Foto: Divulgação/Raillander
ARTIGO - BRIDGERTON APOSTA NO CLÁSSICO CINDERELA E PERDE FORÇA COM CLICHÊS DESGASTADOS DE HERÓI E HEROÍNA= Por Francisco Neto Pereira Pinto
Bridgerton e o risco da simplificação narrativa
A nova temporada de Bridgerton aposta em um recurso narrativo ousado: a intertextualidade com o clássico Cinderela. O baile de máscaras, ponto alto do primeiro episódio, eleva a expectativa da audiência ao remeter a um imaginário romântico universal. No entanto, ao fazê-lo, a série simplifica demais seus personagens principais — Sophie Baek e Benedict Bridgerton — e perde a força narrativa apresentada na terceira temporada, quando revelou uma Penélope sagaz, corajosa e capaz de reconhecer o seu desejo e lutar por ele. Foi Penélope quem tomou a iniciativa de dar o beijo de amantes em Colin, gesto subversivo em um universo em que as mulheres aguardavam passivamente serem notadas pelos homens. Penélope é do tipo: eu quero, e se posso, por que não? Colin, por sua vez, não ficou ressentido de ser o marido da grande Lady Whistledown.
O salvador da mulher impossível
Benedict Bridgerton, de todos da família o mais libertino e boêmio, vinha construindo uma complexidade que, de repente, fica reduzida ao clichê do homem arrebatado por uma mulher impossível. Avesso ao estilo de vida aristocrático da família e da alta sociedade, sentia-se deslocado e sem objetivos claros. Era conhecido pelos excessos com bebida e sexo não convencional e desprezava a ideia de se casar, até seu encontro com uma mulher misteriosa no baile de máscaras oferecido por sua mãe, a anfitriã da temporada.
Sigmund Freud, em seu ensaio Um tipo especial de escolha de objeto feita pelo homem (1910), realiza uma investigação interessante da vida amorosa dos homens, descrevendo tanto a atitude masculina como as características da mulher alvo do seu amor. Para o pai da Psicanálise, há um tipo de homem que se sente especialmente atraído por mulheres difíceis de conquistar, que fogem à normalidade. É exatamente isso que acontece com Benedict Bridgerton ao observar uma mulher mascarada contemplando o lustre em sua residência. Enquanto todas estão preocupadas em performar, buscando chamar a atenção de algum pretendente, aquela desconhecida parece dar de ombros às expectativas alheias, o que a torna diferente de todas as outras. Esse particular captura o solteirão mais cobiçado da temporada.
Um beijo e, como no clássico Cinderela, ele sai à procura da dona da luva. Como não a encontra, fica melancólico e, para lidar com a frustração, sai para arejar as ideias em bebedeiras em uma casa de campo nos arredores de Londres, exatamente onde Sophie está trabalhando como garçonete. Ao final do segundo episódio, Sophie socorre uma colega importunada por três homens, atraindo a violência para si. Isso prepara o cenário para Benedict arriscar sua própria pele, salvar Sophie de uma possível agressão, levá-la de volta a Mayfair e lhe conseguir emprego na residência da família. Essa é outra tendência da dinâmica amorosa masculina: salvar a mulher amada, tornando-se seu herói.
A mulher santa e cuidadora
Sophie inicialmente é apresentada como uma mulher corajosa e inteligente. Ela usa vestido e sapatos da madrasta para ir ao baile em que a própria madrasta e suas duas filhas buscariam o melhor partido da temporada de casamentos. No entanto, quando seu pai morre e a madrasta a informa que ela havia ficado de fora do testamento, Sophie aceita como fato sem desconfiança. Quando sua ousadia de ir ao baile é descoberta e ela é expulsa de casa, mais uma vez se conforma ao destino. No chalé de Benedict, quando ele está doente, torna-se sua cuidadora. Depois, no pomar, brinca com ele de empinar pipa.
Aos poucos, vai se desenhando a imagem de uma mulher disposta a sacrifícios, ao cuidado e pueril, sobrepondo-se à de uma mulher versada na história da arte, poliglota e conhecedora do funcionamento das línguas. Ao final dos quatro episódios, temos o clichê da mulher misteriosa e vulnerável que será descoberta e salva por um cavalheiro que se tornará seu herói.
Amor sem erotismo
Freud revela que esse tipo de homem não consegue conciliar, em uma mesma mulher, amor e erotismo. Ele sempre terá mais de uma: aquela que será sua esposa, mãe dos filhos, a rainha do lar, e outras, para satisfazer suas reais necessidades eróticas. A uma ele ama, mas não deseja; às outras deseja, mas nunca amará como esposas. No caso de Sophie e Benedict, resta esperar os próximos capítulos. De qualquer forma, a série perdeu muito ao reduzir a clichês personagens que tinham potencial de render tanto ou mais que Penélope e Colin.
Francisco Neto Pereira Pinto é Psicanalista, Escritor e Professor Universitário. Doutor em Letras, é autor dos livros À beira do Araguaia e Saudades do meu gato Dom. @francisconetopereirapinto
