Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - O desafio do comércio livre e justo para a indústria brasileira = Fernando Valente Pimentel*
É inegável que, movido pela
expansão do comércio internacional, o mundo cresceu e se desenvolveu de
maneira extraordinária nas últimas décadas. A abertura de mercados
ampliou eficiências, elevou a produtividade e aprofundou a
complementariedade entre países. Cadeias globais de valor foram
estruturadas de modo a aproveitar vantagens comparativas, permitindo que
bens e serviços chegassem a consumidores em escala e a custos mais
acessíveis.
Esse processo, porém, não foi
neutro. Houve ganhadores e perdedores, especialmente no âmbito da
indústria. As economias ocidentais perderam participação relativa na
manufatura mundial, fenômeno que também afetou o Brasil, tanto no
contexto do setor em geral quanto, de modo particular, no têxtil e de
confecção. A transferência de capacidades produtivas para regiões com
custos mais baixos e regulações menos exigentes redesenhou o mapa do
chão de fábrica do planeta.
Hoje, vivemos uma etapa distinta em
termos de geopolítica e geoeconomia. Países ocidentais, Brasil
incluído, buscam recuperar parte do terreno perdido, por meio de
políticas industriais, estímulos à inovação e estratégias de
fortalecimento de suas cadeias produtivas. Trata-se de uma tarefa
complexa, sobretudo quando se considera que cerca de um terço da
manufatura mundial está concentrada na China. A globalização não
desapareceu, mas está mudando de rosto: organiza-se cada vez mais em
blocos econômicos e em torno da busca por autonomias estratégicas.
É nesse contexto que ganha relevância a combinação entre free trade (livre comércio) e fair trade (comércio justo).
O primeiro continua sendo um motor essencial de crescimento, integração
e difusão tecnológica. No entanto, a multiplicação de certificações e
de exigências ambientais, sociais e trabalhistas revela uma tensão
crescente: quando essas regras são aplicadas de maneira assimétrica
entre países, a concorrência se desequilibra. Na prática, nações que têm
compromissos mais frouxos nesses campos podem obter vantagens de custo
significativas em relação àquelas que adotam legislações mais rigorosas.
Porém, é fundamental afirmar com clareza que não existe fair trade
sustentável sem um ambiente doméstico competitivo. A busca por justiça
nas regras do comércio internacional precisa caminhar lado a lado com um
firme dever de casa interno. Cada país é responsável por criar
condições reais para produzir e investir. Isso significa estabilidade
macroeconômica, segurança jurídica, sistema tributário racional,
infraestrutura eficiente, crédito acessível e políticas consistentes de
inovação e qualificação de recursos humanos.
No caso brasileiro, esse ponto é
especialmente crítico. Não basta reivindicar regras mais equilibradas no
cenário global se internamente persistem entraves que encarecem a
produção e desestimulam o investimento. Um ambiente de negócios
previsível e favorável à indústria não é um detalhe técnico, mas um
requisito estratégico para competir, gerar empregos de qualidade e
sustentar o crescimento de longo prazo.
O desafio, portanto, não é escolher
entre abertura e proteção do mercado, mas assegurar que o comércio seja
simultaneamente livre e justo, apoiado por economias nacionais
eficientes. Se os produtos circulam globalmente, os modos de produção
precisam caminhar para padrões cada vez mais convergentes e
transparentes. Regras mínimas compartilhadas em temas como
sustentabilidade ambiental, direitos trabalhistas e responsabilidade
social não devem ser vistas como barreiras, mas como fundamentos de uma
competição saudável.
Ignorar a dimensão do fair trade
ou negligenciar o fortalecimento das condições internas de
competitividade implica riscos elevados. O produto barato de hoje pode
custar caro amanhã em termos de desestímulo ao investimento produtivo,
perda de capacidade inovadora, redução de empregos de qualidade e
enfraquecimento de um desenvolvimento que seja, ao mesmo tempo,
sustentado e sustentável.
Conciliar free trade com fair trade,
ancorando esse binômio em reformas domésticas que favoreçam a produção,
é uma agenda de modernização indispensável. Trata-se de preservar os
benefícios da integração econômica internacional, ao mesmo tempo em que
se constroem condições equilibradas de concorrência. Para países como o
Brasil, essa convergência, mais do desejável, é essencial para uma
inserção internacional competitiva e duradoura.
Fernando Valente Pimentel é diretor-superintendente e presidente emérito da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit).
