manter viva a herança de um dos teatros mais populares do Brasil.
- Comédia Matuta (Brasil/Jequié-BA): Bel do Cordel e Maria Bonita trazem a poesia falada e a malandragem nordestina para o centro da cena. Protagonizado por artistas com deficiência visual, o trabalho é um potente exemplo de inclusão através da arte popular.
- Sol Lavitola (Argentina) – "Simón": O encantamento das marionetes de fios. Em uma narrativa visual sem palavras, a artista dá vida a bonecos de madeira em um circo abandonado, revelando um virtuosismo técnico que emociona todas as idades.
- Adam Akuma e Maria Fontoura (Brasil/BA) – "eCO107": Dança contemporânea experimental. A performance investiga o corpo como eco do ambiente, adaptando-se organicamente à arquitetura urbana e aos sons ao redor.
TEATRO LAMBE-LAMBE: O Espetáculo Secreto
- Vitor Ribeiro (Brasil/SC) – "Peixe Grande": Dentro de um mini-teatro portátil (Pala Fita), um único espectador mergulha no universo amazônico e ribeirinho. Uma experiência íntima de poesia visual.
- Carolina Marques (Brasil/RS) – "Ovo": Uma reflexão minimalista e silenciosa sobre o cotidiano. Em apenas dois minutos, a artista convida o olhar atento para descobrir segredos e potências dentro de uma pequena caixa.
ARTES PLÁSTICAS
- Tova Snyder (EUA): Artista visual que traz sua experiência internacional para intervenções que dialogam diretamente com o público.
EIXO FORMATIVO: O LEGADO ALÉM DOS PALCOS
Muito mais do que um festival de exibições, o 19º Festival Internacional de Artistas de Rua da Bahia reafirma seu compromisso com a arte-educação e a cidadania. Através de oficinas gratuitas e vivências imersivas, o evento promove um intercâmbio direto entre profissionais renomados e a comunidade local, transformando o aprendizado em ferramenta de inclusão e transformação social.
São Felipe: Música nas Escolas
A programação em São Felipe aposta na juventude. Durante o festival, acontece a Oficina de Percussão, ministrada por Márcio Silva (Marcinho e Grupo Cantação), voltada exclusivamente para alunos de escolas públicas do município. O ponto alto da ação acontece no dia 08 de março, quando os alunos apresentam o resultado da oficina em uma performance coletiva, integrando os jovens talentos locais à programação oficial.
Produção Cultural e Leis de Incentivo: Workshop focado na profissionalização de novos agentes culturais com Selma Santos e Márcia Alves.
Jequié: Celeiro de Saberes (10 e 11 de março)
Em uma parceria estratégica com o Município de Jequié e a Associação Cultural de Jequié (ACJ), o festival promove uma maratona de formação com seis atividades distintas:
- Teatro de Bonecos para Contar Histórias: Uma pílula formativa com a renomada artista e pesquisadora Carolina Garcia Marques (RS), explorando a "escrita do gesto" e o teatro de formas animadas.
- Mágica para Crianças: Iniciação ao ilusionismo com Elson Santana.
- Mosaico e Memórias: Uma vivência de artes visuais e preservação afetiva com Augusto Barreto “Augus”.
- Teatro e Relações Humanas: Dinâmicas de conexão social através da cena, com Astro Brayner.
- Maquiagem Artística: Técnica voltada para artistas de rua e caracterização, com Rúbia Freitas.
- Produção Cultural e Leis de Incentivo: Gestão e bastidores da arte com as produtoras Selma Santos e Márcia Alves.
Salvador: Ancestralidade e Sustentabilidade (13 a 15 de março)
Na capital, as oficinas acontecem de forma dinâmica na Fábrica Cultural (Mercado IAÔ), integrando-se ao fluxo do público:
- Grafismo Indígena: Vivência com a artista indígena Gleice Ferreira, que utiliza materiais naturais (urucum e jenipapo) para ensinar crianças e adultos sobre a cosmologia e resistência dos povos originários.
- Oficina de Reciclagem e Criatividade: A equipe da CAMAPET ensina a transformar resíduos plásticos e garrafas PET em brinquedos e utensílios, unindo lazer e consciência ambiental.
- Circo para Todos: Um circuito de experimentação coordenado por Alexis Ayala (Cia Circonstance), onde crianças e jovens vivenciam o tecido acrobático, trapézio, malabares e arame.
Nota: Todas as atividades do eixo formativo são gratuitas. Para as oficinas com vagas limitadas em espaços fechados (como em Jequié), as inscrições serão realizadas por ordem de chegada no local de cada atividade.
Por Doris Pinheiro
