Foto: Divulgação
ARTIGO - Sala de reunião ou de jantar? Gestão de conflitos nas empresas familiares = Geovana Donella
Quando a sala de reunião vira sala de jantar, a empresa familiar revela um de seus maiores desafios: separar relações afetivas das decisões de negócio. Diferentemente de outras organizações, nela convivem, nas mesmas pessoas, os papéis de pai, mãe, filho, sócio, executivo e gestor.
Por isso, uma discussão sobre orçamento, desempenho ou sucessão dificilmente é apenas técnica. Ela desperta histórias antigas, rivalidades, expectativas e emoções que ultrapassam os limites da empresa. O problema não é o conflito em si, mas a ausência de mecanismos para administrá-lo.
É justamente nesse ponto que a governança deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser um instrumento para proteger o negócio e a própria família. Quando prevalece a lógica do "aqui todo mundo se entende", sem critérios claros para decidir, cobrar ou discordar, abrem-se espaço para insegurança, ressentimentos e decisões baseadas muito mais no vínculo familiar do que no interesse da organização.
O desafio não é afastar a família da empresa, mas organizar sua participação. Uma mesma pessoa pode ser sócia, diretora e integrante da família, mas não deve exercer todos esses papéis ao mesmo tempo. Questões patrimoniais pertencem ao ambiente societário. Estratégia deve ser debatida no conselho. A operação cabe à diretoria. As relações familiares precisam de um espaço próprio, sem contaminar as decisões empresariais.
Essa arquitetura de governança também fortalece a gestão de pessoas. A frase "ele é da família, não posso cobrar" corrói qualquer percepção de justiça. O sobrenome não pode substituir competência, preparo ou resultados. Quando critérios para contratação, promoção, remuneração e avaliação não são transparentes, instala-se a sensação de que existem duas empresas: uma para familiares e outra para os demais colaboradores.
O mesmo raciocínio vale para a formação das novas gerações. Herdeiros não se tornam líderes por afinidade ou conveniência. Eles precisam de preparação, desenvolvimento, mentoria e experiências que construam legitimidade perante a organização. Da mesma forma, profissionais não familiares só permanecerão motivados se perceberem que o mérito é, de fato, o principal critério de crescimento. Caso contrário, a empresa perde os talentos capazes de agregar novos repertórios, inovação e profissionalização para o negócio.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é a comunicação. Sem fóruns formais, conflitos migram para conversas de corredor, grupos de WhatsApp ou almoços de domingo, nos quais não existem registros, mediação ou compromissos claros. Empresas familiares saudáveis não eliminam divergências; elas criam ambientes adequados para que sejam discutidas com respeito, objetividade e foco no futuro.
Conselho de família, assembleia de sócios, conselho de administração, protocolos familiares e processos transparentes não representam burocracia, mas sim maturidade. São instrumentos que permitem transformar conflitos inevitáveis em decisões construtivas, preservando tanto os vínculos familiares quanto a competitividade da empresa.
Nesse sentido, governança corporativa é fundamental! Contribui para garantir que a sala de jantar continue sendo o lugar da família e que a de reunião no escritório seja o espaço onde o futuro do negócio é construído com profissionalismo, clareza de responsabilidades e visão de longo prazo.
Geovana Donella é presidente do Conselho do Covabra Supermercados, conselheira do Grupo Luiz Höhl e associada da WCD Brasil (Women Corporate Directors).
