Dra. Manuela Lordelo / Foto: arquivo pessoal
Câncer de mama: os rins também precisam ser monitorados durante a quimioterapia
Durante o tratamento do câncer de mama, os cuidados costumam estar concentrados nos efeitos da própria doença e nas reações provocadas pela quimioterapia, mas outro órgão também merece atenção: os rins. Segundo a médica nefrologista Manuela Lordelo, algumas das medicações utilizadas no tratamento oncológico são eliminadas parcial ou predominantemente pelos rins e, dependendo do medicamento, da condição clínica da paciente e da hidratação, podem aumentar o risco de alterações na função renal. “O rim participa diretamente do processamento e da eliminação de diversos medicamentos. Por isso, acompanhar sua função durante o tratamento do câncer é uma medida de segurança e não deve ser deixado em segundo plano”, explica.
O impacto não é apenas teórico. Um levantamento com 1.611 pacientes com câncer de mama submetidas à quimioterapia, apresentado no congresso da American Society of Clinical Oncology (ASCO), identificou lesão renal aguda em 7,8% das pacientes após o início da quimioterapia. O mesmo estudo reforçou que pacientes que já apresentavam algum comprometimento renal antes do tratamento tinham maior probabilidade de desenvolver alterações renais posteriormente. “Esse dado mostra por que é importante conhecer a função dos rins antes e durante o tratamento. A presença de uma alteração renal prévia pode mudar a forma como alguns medicamentos são administrados e exige um acompanhamento mais próximo”, destaca Manuela.
A prevenção começa com medidas simples, como manter uma hidratação adequada quando ela for recomendada pela equipe responsável e realizar periodicamente exames que avaliam a função renal, especialmente a creatinina e a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe). A necessidade de hidratação, porém, não é igual para todas as pacientes e deve ser individualizada. Algumas terapias apresentam maior potencial de toxicidade renal e determinadas drogas exigem cuidados específicos para reduzir esse risco. Diretrizes para manejo de lesão renal relacionada a medicamentos antineoplásicos, por exemplo, recomendam hidratação adequada em tratamentos com cisplatina, uma medicação que pode causar comprometimento renal.
Para a nefrologista, a mensagem principal é que o acompanhamento dos rins deve acontecer de forma integrada ao tratamento oncológico. “A paciente não precisa esperar sentir alguma coisa para investigar. Muitas alterações da função renal podem aparecer primeiro nos exames, antes de surgirem sintomas. Identificar uma mudança precocemente permite que a equipe avalie hidratação, medicamentos e outras possíveis causas, reduzindo o risco de uma complicação mais grave”, afirma Manuela Lordelo. O acompanhamento individualizado é especialmente importante para pacientes com doença renal prévia, idade mais avançada ou uso concomitante de medicamentos que também possam afetar a função dos rins.
Por Márcia Macedo
