Foto: Divulgação/Arquivo O Candeeiro
ARTIGO - Quando a decisão não conhece a operação = Por Janguiê
O episódio da prorrogação da votação nas eleições de 2026 expõe uma lição que vale para governos e empresas: decidir é apenas uma etapa do processo. Sem planejamento, comunicação e capacidade de execução, até uma medida urgente pode criar novos problemas. Na gestão, existe uma distância importante entre determinar uma mudança e garantir que ela funcione. É justamente nesse intervalo que decisões aparentemente simples podem se transformar em problemas operacionais, comprometer equipes e gerar consequências que poderiam ter sido antecipadas.
A prorrogação do horário de votação no segundo turno das eleições brasileiras de 2026 oferece uma oportunidade para refletir sobre esse desafio. Em 25 de outubro, uma decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal Cristiano Zanin determinou a extensão da votação até as 19h, diante de relatos de dificuldades de transporte de eleitores. A medida foi anunciada após o horário regular de encerramento, quando diversas seções já haviam concluído a votação e algumas urnas estavam fechadas. O cenário provocou dúvidas entre mesários e chefes de seções, dificuldades de comunicação e ajustes nos procedimentos de apuração.
A discussão sobre os fundamentos jurídicos da decisão é importante, mas há também uma dimensão gerencial que merece atenção. Uma decisão de grande impacto precisa considerar não apenas o problema que pretende resolver, mas também as condições necessárias para sua execução.
O primeiro risco é decidir sem mapear as consequências. Toda mudança afeta processos, pessoas, sistemas e prazos. Antes de agir, é necessário compreender quais etapas serão impactadas, o que pode ser alterado e quais limites operacionais já existem.
O segundo erro é afastar da decisão quem conhece a operação. Profissionais que executam as tarefas diariamente têm informações essenciais sobre gargalos, dependências e dificuldades práticas. Ignorar esse conhecimento aumenta a distância entre a estratégia e a realidade. Ouvir a linha de frente não reduz a autoridade do líder, pelo contrário, melhora a qualidade da decisão.
Há também o problema da comunicação. Em situações de urgência, a informação precisa chegar rapidamente, mas velocidade não pode significar ambiguidade. Quando diferentes equipes recebem orientações incompletas ou não sabem como agir diante de uma exceção, surgem interpretações distintas, retrabalho e insegurança. Comunicar bem significa garantir que as pessoas compreendam o que fazer, quando fazer e a quem recorrer diante de um imprevisto.
Outro ponto é a ausência de planos de contingência. Liderar não significa prever todas as variáveis, algo impossível em operações complexas. Significa identificar os riscos mais relevantes, estabelecer alternativas e definir responsabilidades antes que uma situação crítica se apresente.
Por fim, existe um equívoco recorrente: confundir a decisão tomada com o resultado alcançado. Uma ordem emitida não garante execução, assim como uma estratégia aprovada não assegura que as equipes disponham de recursos, informações e condições para colocá-la em prática. A liderança precisa acompanhar o processo, identificar obstáculos e corrigir rotas.
Essas lições ultrapassam o ambiente institucional e chegam diretamente às empresas. Em organizações de qualquer porte, decisões tomadas longe da operação podem gerar custos, atrasos, desgaste das equipes e perda de confiança. Quanto maior o impacto da mudança, maior deve ser o cuidado com a coordenação entre quem decide, quem comunica e quem executa.
Isso não significa que toda decisão precise ser lenta ou submetida a inúmeras etapas de aprovação. Em cenários críticos, agir rapidamente pode ser indispensável. A diferença está em combinar velocidade com método, autoridade com escuta e intenção com capacidade de execução.
A liderança eficaz não é aquela que apenas aponta a direção. É aquela que entende o caminho necessário para chegar ao destino. No fim, a qualidade de uma decisão não se mede somente pela justificativa apresentada no momento em que ela é tomada. Mede-se também pela capacidade de transformar uma orientação em ação, com clareza, coordenação e responsabilidade pelas consequências.
Porque, na gestão pública ou privada, uma decisão só começa a cumprir seu propósito quando a operação consegue fazê-la acontecer.
Jânyo Diniz, CEO do Grupo Ser Educacional. Presidente do Sindicato das Instituições Particulares de Ensino Superior dos estados da Paraíba (SIESPB) e de Pernambuco (SIESPE). Vice-presidente da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino (Confenem), Conselheiro da ABMES
