Demência aumenta em 2,6 vezes o risco de morte entre idosos brasileiros, aponta estudo
A demência está associada a um risco de morte 2,6 vezes maior entre idosos brasileiros em relação às pessoas sem demência, segundo estudo publicado em maio na revista Alzheimer’s & Dementia. A pesquisa analisou dados de 5.249 pessoas com 60 anos ou mais do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil). A partir da avaliação inicial, feita em 2015 e 2016, os pesquisadores identificaram participantes com e sem demência e acompanharam os desfechos de mortalidade ao longo de aproximadamente cinco anos.
A diferença entre os grupos foi expressiva. Entre as pessoas com demência, 36,7% morreram durante o período analisado. Nos participantes sem, esse percentual foi de 10,8%. Mesmo após ajustes por idade e sexo, a demência permaneceu associada a um risco de morte 2,65 vezes maior.
O
estudo avaliou mortalidade por todas as causas, ou seja, não apenas
mortes provocadas diretamente pela demência, mas o risco geral de óbito
entre aqueles que vivem com a doença.
O dado ajuda a dimensionar o impacto para além dos sintomas cognitivos. Embora a perda de memória seja um dos sinais mais conhecidos, a condição também pode comprometer a autonomia, a funcionalidade, a organização da rotina, a adesão a tratamentos e a capacidade de lidar com outras doenças.
“A
demência não afeta apenas a memória. Ela interfere na vida diária, na
independência e no cuidado com a própria saúde. Por isso, quando falamos
em mortalidade, estamos falando de uma condição que torna a pessoa mais
vulnerável como um
todo”, afirma Dra. Cleusa Pinheiro Ferri, pesquisadora do Hospital
Alemão Oswaldo Cruz e coautora do estudo.
Além disso, o estudo avaliou, entre as pessoas com demência, quais fatores estavam associados a maior risco de morte. Entre eles, pior desempenho cognitivo e maior dificuldade para realizar atividades do dia a dia se relacionaram a uma menor sobrevida.
O
sexo também apareceu como um fator relevante. Entre as pessoas com a
condição, cerca de 122 em cada mil homens morrem por ano, enquanto entre
as mulheres esse número é de cerca de 81 em cada mil. Mesmo levando em
conta outros fatores, os homens
têm aproximadamente o dobro de risco de morrer em comparação com as
mulheres na mesma condição.
Outro achado chama atenção para o papel da rede de apoio. Ter um parceiro apareceu como fator protetor entre pessoas com demência, possivelmente por estar relacionado à presença de alguém que ajude no acompanhamento médico, na rotina de medicamentos, na alimentação, na prevenção de quedas e na identificação de sinais de piora do paciente
“Essa
é uma doença que envolve a pessoa, a família e a rede de cuidado. O
suporte no dia a dia que faz a diferença para que o paciente consiga
manter acompanhamento, tratar outras condições de saúde e preservar
funcionalidade por mais tempo”,
explica o Dr. Lucas Martins Teixeira, pesquisador do Hospital Alemão
Oswaldo Cruz e coautor do estudo.
Escolaridade e reserva cognitiva
Um
dos pontos analisados pelos autores foi a relação entre escolaridade e
mortalidade entre pessoas com demência. O achado exige cuidado na
interpretação: maior escolaridade apareceu associada a maior mortalidade
dentro do grupo com a condição,
mas isso não significa que estudar seja prejudicial, muito pelo
contrário.
Segundo os pesquisadores, uma possível explicação está no conceito de reserva cognitiva. Pessoas com mais anos de escolaridade e mais estímulos cognitivos ao longo da vida podem conseguir compensar por mais tempo as alterações cerebrais associadas à demência. Com isso, os sinais clínicos podem aparecer mais tarde, quando a doença já está em fase mais avançada.
Na
prática, a escolaridade continua sendo considerada um fator importante
de proteção ao longo da vida. O que o estudo reforça é que o diagnóstico
precisa considerar diferentes trajetórias, níveis de escolaridade e
contextos sociais.
“Quanto maior a reserva cognitiva, maior pode ser a capacidade de compensar alterações no cérebro por mais tempo. Isso pode adiar o aparecimento dos sintomas, mas também faz com que, em alguns casos, a doença seja percebida quando já há maior comprometimento. A mensagem não é estudar menos, mas justamente o contrário: educação e estímulo cognitivo são fundamentais para a saúde do cérebro”, afirma Teixeira.
Subdiagnóstico ainda é obstáculo
O desafio se torna ainda maior porque a demência segue subdiagnosticada no Brasil. Outro estudo recente com coautoria dos pesquisadores do Hospital, publicado no International Journal of Geriatric Psychiatry, também com base no ELSI-Brazil, mostrou que 83,1% idosos que preenchiam critérios para a doença não tinham diagnóstico prévio.
Esse dado ajuda a contextualizar o problema: grande parte das pessoas que vivem com a condição pode não saber que tem a doença ou não ter recebido uma avaliação formal. Isso dificulta o planejamento do cuidado, atrasa orientações à família e reduz a oportunidade de manejar riscos associados à progressão da demência.
A falta de diagnóstico pode estar relacionada a diferentes fatores, como confundir sintomas com o envelhecimento, barreiras de acesso aos serviços de saúde, desigualdades regionais, baixa escolaridade, estigma e dificuldade de reconhecimento dos sinais por familiares e profissionais.
“O diagnóstico não serve apenas para dar um nome à doença. Ele permite organizar o cuidado, orientar a família, planejar a rotina, reduzir riscos e buscar apoio no momento certo”, diz a Dra. Cleusa.
Sobre o Hospital Alemão Oswaldo Cruz
No Hospital Alemão Oswaldo Cruz servimos à vida. Somos um hospital de grande porte, referência em alta complexidade e confiabilidade. Uma instituição de 128 anos, sólida, dinâmica e determinada a inovar e contribuir com o desenvolvimento da saúde. Nossa excelência é resultado da nossa dedicação, prontidão, empatia no cuidado e na nossa incansável busca pela melhor experiência e resultado para nossos pacientes, com qualidade e segurança certificados internacionalmente pela Joint Commission International (JCI). Contamos com um corpo clínico diversificado e renomado, além de um modelo assistencial próprio, que coloca o paciente e familiares no centro do cuidado. Nosso protagonismo no desenvolvimento da saúde é sustentado por três pilares estratégicos: Saúde Privada; Educação, Pesquisa, Inovação e Saúde Digital; Sustentabilidade e Responsabilidade Social.
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Por Gabriel Brito
