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Projeto de reciclagem chega a Paripe e Periperi e transforma lixo em renda, dignidade e sustentabilidade no Subúrbio Ferroviário de Salvador
Com o crescimento do carnaval baiano, os trios elétricos passam e deixam um rastro da folia por novos pontos da festa, como nos bairros de Paripe e Periperi: são milhares de latas de alumínio, plásticos, garrafas PET, papelão e vidro que se destacam na paisagem antes tomada pela população. A chegada do programa estruturado de reciclagem, liderado por cooperativas de catadores, como a Cooperguary, junto com a ONG CAMA, integrantes do Fórum Estadual Lixo e Cidadania da Bahia. Com o apoio do Governo do Estado da Bahia, inaugura uma nova fase na gestão de resíduos, que vai além da coleta seletiva da cidade: promove geração de renda, inclusão social e preservação ambiental nos circuitos oficiais e nas comunidades.
A iniciativa integra o projeto Carnaval Solidário Salvador e lógica da economia circular inclusiva, conceito que transforma resíduos em recursos e visa, apenas este ano, coletar mais de 15 toneladas de recicláveis durante todo o carnaval, beneficiando mais de 550 catadores através de pagamento justo, bonificações, Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e suporte operacional. Estima-se que a ação de 2026 injete mais de R$ 1 milhão na economia local.
Segundo Genivaldo Ribeiro, da unidade da Cooperguary de Paripe, cooperativa pioneira no Subúrbio Ferroviário, o trabalho vai muito além da coleta. “Levamos dignidade para o catador. Ele sai com calça, camisa, bota, luva e recebe o valor justo pelo material. Isso fortalece o trabalhador, protege a saúde pública e ainda contribui com o meio ambiente. Cada resíduo que é retirado da rua deixa de ir para o mar e volta para a cadeia produtiva”, afirma.
Além da renda, o programa atua também no combate aos chamados atravessadores que compram o material por preços inferiores, reduzindo o ganho dos catadores. “Quando o trabalho é organizado, o dinheiro vai direto para quem realmente coleta. Isso pode significar uma diferença enorme na renda dessas famílias”, reforça Ribeiro.
Paripe: renda imediata e nova perspectiva para trabalhadores informais
Em Paripe, o programa representa um divisor de águas para trabalhadores que atuavam sem estrutura ou reconhecimento. A iniciativa é apoiada pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da SEDUR.
Com a formalização do processo e a garantia de pagamento justo, o bairro passa a integrar oficialmente a rota da reciclagem estruturada em Salvador. Além disso, a unidade da Cooperguary conta com a força do vidro na região, onde realiza a coleta também nos bares e restaurantes locais, além de óleos e azeite de dendê usados na festa.
Para quem vive da coleta, os resultados já são visíveis. O catador Nivaldo Santos Brito resume o impacto com números. “Antes, fazíamos entre R$ 15 e R$ 30 no dia. Agora, já consegui quase R$ 500 em dois dias. Esse dinheiro ajuda a comprar leite, roupa e o que minha filha precisa. A chegada da cooperativa aqui no bairro foi uma bênção”, conta o catador de Paripe.
Periperi: programa chega ao bairro de origem da cooperativa e fortalece a comunidade
Em Periperi, a chegada do projeto tem um significado ainda mais simbólico. E conta com o apoio do do Governo do Estado da Bahia, através da CAR/SDR. Embora a cooperativa tenha surgido no Subúrbio Ferroviário, esta é a primeira vez que o bairro recebe a operação estruturada durante eventos e ações de coleta ampliada.
Para Ana Cláudia Silva Cerqueira, integrante da equipe da cooperativa no bairro, o objetivo vai além da reciclagem. “Nosso intuito é trazer sustentabilidade, mas também renda e acolhimento. Muitas pessoas chegam aqui desempregadas, vulneráveis, e encontram uma oportunidade real. Às vezes, um lanche, uma farda ou uma simples conversa já faz diferença na vida de alguém”, afirma ao lembrar que alguns catadores aproveitam para também desabafar sobre violência doméstica, vícios, falta de oportunidades, entre outros problemas.
A catadora Lucy Glede de Oliveira Bandeira é um exemplo disso. Recém formada em jornalismo, mas sem oportunidades na área, atua com reciclagem a seis meses, mas já relata, nos dois dias como cadastrada na unidade de Periperi, uma mudança na sua rotina. “Antes, eu trabalhava com atravessadores e era mais difícil. Aqui é organizado, é perto de casa e a gente se sente mais profissional. A farda faz a gente levar o trabalho mais a sério e as pessoas nos respeitarem”, diz.
Impacto ambiental, social e econômico
A expansão da reciclagem para Paripe e Periperi representa mais do que uma ação ambiental. Trata-se de uma política de inclusão produtiva que fortalece comunidades historicamente marcadas pela informalidade e pela falta de oportunidades. Além de reduzir o volume de resíduos enviados a aterros e ao mar, o programa contribui para a saúde pública, diminui riscos ambientais e fortalece uma cadeia produtiva que gera trabalho e renda.
