Foto: Divulgação
Violeiro e cantor Chico Lobo celebra 45 anos de viola, do rock a bossa nova, com lançamento de seu 36º álbum na carreira pela Kuarup
Nesse ano de 2026, Chico Lobo completa 45 anos de viola. Sua estreia se deu em 1981, no Teatro Municipal de São João Del Rei, sua terra natal, integrando o seu primeiro grupo musical, o Grupo Mutirão. Em 2026, o violeiro também completa 30 anos do lançamento de seu primeiro álbum No Braço Dessa Viola, em 1996, que lhe rendeu ser finalista em 1997, do antigo Prêmio Sharp da Música Brasileira, como revelação da Música Regional Brasileira. Esse álbum rendeu também dez shows na Itália, sua primeira turnê internacional, que despertou assim, o interesse da imprensa mineira, sobre sua carreira e ajudou na consolidação do reconhecimento do seu fazer artístico. Agora em 2026, ele também completa 20 anos de relacionamento com a viola de arame de Portugal, iniciado em 2006 numa parceria com Pedro Mestre da viola campaniça do Alentejo, fato que gerou o álbum Encontro de Violas, o DVD De Minas ao Alentejo e vários encontros de discussão, chamados Encontros da Violas D'arame realizados em Portugal, Açores, Madeira e três edições no Brasil.
De lá pra cá, tantas estradas, tantos projetos, tantos álbuns lançados, programa de TV e rádio, projeto social, de ensino gratuito da viola a crianças e jovens e tantos prêmios, que vieram conceituar seu trabalho e sua carreira. Chico Lobo imprimiu nesses anos, uma digital, uma assinatura. E é com ela, que vem a 45 anos, passando o seu Recibo de Violeiro. Do que é, do que escolheu pra viver, criar sua família e construir sua história.
Assim o álbum Recibo de Violeiro, trigésimo sexto trabalho de sua carreira, vem como celebração dessas datas, que marcam o ano de 2026 e o faz ser tão especial na vida do violeiro. Com um repertório totalmente autoral e parcerias com Thales Martinez, Zeca Baleiro, John Ulhoa e Carlos Di Jaguarão, o disco apresenta participações maravilhosas de artistas que Lobo admira e que passaram com o tempo a admirar seu trabalho. Zeca Baleiro, Fernanda Takai e John Ulhoa do Patu Fu, Jane Duboc, Leila Pinheiro, Humberto Gessinger líder do Engenheiros do Hawaii e seu antigo Grupo Mutirão. Produzido pela gravadora Kuarup, quem assina a produção e direção musical é seu parceiro Ricardo Gomes, que desde 2016 com o álbum Viola de Mutirão, vem comandar com sua sensibilidade os álbuns do violeiro. Na produção geral sua parceira de vida Ângela Lopes da empresa Viola Brasil e que juntos completaram nesse ano de 2026, 32 anos de caminhada juntos, produtora e esposa.
Os músicos que se fazem presentes, já se tornaram parceiros de estrada de Chico Lobo: Léo Pires nas baterias, Marcelo Fonseca violinos, Sérgio Rabelo nos cellos, vocais de Gih Saldanha, baixo, violões, teclados e direção de Ricardo Gomes, além de músicos que chegam pra somar as sonoridades, Sérgio Saraiva, acordeom. Fernando Bento, cavaquinho e Del Maia percussão. Uma celebração, assim pode se dizer desse novo álbum de Chico Lobo, que com alegria e emoção apresenta para todos nós o seu Recibo de Violeiro.
Por Chico Lobo: "Eu sempre fiz a analogia, que uma árvore pra florescer, teria de ter raízes forte e profundas e no meu caso, é no solo da tradição. Assim seu tronco seria forte e vigoroso, possibilitando uma copa frondosa, que poderia se abrir pra diálogos. Acredito que a copa da minha árvore musical, floresceu com muita boniteza nesse álbum Recibo de Violeiro e assim levou minha música, meu canto, para novos e lindos diálogos"
Zeca Baleiro sobre Chico Lobo
Chico Lobo é um compositor, violeiro e mapeador musical do Brasil. Sua alma e viola estão sempre inquietas, buscando um novo som, um tempero novo para colocar no seu caldo de sabedor das entrâncias e reentrâncias da cultura popular brasileira. Chico é catira e rock, modão e reisado, blues e congada. Chico é um Brasil grande e bonito, generoso e forte, musical, brejeiro, com um sertãozão de amor no peito. Chico é um craque, com coragem de se dizer brasileiro e de ser (talvez por isso até) profundamente universal.
Faixa a faixa
1- Cantar é um Dom Maior (Chico Lobo): faixa que abre o álbum Recibo de Violeiro. Chico Lobo a compôs como forma de agradecer o sim da artista Leila Pinheiro de participar do álbum. Ele ficou super emocionado e começou a cantarolar em casa "desejo a você tempos de alegria, que o sol clareia a terra ilumine seu dia". Quando a música ficou pronta, ele pensou que era uma bela forma de abrir sua cantoria e desejar a todos, que o acompanham, nesses 45 anos de viola, bons sentimentos. Assim nasce um emocionante samba rural, que já aquece o coração e prepara a todos pra audição do álbum como um todo.
2- Coração de Sertãozinho (Chico Lobo e Zeca Baleiro): – participação de Zeca Baleiro: a relação de Chico Lobo e Zeca Baleiro já é antiga, primeira vez que dividiram o palco foi em 1997. Nessa comemoração de 45 anos de estrada, Chico pediu ao Zeca que lhe mandasse uma letra, para mais uma parceria e surge a bela Coração de Sertãozinho. Ares de música folk, com violões de aço e violino, que se destacam ao lado da viola de Chico Lobo. E pra completar a presença de Zeca Baleiro, que divide os vocais com o violeiro! Um belo resultado sonoro. "Pelo mundo vi sertão, coração de sertãozinho".
3- Recibo de Violeiro (Chico Lobo e Thales Martinez): participação de Humberto Gessinger. Cantiga que traz um dos parceiros mais presentes atuais na obra de Chico Lobo, Thales Martinez, um excelente letrista. Um rock rural, que dá nome ao álbum e tem a presença marcante do roqueiro Humberto Gessinger, líder do Engenheiros do Avaí e que em seu trabalho solo namora com a viola.
Chico Lobo sempre o acompanhou a distância e surgiu a ideia de convidá-lo. E o aceite veio com uma revelação, Gessinger já conhecia o trabalho de Chico ao assisti-lo nos quartos de hotéis, quando passava por Minas, era o Viola Brasil, programa que o violeiro apresentou por 18 anos, na Tv Horizonte de BH. O resultado é pulsante, forte e emociona! " Pago em verso a quem me cobra, compro o sonho a prestação".
4- Seu Olhar (Chico Lobo): participação de Leila Pinheiro. Seu Olhar tem ares de uma toada rural, misturada com bossa nova. Uma viola caipira com acordes lindos, que se junta ao piano e a voz sensível de Leila Pinheiro, cantora e pianista ímpar da música popular brasileira e que Chico Lobo já admirava de muito tempo. A cantiga é uma declaração de amor do violeiro à eterna namorada e companheira Angela Lopes, esposa e produtora do violeiro a 32 anos.
Angela carioca é também uma profunda admiradora de Leila Pinheiro. Chico Lobo faz o convite à cantora, que aceita participar e ele nas férias de janeiro, compõe então essa cantiga, que Leila de imediato escolhe pra cantar no álbum. Que essa cantiga possa embalar os amores mundo agora. "Te dou essa canção, te dou meu coração, nessa noite sublime de luar"
5- A Manteiga e o Pão (Chico Lobo): cantiga da leva antiga de Chico Lobo, que ele ainda não havia gravado. Uma toada romântica, que era a mais cantada nas serestas em São João dele Rei, sua terra natal, pelo seu pai seresteiro Aldo Lobo, na terça do Aldo (seresta que ele fazia no Bar do Antônio José). Lobo tem uma relação afetiva com essa canção e após canta-la no casamento de sua filha Luísa, em abril desse ano, a pedido dela, ele percebeu que era hora de grava-la. Uma belíssima homenagem às suas raízes. "Eu juro não tem jeito, você tá no meu peito que me manteiga no pão".
6- Goiabada com Queijo (Chico Lobo e John Ulhoa): um calango mineiro bem balanceado, parceria com John Ulhoa, que a pedido da saudosa produtora Rossana Decelso (em memória), que já havia produzido o álbum Caipira do Mundo, de Chico Lobo, lançado em 2010 pelo selo Saravá, enviou essa letra divertidíssima para o violeiro. A música saiu em 20 minutos, pronta de imediato e Chico enviou então por tel, para John, que afirmou, ser essa a parceria mais rápida que ele já havia feito. O resultado é de rara beleza e de uma mineiridade que contagia. Conta com as belíssimas participações de Fernanda Takai e John Ulhoa, ambos da banda mineira Patu Fu. Resultado maravilhoso. "Quando ralo o joelho lembro de minha mãe, quando como goiabada lembro de mina vó".
7- Batuquinho (Chico Lobo): um batuque de viola, inspirado no seu mestre Seu Nelson Jacó (em memória), que em sua cidade, Jequitibá tocava e dançava os batuques de viola. Onde pela primeira a pedido de seu mestre, Chico Lobo dançou o batuque no meio da praça com o povo. Aqui Chico Lobo convida o Grupo Mutirão, seu primeiro grupo musical estudantil e com o qual a 45 anos atrás, estreou nos palcos. Precisamente em 1981, no Teatro Municipal de São João Del Rei, com o show Vozes da Seca. E fica emocionante esse reencontro 45 anos depois, nessa faixa, que é tão brejeira e mergulha na cultura da viola, que vem dos sertões de Minas Gerais. "Violinha lá do meu sertão, tá tão bonitinha na minha mão".
8- Águas do Meu Amor (Chico Lobo): participação de Jane Duboc. A preservação de nossas águas de nossos biomas, sempre esteve presente na obra de Chico Lobo. Aqui vem essa belíssima e tocante toada ecológica. E a música ganha uma força imensa com a participação de Jane Duboc, uma das grandes cantoras desse nosso Brasil. Natural de Belém do Pará Jane Duboc une sua voz à viola de Chico Lobo. Um encontro de grande poesia. Chico Lobo a compôs para sua neta Leticia, que tem três anos de idade e já canta a música para total emoção do avô. "Cada criança é flor, que nasce na beira d'água e declaração o seu amor pro rio que no mar deságua".
9- Na Companhia de Bichos (Chico Lobo): aqui o violeiro revisita e homenageia as folias de Reis. Manifestação do ciclo natalino presente em todo Brasil. Chico sempre conta, que se fez violeiro pela admiração e estupor, que as folias causavam em seu coração de criança, quando os pais as recebiam na sua casa na época do natal. A viola sempre foi o instrumento do mestre da folia e assim Chico Lobo aos 7 anos de idade, se encantou com a viola. "Eis que nasceu nosso salvador, embrulhado em paninhos Jesus Redentor".
10- Viola do Tempo (Chico Lobo e Carlos Di Jaguarão): autêntica moda de viola, que fecha o álbum. A moda de viola, é um gênero caipira, onde se canta e a viola em terças acompanha o canto em solos. Aqui uma reflexão do seu tempo de estrada, tendo sempre a companhia de sua viola. Destaque para o vocal que revisita os cantos de trabalho na cultura popular tradicional. Bela parceria de Chico Lobo com o poeta do Rio Grande do Sul, Carlos Di Jaguarão. Assim na mais pura tradição caipira, Chico Lobo arremata o seu Recibo de Violeiro. "Vou dizer aqui procês, passa o tempo, corre os anos e a viola me acompanha, pra cantar mais uma vez".
Sobre Chico Lobo
Natural de São João Del Rey o violeiro Chico Lobo tem mais de 40 anos de carreira e é considerado pela crítica como um dos artistas mais atuantes no cenário nacional na divulgação e valorização da cultura de raiz brasileira. Com 27 CDs lançados, dois DVDs, livro e shows por todo o Brasil e diversos países como Portugal, Itália, China, Canadá, Argentina, Chile, Colômbia, o músico canta suas raízes e as conecta com nossa contemporaneidade. Folias, catiras, modas, batuques, causos e toques de viola, desfilam com alegria em suas apresentações. Venceu por quatro vezes consecutivas (2015, 2016, 2017 e 2021) o Prêmio Profissionais da Música como Melhor Artista Regional, prêmio que acontece anualmente em Brasília. O artista mantém em sua cidade natal o Instituto Chico Lobo, que desenvolve projeto de ensino de viola e cultura raiz para as crianças das zonas rurais na cidade mineira de São João Del Rey. Desde 2006 Chico Lobo mantém relação artística com Portugal no Encontro de Violas em parceria com o músico e parceiro português Pedro Mestre, representante maior da viola campaniça da região do Alentejo. Esse encontro gerou o CD Encontro de Violas e o DVD De Minas ao Alentejo dando vida a um encontro ainda maior que já vai para a 11° edição do Encontro de Violas de Arame. Chico Lobo, o representante brasileiro nesses encontros, já trouxe duas edições presenciais ao Brasil e uma virtual. Amizade e partilha pelas cordas da viola que une Brasil e Portugal. Em 2015 Maria Bethânia escolheu sua cantiga Criação, para compor o repertório de seu show e DVD Abraçar e Agradecer, comemorando os 50 anos de carreira. Depois Bethânia, gravou participação no álbum Viola de Mutirão, cantando a moda de viola Maria, que Chico Lobo fez em sua homenagem. Apresentador de TV, de rádio, produtor musical, escritor, cantor, o violeiro inquieto faz com que sua obra torne a aldeia global mais caipira.
Sobre a Kuarup
Especializada em música brasileira de alta qualidade, o seu acervo concentra a maior coleção de Villa-Lobos em catálogo no país, além dos principais e mais importantes trabalhos de choro, música nordestina, caipira e sertaneja, MPB, samba e música instrumental em geral, com artistas como Baden Powell, Renato Teixeira, Ney Matogrosso, Wagner Tiso, Rolando Boldrin, Paulo Moura, Raphael Rabello, Geraldo Azevedo, Vital Farias, Elomar, Pena Branca & Xavantinho e Arthur Moreira Lima, entre outros.
Por Daniela Ribeiro
