Foto: Divulgação Florence
Quando a dor vira rotina: entenda como o controle da dor pode devolver autonomia e bem-estar a pacientes
Acordar com dor, passar o dia com dor e ir dormir com dor. Para milhões de brasileiros, essa é a rotina. Dados do Ministério da Saúde reunidos em uma pesquisa da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED) mostram que a dor crônica atinge de 30% a 40% dos adultos no país.
O tema ganha ainda mais destaque neste mês em que é celebrado o Dia Mundial de Cuidados Paliativos, no dia 10 de outubro. A Aliança Mundial de Cuidados Paliativos e Hospice (WHPCA) escolheu o controle da dor como tema das celebrações de 2026. Aliviar o sofrimento físico é uma das bases do cuidado a pacientes com doenças graves, e esse cuidado vale tanto para quem está em fase avançada de uma doença quanto para quem convive há anos com uma dor persistente.
“A dor não é algo que o paciente precisa aceitar calado. Ela pode e deve ser avaliada e tratada. Quando conseguimos controlar a dor, devolvemos à pessoa a possibilidade de voltar a fazer o que dá sentido à vida dela”, afirma a médica paliativista da Florence Hospital de Transição, Yanne Amorim.
É importante saber que há uma distinção entre dor aguda e dor crônica. A aguda funciona como um alarme do corpo, ela aparece depois de uma lesão, de uma cirurgia ou de uma inflamação e tende a passar quando a causa é resolvida. A crônica dura mais de três meses e muitas vezes deixa de ser só um sintoma para virar uma doença por si só.
A dor também pode ser classificada por sua origem: a dor nociceptiva é causada por lesão ou inflamação em tecidos como músculos, ossos, articulações e órgãos internos, comum na artrose, nas lombalgias e em alguns tumores; a neuropática é causada por lesão ou disfunção no sistema nervoso e é descrita como queimação, choque ou formigamento, como na neuropatia diabética, após o herpes-zóster e em efeitos da quimioterapia; já a nociplástica aparece quando o sistema nervoso processa a dor de forma alterada, sem uma lesão clara que a explique, a fibromialgia é o exemplo mais conhecido; e a dor mista combina mais de um desses mecanismos, o que é frequente em pacientes oncológicos.
Abordagem multidisciplinar
O controle da dor funciona melhor quando envolve uma equipe com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, nutricionistas entre outros profissionais. Esse modelo de cuidado integrado é a base do trabalho da Florence Hospital de Transição, em Salvador, o primeiro hospital de transição do Norte e Nordeste. Nas unidades da Bahia e de Pernambuco, pacientes que saem da fase aguda de uma internação, que convivem com doenças crônicas ou que estão em cuidados paliativos são acompanhados por uma equipe multidisciplinar.
Cada caso ganha um plano terapêutico individualizado, em que o controle da dor é avaliado de forma contínua e ajustado conforme a evolução do paciente. Para quem é atendido, isso significa mais conforto, recuperação de funções e da independência, menos risco de voltar a ser internado e uma volta para casa mais segura.
Essa abordagem não serve apenas para quem está no fim da vida. O controle da dor nos cuidados paliativos pode e deve começar no diagnóstico de uma doença grave e caminhar junto com os tratamentos que buscam a cura ou o controle da doença.
“Cuidado paliativo não é desistir do paciente, é justamente o contrário. É garantir que, em qualquer fase da doença, ele tenha a dor controlada, autonomia para tomar decisões e qualidade de vida ao lado de quem ama. Controlar a dor é o primeiro passo para tudo isso”, reforça a Dra. Yanne Amorim.
Os prejuízos além do corpo
Conviver com a dor afeta quase todas as áreas da vida. Entre os principais prejuízos estão distúrbios do sono, fadiga, perda de mobilidade e de independência para tarefas simples. A dor também leva ao isolamento social e está associada a ansiedade e depressão, o que cria um ciclo de manutenção da doença, pois quanto mais o sofrimento emocional, mais intensa a dor parece, e vice-versa.
“Muitas vezes o paciente chega dizendo que a dor tirou dele o trabalho, o sono, o convívio com a família e até a vontade de sair de casa. Por isso, não olhamos só para a nota de 0 a 10. Olhamos para a pessoa inteira e para o que essa dor está roubando dela”, explica a Yanne Amorim.
O tratamento depende do tipo e da intensidade da dor e deve ser individualizado. Além de remédios, há procedimentos intervencionistas e terapias não farmacológicas, como fisioterapia, exercícios orientados, acupuntura, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico.
Por Monique Lôbo
