Histórias de retorno à escola mostram como turmas multisseriadas ampliam acesso à alfabetização de adultos
Escola Nota 10 em Salvador / Crédito: Divulgação - MRV
Histórias de retorno à escola mostram como turmas multisseriadas ampliam acesso à alfabetização de adultos
05/11/2026
Noticias Gerais
Aos 14 anos, Miguel das Dores de Jesus precisou deixar a escola para trabalhar. Hoje, aos 46, o ajudante de pedreiro voltou a estudar e tem percebido avanços, principalmente na leitura. Antes de conhecer o programa Escola Nota 10, ele chegou a tentar retomar os estudos pela Educação de Jovens e Adultos (EJA), mas encontrou dificuldades para conciliar as aulas noturnas com a rotina profissional e o deslocamento entre o trabalho e a escola. A possibilidade de estudar no próprio ambiente profissional foi decisiva para seu retorno. “Eu queria estudar perto do trabalho. Na escola (EJA), as aulas eram à noite e eu já estava muito cansado depois do expediente. Aqui na obra ficou mais fácil. Estou aprendendo bastante, principalmente na leitura”, conta.
A trajetória do carpinteiro José Ribeiro de Cerqueira, de 61 anos, também é marcada por tentativas de voltar à escola. Ele interrompeu os estudos por volta dos 15 anos e, ao longo da vida, buscou a EJA em três ocasiões. A última tentativa foi em 2014. Depois de conhecer uma nova oportunidade de ensino por indicação de um colega de trabalho, passou a frequentar as aulas no canteiro. A experiência tem sido diferente das anteriores, principalmente pelo acompanhamento pedagógico. “Desde menino, sempre tive muita dificuldade para aprender. Mas aqui a professora faz o dever só para mim as vezes, e isso tem me ajudado a aprender um pouquinho”, conta.
As duas histórias têm um ponto de encontro: as salas de aula instaladas nos canteiros de obras, onde trabalhadores de diferentes idades e níveis de conhecimento compartilham o processo de aprendizagem. É nesse ambiente que Miguel e José participam do programa Escola Nota 10, iniciativa da MRV&CO que oferece aos colaboradores a oportunidade de retomar os estudos durante o expediente de trabalho.
No Dia Nacional da Alfabetização, celebrado em 14 de novembro, as experiências dos dois baianos ajudam a discutir os desafios da alfabetização de adultos e o papel das turmas multisseriadas na construção de novas oportunidades de aprendizagem.
Diferentes trajetórias, uma mesma sala de aula
Nas turmas multisseriadas, estudantes de diferentes idades e níveis de conhecimento compartilham o mesmo espaço de aprendizagem. O formato permite que cada pessoa avance a partir de suas necessidades e conhecimentos prévios, enquanto a convivência favorece a troca de experiências entre os participantes.
Embora o modelo esteja presente em diferentes etapas da educação brasileira, os dados disponíveis ajudam a dimensionar sua abrangência. Estudo publicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), com base no Censo Escolar de 2023, identificou 911 mil matrículas em escolas com turmas multisseriadas e multietapas no país, distribuídas em aproximadamente 66 mil turmas. Na Bahia, foram registradas 110 mil matrículas nesse formato.
Analfabetismo ainda desafia a Bahia
Segundo a PNAD Contínua Educação 2025, do IBGE, a Bahia tinha 1,145 milhão de pessoas com 15 anos ou mais que não sabiam ler nem escrever um bilhete simples, o equivalente a 9,5% dessa população. A taxa é quase o dobro da média nacional, de 4,9%.
Já o Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf) de 2024 apontou que quase 30% dos brasileiros entre 15 e 64 anos apresentam algum nível de analfabetismo funcional, com dificuldades para utilizar leitura, escrita e matemática em situações cotidianas.
Escola Nota 10 aproxima educação da rotina de trabalho
Criado em 2011 e reestruturado em 2022, em parceria com a Alicerce Educação, o programa Escola Nota 10 oferece aulas nos canteiros da MRV, da alfabetização à preparação para o Encceja, com conteúdos de português, matemática e outras competências fundamentais.
Na Bahia, seis escolas foram implantadas desde 2022, em Salvador, Camaçari e Vitória da Conquista. Atualmente, três unidades seguem em funcionamento. Ao todo, 210 estudantes já passaram pelo programa, dos quais 130 concluíram pelo menos um ciclo ou obtiveram certificado.
As aulas acontecem durante o expediente, permitindo que os colaboradores conciliem trabalho e formação. “O Escola Nota 10 permite que o trabalhador tenha acesso à formação educacional dentro da própria rotina profissional, com aulas estruturadas e adaptadas à realidade do canteiro. É uma forma de ampliar as possibilidades de desenvolvimento sem exigir que ele escolha entre o trabalho e os estudos”, afirma Raphael Lafetá, diretor executivo de Sustentabilidade e Relações Institucionais da MRV&CO.