ARTIGO - A grande crise brasileira = Por Pedro Simon
Ao longo dos meus 96 anos, vivenciei alguns dos piores momentos da história brasileira. Dos autoritarismos da ditadura militar aos maiores escândalos de corrupção da Nova República, estive na linha de frente de todos esses episódios, lutando por um país melhor, mais justo, livre e igualitário. Confesso que lutei, como disse em meu discurso de despedida do Senado Federal, em 2014: onde vi corrupção, lutei para levar a ética; onde vi impunidade, lutei para levar a justiça.
Hoje,
assisto de longe, com angústia, à fragilização das instituições que
construímos a partir de 1988, corroídas pela improbidade, pela
maximização do interesse pessoal e por novas formas de coronelismo.
Vivemos hoje a maior crise deste
século no Brasil: uma crise constitucional, da relação entre os poderes
constituídos, que coloca em xeque a credibilidade da República perante a
sociedade civil e a comunidade internacional. Enquanto o Poder
Executivo é capturado por projetos de
poder que se confundem com projetos de governo, e não por projetos de
Estado nação, o Legislativo sequestra o orçamento republicano por meio
de emendas parlamentares sem transparência nem responsabilidade, sob o
domínio dos mesmos grupos políticos
fisiológicos.
Enquanto
isso, o Poder Judiciário, encastelado em uma superioridade
autoproclamada, assume uma posição perigosa de tutela absoluta de todos
os assuntos da República — mas, sob o comando de alguns de seus agentes e
salvaguardadas honrosas
exceções, em nada difere, em condutas recentes, dos entes corruptos e
corruptores que se propõe a julgar. As investigações em torno do
escândalo do Banco Master, o embate público entre ministros do Supremo
Tribunal Federal, a dúvida lançada sobre
a isenção do próprio procurador-geral da República e o conturbado
afastamento do comando da Polícia Federal expuseram, aos olhos de todo o
país, uma Corte que deveria pacificar a Nação e que, em vez disso,
tornou-se palco de disputas que corroem a
sua própria autoridade moral. Já disse, e repito: vivemos a página mais
triste da nossa história neste século, na qual perdemos a confiança nos
três Poderes da República.
Foi no
Senado que passei trinta e dois dos meus sessenta anos de vida pública,
ao lado de Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Teotônio Vilela, na
reconstrução da nossa democracia. É por essa vivência que faço um
alerta: compete privativamente ao
Senado Federal, por força da Constituição Federal, processar e julgar os
ministros do Supremo Tribunal Federal por crimes de responsabilidade.
Esse é um dos pilares do equilíbrio entre os Poderes que ajudamos a
erguer em 1988, e hoje ele está, na
prática, esvaziado. Dezenas de pedidos de impeachment contra ministros
da Corte acumulam-se há anos nas gavetas da Mesa Diretora, sem parecer e
sem votação.
Em toda a
nossa história democrática, nenhum ministro do Supremo jamais chegou a
ser julgado até o fim por esse rito. O Senado, a quem caberia fiscalizar
o Judiciário, tem preferido o silêncio ao exercício desse dever
constitucional, seja por
cálculo eleitoral, seja pelo receio de turbulência institucional. Um
Poder que se omite de fiscalizar torna-se, ele também, parte da crise.
As ações
que tomarmos a seguir definirão os rumos do país pelas próximas décadas.
Rogo que o Supremo, no julgamento desta terça-feira, dia 15 de
setembro, tenha condições de conduzir um julgamento aberto, público e
transparente. O Brasil
precisa de uma resposta firme e rigorosa; necessita que se instaure
investigação regular e independente sobre os fatos revelados,
assegurados o contraditório e a ampla defesa; que o procurador-geral da
República, diante das dúvidas lançadas sobre
sua isenção, não participe do julgamento; que o Supremo retome, sem
subterfúgios, a sua autocontenção institucional; que se encerre o
inconstitucional inquérito das fake news; que todos os envolvidos com o
Banco Master sejam investigados,
independentemente do cargo ou partido político; que se restabeleça a
atuação dentro dos limites da Constituição, e que ninguém, nem mesmo
quem julga a Nação, esteja acima da lei.
Chegou o
momento de reformas na Corte, com mandatos fixos, aperfeiçoamento do
modelo de indicação e de um Código de Ética efetivo. Volto, então,
àquilo que sempre acreditei: a democracia não se sustenta na força de um
só Poder, mas no
equilíbrio entre todos eles e na vigilância permanente da sociedade
civil. Ao povo brasileiro, e sobretudo à juventude que hoje herda esta
crise sem tê-la criado, deixo o mesmo apelo que fiz ao deixar o Senado:
que não desistam da política, nem do
Brasil. A pátria é feita de quem rejeita a corrupção, a impunidade e a
soberba dos que se creem acima da lei. Que essa pátria, mais uma vez,
prevaleça.
Pedro Simon é Advogado foi governador do Rio Grande do Sul, ex-senador da República e ministro da Agricultura.
