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Batuque na Caixa cruza fronteiras e se reinventa ao encontrar culturas na Bahia e Sergipe
Uma oficina de percussão em Londrina, uma de literatura no interior de São Paulo, uma roda de capoeira no litoral norte da Bahia e uma aula de dança em um povoado sergipano podem parecer atividades que não tem muita coisa em comum. Mas elas fazem parte de uma mesma proposta: usar a arte como instrumento de educação, convivência e transformação social, respeitando as particularidades de cada território.
Criado em 1999, em Londrina, pelo jornalista, músico, escritor e produtor cultural Aldo Moraes, o projeto Batuque na Caixa vem ampliando sua atuação para outros estados brasileiros. Na Bahia e em Sergipe, a experiência está mostrando que expandir um projeto cultural não significa repetir a fórmula que fez sucesso em outro local. É preciso conhecer as comunidades, respeitar sua cultura, dialogar com quem já produz cultura e entender as necessidades de cada lugar.
“No Nordeste, a gente iniciou as atividades do Batuque na Caixa, em 2020, durante a pandemia. Então, como não era possível atividades presenciais, realizamos atividades virtuais, inclusive com nossos professores de Londrina”, conta Moraes. Nesse período, o foco foram as ações sociais, com distribuição de cestas básicas, remédios, máscaras, agasalhos e roupas. “Em 2022, a gente já migrou para o presencial e aqui é muito forte a questão da música, da dança e da literatura, sempre respeitando o regionalismo”, conta Aldo.
Mas são as experiências relatadas por Jaílson Ramos Vitório Messias, coordenador das atividades do Batuque na Caixa em Abadia, distrito de Jandaíra, na Bahia; e Jéssica Rosa Ramos, responsável pela atuação em Sergipe, que revelam como a regionalidade pode se tornar parte essencial do trabalho.
Na Bahia, cultura também movimenta a economia
No extremo norte do litoral baiano, Abadia é um pequeno distrito mais antigo até que própria cidade-sede, Jandaíra (cerca de 200 KM de Salvador), com aproximadamente 10 mil habitantes. A história do distrito remonta ao período colonial. E sua comunidade preserva manifestações culturais, grupos tradicionais e um patrimônio histórico que inclui a Igreja de Nossa Senhora de Abadia, que tem quatro séculos de existência.
A economia local está ligada principalmente à pesca artesanal, à coleta de mariscos e à agricultura familiar. É nesse contexto que Jailson, que nasceu em Abadia, coordena a integração do Batuque na Caixa na cultura local.
Ali, as atividades do Batuque começaram com oficinas de capoeira, percussão e dança, com uma média inicial de 25 alunos, predominantemente crianças, adolescentes e jovens. Mas, segundo Jaílson, o principal resultado não está apenas no número de participantes.
A chegada do projeto ajudou a dar regularidade e organização às atividades culturais que já existiam em Abadia. Antes, por exemplo, havia uma oficina de capoeira que acontecia quinzenalmente. Com o Batuque, passou a ser realizada semanalmente, enquanto a percussão ganhou espaço na programação.
Hoje, a Casa da Cultura, que foi cedida pela Prefeitura, está reformada, tem internet e equipamentos que auxiliam nas oficinas. A Casa agrega uma biblioteca, as atividades do Batuque, reuniões, ensaios da Marujada – festa centenária -, Chegança e São João. Com a ampliação das atividades, ganhou mais movimento. “A Casa da Cultura se tornou um laboratório de formação cultural”, diz Jaílson.
A iniciativa também permitiu incorporar moradores à organização das oficinas, criando oportunidades de trabalho e renda para que jovens da comunidade aprendam a atuar na gestão cultural.
É o caso de Gilvania Bispo da Conceição, 26 anos. Ela sempre participou de grupos culturais do distrito, de Samba de Roda e Batalhão de São João, assim como toda sua família. Mas agora é assistente renumerada de Jaílson – que passa a maior parte do tempo em Aracaju -, organiza e cuida do espaço e controla a frequência dos alunos. “Eu nunca havia imaginado que poderia trabalhar com a nossa cultura. Hoje, eu vejo como o Batuque na Caixa abriu outras portas e nos dá estímulo para continuar e ampliar os conhecimentos. O Batuque está ajudando muito a nossa comunidade”, afirma.
“Essa integração local é particularmente importante em Abadia. Em vez de substituir o que já existia, o Batuque se soma aos movimentos culturais e contribui para ampliar a estrutura e suas possibilidades”, explica Jaílson.
E ele cita a conexão com a economia local. Abadia mantém um banco comunitário que utiliza uma moeda social, chamada Coco, que é aceita por comerciantes cadastrados. Parte da renumeração das pessoas que trabalham nas atividades do Batuque na Caixa é paga nessa moeda. O banco não foi criado pelo projeto, mas a parceria fortalece uma iniciativa que busca enfrentar um problema local: a proximidade com Sergipe faz com que muitos moradores realizem suas compras fora do distrito. “É uma forma de fazer o dinheiro circular dentro da própria comunidade”, conta Jaílson.
Em Sergipe, a dança encontra os costumes locais
A experiência sergipana do Batuque na Caixa tem outras características e história. A coordenadora é Jéssica Rosa Ramos, paranaense, nascida em Londrina, que conheceu o projeto em 2018. Trabalhou com ele, inicialmente na parte administrativa, mas, depois de se mudar para Sergipe, em 2020, passou a trabalhar diretamente com dança. Segundo ela, desde aquela época, a intenção era de implantar o Batuque na Caixa no estado, mas foi prejudicada pela pandemia, pela dificuldade em conseguir espaços para a realização das oficinas e apoio institucional. A estratégia só ganhou força com a realização de aulas e encontros abertos ao público em espaços abertos em diferentes localidades.
Em Indiaroba, município próximo à divisa com a Bahia, Jéssica promoveu atividades em povoados como Terra Caída e Pontal, além de realizar um aulão na capital Aracaju. As experiências mostraram que a receptividade varia de uma comunidade para outra.
Em Terra Caída, mulheres que trabalham como marisqueiras e catadoras de caranguejos participaram das aulas com entusiasmo, segundo Jéssica. “Elas dançaram, riram e compartilharam a experiência sem receio de julgamento”, conta.
No Pontal, a adesão foi mais difícil. A instrutora percebeu maior resistência das participantes, relacionadas tanto a diferenças sociais quanto a restrições sobre determinados estilos musicais e movimentos de dança. “Funk, por exemplo, é muito rejeitado por aqui, que tem uma maioria católica. Isso me revelou que levar uma atividade gratuita a uma comunidade não garante, por si só, que todos se sintam à vontade para participar”, conta Jéssica.
Segundo ela, é preciso compreender hábitos, valores, relações sociais e até as diferenças entre localidades vizinhas. “Os moradores de Pontal, por exemplo, se sentem superiores até quem mora na sede do município de Indiaroba, porque Pontal é um realmente um paraíso, muito bonito”, explica.
A música também se tornou um ponto de discussão. Ao pesquisar o samba de coco praticado na região para inserir nas oficinas do Batuque na Caixa, Jéssica percebeu diferenças entre a versão apresentada localmente e outras referências da manifestação cultural de outras regiões. Para ela, isso reforçou a necessidade de estudar as origens e variações das danças regionais antes de ensiná-las. “Esse conhecimento é fundamental para que o projeto não reproduza informações equivocadas nem trate uma manifestação cultural como se existisse uma única forma em todo país.
O próximo passo, segundo Jéssica, é ampliar o repertório das oficinas e aproximá-lo das tradições sergipanas, ao mesmo tempo que combina estilos da região com outras referências, para promover um intercâmbio cultural. “É esse cruzamento de culturas que a gente quer fortalecer”, explica.
A experiência de Jéssica em Sergipe também evidencia um desafio social. Em algumas localidades, parte das famílias só demonstra interesse em estimular seus filhos a participarem das atividade se houver algum benefício material imediato, como cestas básicas ou alguma renumeração. “Infelizmente, a formação cultural e educacional gratuita nem sempre recebida como uma oportunidade concreta para o futuro das crianças”, lamenta.
Diante dessa dificuldade, a coordenação do Batuque avalia ampliar a atuação em Sergipe, buscando outras localidades onde existam mais mais receptividade às oficinas. “Não é abandonar o interior, mas tentar encontrar caminhos para consolidar o trabalho por aqui”, diz Jéssica.
As estratégias incluem fortalecer parcerias com professores, artistas e lideranças locais, além de oferecer atividades que possam envolver públicos diferentes, não apenas crianças e jovens.
Respeitar as diferenças para ampliar horizontes
Em Sergipe, o princípio é o mesmo que orienta a experiência baiana: reconhecer que cada território tem suas próprias referências e que a participação da comunidade é decisiva para a continuidade das ações.
Em Londrina, onde nasceu, o Batuque na Caixa construiu sua trajetória aproximando crianças e adolescentes da música, teatro, literatura, poesia, percussão e de outras linguagens artísticas. Na Bahia, a iniciativa se conecta a uma rede de grupos tradicionais e à economia solidária. Em Sergipe, encontra o desafio de dialogar com costumes, crenças e diferentes formas de compreender a cultura e a educação.
As experiências mostram que a regionalidade não é um detalhe a ser acrescentado a um projeto nacional. É parte daquilo que permite que ele faça sentido em cada lugar. Ao cruzar as fronteiras, o Batuque na Caixa aprende também a escutar.
Sobre o Batuque na Caixa
O projeto Batuque na Caixa teve sua primeira edição em 1999, em Londrina (PR), inicialmente voltado à percussão e desenvolvido em parceria com instituições que atendiam crianças e adolescentes. Criado e conduzido até hoje pelo escritor, músico e compositor Aldo Moraes, o projeto foi ampliando suas linguagens e passou a trabalhar com música, teatro, poesia, literatura, dança, culinária, artes visuais e outras expressões artísticas. Mais que ensinar artes, a proposta sempre buscou utilizá-la como instrumento de educação, formação, autoestima e cidadania.
O Instituto Artes Brasil, realizador do projeto, surgiu para levar o projeto para as regiões periféricas e dar oportunidades de acesso à cultura de para comunidades em situações de vulnerabilidade. Ao longo de 27 anos e 25 edições, o Batuque na Caixa chegou a 12 cidades em seis estados brasileiros e atende 2.700 crianças e adolescentes e comunidades rurais, indígenas, quilombolas, de pescadores e marisqueiras.
ASSINATURA:
A 25ª. edição do Projeto Batuque na Caixa é uma promoção do Instituto Cultural Arte Brasil com realização do Ministério da Cultura através da Lei Nacional de Incentivo à Cultura. Patrocinio: J Macedo
Parcerias: Instituto Conhecimento Liberta, Sesc Cadeião Cultural, Instituto GRPCom, Lupa do Bem, Sindicato Bancários de Curitiba, Revista D’arte, Podcast podechefe, Empresa Empoderamente e Syngara Cultural.
Telma Elorza
