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Startup quer transformar eficiência de dados em nova matéria-prima para as serrarias
Em uma serraria, alguns minutos podem valer uma tora inteira. Enquanto máquinas cortam, classificam e transformam madeira, toneladas de matéria-prima passam pela linha de produção todos os dias. O problema é que, em muitas operações, parte das informações geradas nesse processo ainda termina espalhada entre relatórios, planilhas, anotações e sistemas que não conversam entre si. Para a MindsGlobal, esse desencontro entre produção e informação representa uma oportunidade de eficiência que ainda está pouco explorada pela indústria madeireira.
Criada por profissionais que passaram anos dentro de operações do setor, a startup chega ao mercado com a Castor, uma plataforma desenvolvida para transformar os dados gerados pelas serrarias em ferramentas de decisão. A proposta é atuar sobre três desafios diretamente ligados à rentabilidade da operação: disponibilidade dos equipamentos, aproveitamento da madeira e rastreabilidade dos produtos, principalmente em pequenas e médias serrarias que, que muitas vezes, não têm acesso às mesmas ferramentas disponíveis em operações de maior porte.
A Minds Global nasceu como uma spin-off da Mendes Máquinas, empresa de Curitibanos (SC) especializada em equipamentos e automação para a indústria madeireira. O CTO da startup, Thiago Sampaio Röper, é engenheiro de controle e automação, com mestrado em sistemas automatizados para máquinas, e acumula mais de dez anos de experiência no segmento. O sócio, Diego Uncini, soma 20 anos de atuação em automação, treinamento de equipes para operação e manutenção voltada ao setor madeireiro.
Os dois trabalhavam na Mendes quando começaram a perceber que o avanço da automação estava produzindo uma quantidade cada vez maior de dados, mas que nem sempre essas informações eram utilizadas de maneira integrada. “Víamos muitos clientes com alta produção, com cerca de 4 mil a 5 mil toras por turno, mas que não conseguiam quantificar a operação com seus relatórios e planilhas manuais que não se convergiam”, conta Röper.
O primeiro passo foi desenvolver internamente uma ferramenta capaz de organizar e analisar essas informações. A tecnologia ajudou a identificar gargalos e acompanhar indicadores da operação, permitindo que a equipe entendesse se determinado problema estava relacionado à manutenção, planejamento, processo ou até mesmo a questões culturais.
Segundo o executivo, o uso dos indicadores reduziu aproximadamente pela metade o período necessário para que uma nova operação atingisse um nível adequado de desempenho. “Uma implantação que poderia levar entre oito e dez meses passou a ter uma curva de adaptação significativamente menor. Foi justamente nessa experiência que surgiu a percepção de que aquela tecnologia poderia ultrapassar os limites dos clientes da Mendes”, destacou.
Uma indústria que precisa ser eficiente
Nos últimos anos, a disponibilidade de toras de maior diâmetro vem diminuindo, o que tem feito com que as serrarias trabalhem cada vez mais com madeira de menor diâmetro. Isso aumenta a importância do planejamento do corte, pois cada decisão tomada sobre uma tora interfere diretamente na quantidade e no tipo de produto que será obtido dela.
Em uma indústria na qual a matéria-prima representa parcela importante dos custos, transformar madeira em produto de maior valor deixou de ser apenas uma questão operacional e é justamente nesse ponto que a Castor busca atuar.
Por meio de uma câmera convencional, a plataforma analisa as características da madeira e auxilia o operador na definição do melhor aproveitamento possível para aquela tora. A ferramenta considera medidas e características do material para orientar a escolha do corte mais adequado ao produto que será fabricado.
Segundo Röper, dependendo das características da operação, o recurso pode proporcionar ganhos de até 10% no aproveitamento da tora. “Na prática, isso significa fazer com que uma parcela maior da matéria-prima seja transformada em produtos de maior valor, reduzindo o volume destinado a cavacos, serragem ou outros materiais de menor retorno econômico”, detalha.
A mesma lógica também vale para o tempo. Em uma serraria convencional, pequenos períodos de parada podem se acumular ao longo de um turno. Se uma tomada de decisão pode ser antecipada, minutos aparentemente insignificantes passam a representar capacidade produtiva. “Um pacote de madeira representa até R$1.800,00 e leva em torno de 10 minutos para ser produzido, imagine o impacto de recuperar esses minutos todos os dias. O tempo que se ganha em uma tomada de decisão, parece pouco mas pode representar impacto direto na receita da operação”, afirma Röper.
Tecnologia além da linha de produção
Depois que a madeira é transformada em produto, começa outro desafio: saber exatamente o que está no pátio. Em muitas serrarias, os pacotes permanecem armazenados durante períodos de secagem antes de seguirem para a comercialização ou para outra etapa de processamento. Sem uma gestão adequada, a empresa pode perder visibilidade sobre os lotes, volumes, localização e tempo de permanência do produto.
O Castor também foi concebido para atuar nessa etapa, permitindo o acompanhamento digital dos lotes e dos produtos armazenados. A ideia é transformar o estoque físico em uma base de informações que possa ser consultada e utilizada na gestão. “Madeira no pátio é dinheiro parado. Eficiência não está apenas na velocidade com que a madeira entra e sai da máquina, mas na capacidade de enxergar toda a cadeia interna da operação”, resume o CTO.
Apesar de ser uma plataforma digital, a Minds Global aposta em um modelo que vai além da simples instalação de um software. A startup considera que a digitalização de uma serraria envolve também uma mudança na maneira como as pessoas trabalham e tomam decisões. Desta forma, a implantação do Castor inclui uma etapa de análise da operação, treinamento e acompanhamento. “Não adianta entregarmos a tecnologia sem ensinar como se usar. É uma transformação cultural e de inovação”, explica Röper.
Recomendação personalizada
O modelo desenvolvido pela startup considera que cada serraria possui características próprias. O tipo de produto fabricado, o perfil da matéria-prima, os equipamentos disponíveis e os gargalos encontrados variam de uma operação para outra. Por isso, a implantação começa com uma análise da realidade do cliente para definir como a plataforma será utilizada.
A solução opera em nuvem e utiliza inteligência artificial em seu desenvolvimento. O modelo comercial prevê um investimento inicial de implementação e uma cobrança recorrente. A recorrência está relacionada não apenas ao armazenamento dos dados, mas também à evolução contínua da plataforma. A proposta é desenvolver novos módulos e disponibilizá-los aos clientes que já utilizam o Castor, sem cobrança adicional.
Próximos passo e atuação
A Minds Global ainda é uma startup em desenvolvimento. Embora a tecnologia venha sendo validada há cerca de quatro anos, a empresa de fato foi lançada ao mercado no final de 2025. Os primeiros clientes em operação estão concentrados no Sul do Brasil, em Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, região que reúne uma parcela importante da indústria madeireira.
A empresa também começa a ampliar seu raio de atuação. Segundo Röper, já há negociações avançadas com potenciais clientes na Bahia e em São Paulo, enquanto uma operação começa a ser estruturada no Uruguai. A Argentina também aparece entre os mercados avaliados pela startup.
Este movimento ocorre paralelamente à participação da Minds Global em um processo de aceleração junto à Cyklo, uma Agritech que ajuda negócios a crescer de forma inteligente, sustentável e escalável conectando empreendedores a mentores, capital e mercado.
A aproximação surgiu a partir de uma iniciativa relacionada à Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) e aos desafios da cadeia madeireira, colocando a empresa em contato com discussões que envolvem competitividade, custo da matéria-prima, exportações e modernização do setor.
Para Röper, essa conexão foi parte importante do próprio propósito da startup. “Uma das nossas ideias realmente é movimentar, conectar pessoas e profissionais deste importante mercado através de tecnologia e inovação. Essa é a nossa missão e juntamente com a Cyklo certamente vamos acelerar e aperfeiçoar essa jornada”, finaliza o profissional.
Por Kassi Bonissoni
