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ARTIGO - Reforma Tributária é pauta estratégica e não apenas tributária = Por Jessica Amorim
A reforma tributária voltou ao centro do debate econômico brasileiro. Nos últimos dias, ganhou repercussão no Congresso uma proposta que discute encurtar o período de transição do novo sistema tributário, antecipando a implementação plena do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) já em 2027, em conjunto com a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) - já está prevista no cronograma da reforma.
Se esse movimento avançar, o tempo de adaptação das empresas acaba agora. O que estava previsto para ser uma transição suave se tornará um choque imediato nas estruturas operacionais, nas cadeias produtivas e nas estratégias de precificação já para os próximos meses.
Mais do que uma discussão técnica, o tema reacende uma questão relevante ao ambiente empresarial: como as organizações estão se preparando às mudanças estruturais as quais já estão transformando a lógica do sistema tributário brasileiro.
Mudança no cronograma e impactos econômicos
A proposta em debate busca reduzir o tempo de convivência entre o sistema tributário atual e o novo modelo aprovado na reforma. Pelo cronograma vigente, a implementação prevê um período de transição mais longo justamente para permitir que empresas e entes federativos se adaptem gradualmente à nova lógica tributária. Nesse intervalo, tributos como ICMS e ISS seriam gradualmente reduzidos, enquanto o IBS passaria a ganhar espaço na arrecadação.
Uma eventual redução desse prazo poderia acelerar impactos relevantes às empresas de diversos setores, exigindo planejamento mais rápido e decisões estratégicas antecipadas.
Na prática, uma transição encurtada tende a concentrar efeitos relevantes na formação de preços, na estrutura de créditos tributários e no fluxo financeiro das empresas.
A reforma vai além da definição de novas alíquotas
Um dos maiores riscos às empresas é tratar a reforma tributária apenas como um tema fiscal. Pois, a mudança introduzida pelo novo sistema altera a lógica de incidência tributária ao longo de toda cadeia econômica. Ao substituir tributos como ICMS, ISS, PIS e COFINS por um modelo de IVA dual, o sistema passa a operar com uma dinâmica diferente de geração e aproveitamento de créditos. Essa transformação tem potencial para esmagar margens, uma vez que a ineficiência tributária de um fornecedor em uma ponta vai fatalmente contaminar o preço, o crédito e a competitividade do cliente na outra ponta.
Durante o período de transição, outro ponto sensível envolve os saldos credores acumulados no sistema atual, especialmente de ICMS. Empresas que possuem créditos acumulados precisam olhar com muita atenção para o cronograma de transição. Dependendo do ritmo de substituição dos tributos, pode haver dificuldade de absorção desses créditos ao longo do tempo, gerando saldos credores remanescentes que afetam o fluxo de caixa e a gestão financeira.
Outro aspecto relevante envolve os regimes especiais e benefícios fiscais atualmente vinculados ao ICMS. Muitos desses incentivos foram estruturados por meio de diferimentos, créditos presumidos ou termos de acordo firmados com os Estados. Caso o período de transição seja reduzido, pode haver antecipação da perda de sua eficácia econômica.
Com isso, essa mudança também pode repercutir no cronograma de implementação do Fundo de Compensação de Benefícios Fiscais (FCBF), criado justamente para mitigar a perda desses incentivos, cuja operacionalização foi concebida considerando um período de transição mais longo.
Também é importante observar o debate em torno do nível final da carga tributária no novo sistema. As estimativas de alíquota padrão do IBS e da CBS indicam patamares elevados que, em alguns cenários, podem se aproximar de 27% ou 28%. Isso poderia representar uma mudança significativa na estrutura de custos das empresas e exigiria uma revisão profunda de modelos de negócio e estratégias de precificação.
A reforma é uma pauta estratégica, não apenas tributária
No debate público, grande parte do mercado ainda está concentrada em discutir qual será a nova alíquota do sistema. No entanto, o impacto mais relevante da reforma está na forma como ela altera a lógica econômica dos negócios.
Mudanças estruturais no sistema tributário podem influenciar decisões importantes nas empresas, como reorganização de operações, revisão de cadeias produtivas e estratégias de crescimento. Aquelas organizações que analisam a reforma apenas sob a ótica fiscal, correm o risco de subestimar o alcance estratégico dessas transformações.
A transição tributária como teste de sobrevivência e governança
Independentemente do ritmo de implementação, a reforma tributária representa uma das transformações mais relevantes no ambiente de negócios brasileiro nas últimas décadas. Pois, mudanças dessa magnitude exigem leitura estratégica e capacidade de adaptação por parte das organizações.
Mais do que responder a uma alteração regulatória, o momento exige que as corporações compreendam como a nova lógica tributária pode influenciar decisões de negócio no longo prazo, desde a estrutura de custos até o desenho de operações e cadeias produtivas.
'Diante desse cenário, o debate sobre a velocidade da transição reforça um ponto central: o empresário que delegar essa mudança apenas ao departamento contábil, ignorando a revisão de contratos, a engenharia de preços e a blindagem do fluxo de caixa, estará colocando a operação em xeque. A preparação para 2027 não é sobre recalcular guias de imposto; é sobre quem terá margem para sobreviver e quem ficará pelo caminho. Estruturar essa transição agora é, acima de tudo, uma decisão inegociável de governança e proteção de legado.
Jessica Amorim, especialista em Direito Tributário da Valestrá
