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Segurança jurídica no Brasil: entrave estrutural ou oportunidade para quem sabe operar o risco? = Por José Maria Franco de Godoi Neto
A insegurança
jurídica é frequentemente apontada como um dos principais entraves ao
desenvolvimento econômico no Brasil. Mudanças frequentes de
interpretação, morosidade do Judiciário e complexidade regulatória
compõem um cenário desafiador para empresas e investidores. No entanto,
essa leitura, embora correta, pode ser incompleta.
Isso porque
parte relevante do problema não está apenas na existência de incerteza,
mas na forma como ela é incorporada (ou ignorada) pelas organizações em
seus processos decisórios. Em outras palavras, mais do que um obstáculo
absoluto, a insegurança jurídica pode se tornar uma variável estratégica
para aqueles que sabem operá-la.
A ideia de uma “segurança
jurídica ideal”, marcada por previsibilidade plena e estabilidade
normativa, é, na prática, inexistente em qualquer jurisdição. Mesmo em
economias maduras, empresas lidam com mudanças regulatórias, disputas
judiciais e diferentes interpretações legais. A diferença está na
capacidade de antecipar, mitigar e precificar esses riscos.
No
Brasil, essa capacidade ainda é desigual. Muitas empresas operam sob uma
lógica reativa, tratando o jurídico como instância de resolução de
conflitos, e não como ferramenta de estruturação. Com isso, deixam de
utilizar instrumentos já disponíveis para reduzir incertezas e aumentar a
segurança das operações.
Cláusulas contratuais mais robustas,
mecanismos de resolução de disputas como a arbitragem, estruturas de
garantias bem desenhadas e uma análise mais sofisticada do ambiente
regulatório são exemplos de ferramentas que podem transformar
significativamente o perfil de risco de uma operação.
Além
disso, a correta precificação do risco institucional permite decisões
mais racionais sobre investimento e expansão. Em vez de evitar
determinados setores ou mercados por conta da insegurança, empresas mais
preparadas ajustam suas expectativas de retorno e estruturam operações
compatíveis com o nível de risco envolvido.
Esse movimento é
particularmente relevante em um país como o Brasil, onde o prêmio de
risco já está embutido em diversas variáveis econômicas, como taxas de
juros e custo de capital. Saber navegar esse ambiente pode, inclusive,
gerar vantagens competitivas importantes em relação a concorrentes menos
preparados.
Isso não significa minimizar a importância de
avanços institucionais ou de maior estabilidade regulatória. Ao
contrário, tais melhorias são fundamentais para o desenvolvimento de
longo prazo. No entanto, enquanto esse cenário ideal não se concretiza,
há espaço e necessidade para uma abordagem mais pragmática.
Empresas
que desenvolvem uma cultura de gestão de risco jurídico deixam de ser
reféns da incerteza e passam a utilizá-la como elemento estratégico. Em
vez de esperar por um ambiente perfeito, constroem, dentro das condições
existentes, estruturas mais resilientes e eficientes.
No fim, a
diferença não está apenas no ambiente em que se opera, mas na
capacidade de compreendê-lo. E de agir com inteligência diante dele.
José Maria Franco de Godoi Neto – advogado, mestre em direito USP/SP, mestre em Gestão de Risco FEA/USP e especialização em Finanças pela FGV/SP, sócio do Franco de Godoi Advogados e membro fundador da STRUCTURA Investments
