Foto: Enrico Marcovaldi / Arquivo O Candeeiro
Baleias Jubarte batem recorde de natação!
As baleias-jubarte estabeleceram um novo recorde mundial de natação.
Uma jubarte da Austrália veio para o Brasil e uma nossa foi para a Austrália no que pode ser considerado um intercâmbio cultural. É o que mostra uma publicação na revista Royal Society Open Science que saiu esta semana.
A migração de baleias-jubarte entre populações já era conhecida, mas nunca numa distância tão grande. A jubarte australiana foi fotografada em Hervey Bay, na costa leste da Australia em 2007 e 2013 e apareceu no litoral de Ilhabela em 2019. Já a baleia brasileira era frequentadora do Banco dos Abrolhos, principal área de reprodução da espécie no Brasil. Ela foi fotografada em Abrolhos em 2003 e agora foi encontrada em Hervey Bay em setembro de 2025.
Embora não se saiba a rota que estas baleias utilizaram, a menor distância que elas teriam que percorrer seria de 14.200 km para a que veio para o Brasil e de 15.100 km para a que foi para a Austrália, um novo recorde mundial para as jubartes.
De acordo com o médico veterinário Milton Marcondes, Coordenador de Pesquisa do Projeto Baleia Jubarte e um dos autores do artigo, este tipo de descoberta traz informações importantes para a conservação das jubartes: “A gente já havia registrado movimentações de baleias do Brasil com o Equador e com a África do Sul, que são população de jubartes vizinhas, mas nunca um deslocamento tão grande. Esse fluxo de indivíduos entre diferentes populações ainda é relativamente raro, mas pode se tornar mais frequente com o crescimento das populações de jubarte, que estão se recuperando da intensa caça que sofreram no século XX”.
Marcondes explica que o intercâmbio é importante pois no caso de populações que foram muito reduzidas, a entrada de animais de fora poderia ajudar em sua recuperação e melhorar a variabilidade genética a longo prazo.
Existem sete populações de baleias-jubarte no Hemisfério Sul. A população brasileira já teve contato com pelo menos outras quatro populações, incluindo agora a da costa leste da Austrália.
Essas descobertas aumentaram nos últimos anos graças ao Happywhale, um programa que utiliza inteligência artificial para comparar fotos de baleias do mundo todo e ajuda a identificar os indivíduos onde quer que eles sejam fotografados.
Funcionamento do Happywhale.
Happywhale é uma plataforma que usa dados científicos e de ciência cidadã para a foto-identificação de espécies de cetáceos no mundo. No caso da baleia-jubarte primeiro o programa identifica alguns pontos de referência da cauda da baleia para que ela seja corretamente posicionada, depois dois algoritmos fazem a comparação. Um deles compara o padrão de distribuição de branco/preto da face ventral da cauda da baleia (todas as marcas e riscos), enquanto o outro algoritmo compara o padrão do serrilhado da borda da cauda. Essas duas características são únicas para cada baleia assim como as nossas impressões digitais. Podemos reconhecer cada indivíduo, mesmo que este ganhe algumas marcas ao longo da vida como por exemplo uma mordida de orca ou arranhões por redes de pesca.
Intercâmbio Cultural
O intercâmbio entre as populações pode afetar um aspecto pelas quais as jubartes são bem conhecidas: seu canto. Cada população tem um canto específico que é usado pelos machos para sinalizar sua presença para as fêmeas e alertar outros machos da sua presença. O canto vai sofrendo modificações ao longo do tempo, com o acréscimo ou retirada de notas até que ele fique diferente depois de alguns anos. Isso é chamado de evolução do canto. Mas algumas vezes o canto sobre uma mudança muito grande de um ano para o outro, o que é chamado de revolução no canto. Acredita-se que essas revoluções acontecem quando o macho de uma outra população chega cantando diferente e acaba influenciando as baleias locais a incorporarem partes deste novo canto em sua composição, uma verdadeira revolução cultural.
Riscos do Intercâmbo
Um possível risco do intercâmbio é a disseminação de doenças. Nas jubartes do Brasil já foi detectada a presença de morbilivirus, um agente patológico que pode causar a morte dos animais. “Existe o risco de que, na movimentação de baleias entre diferentes populações, algumas doenças possam ser carreadas de uma população para outra. Entender como se dá e com que frequencia ocorrem essas migrações pode nos ajudar a compreender os riscos para a conservação das jubartes, tanto no Brasil como na Austrália” complementa Marcondes.
Sobre o Projeto Baleia Jubarte
Atuando há mais de 35 anos na pesquisa e conservação das baleias-jubarte e do ambiente marinho no Brasil, o Projeto Baleia Jubarte é realizado pelo Instituto Baleia Jubarte em parceria com a Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, integra a Rede BIOMAR juntamente com outros projetos patrocinados pela empresa (Projeto Albatroz, Coral Vivo, Golfinho Rotador e Meros do Brasil), que atuam de forma integrada na conservação da biodiversidade marinha do Brasil. Por meio deste projeto são realizadas ações de pesquisa científica, turismo responsável, ações de educação ambiental, bem como atividades de conservação que tem contribuído para o sucesso da recuperação da população de jubartes do atlântico sul ocidental.
Por Giácomo Mancini
