Foto: Igor Alisson
Tecnologia da Unicamp transforma crajiru, beterraba e açaí em opção de corante natural para a indústria
A aparência é um dos fatores que influenciam a decisão de compra de um alimento. Por essa razão, a indústria
alimentícia recorre a recursos como corantes para tornar seus produtos
mais atrativos. Nos últimos anos, contudo, além
do valor nutricional, os consumidores passaram a observar com mais
atenção a composição dos alimentos e a procedência de seus ingredientes,
com preferência crescente por insumos de origem natural. Nesse contexto, pesquisadores do
Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas da Universidade Estadual de Campinas (CPQBA)
desenvolveram um corante obtido a partir de espécies como crajiru,
planta arbustiva comumente encontrada na Floresta Amazônica, além de
outras fontes vegetais.
A
demanda por corantes naturais têm ganhado espaço na indústria de
alimentos e também no setor cosmético. Nesse segmento, além da
preocupação com tonalidade e aparência, cresce o debate sobre o uso de matérias-primas naturais
e
a adoção de práticas que dispensem testes em animais. Um dos principais
desafios, em ambas as áreas, é a obtenção de corantes com boa
estabilidade frente a variações de pH, temperatura e incidência de luz,
obstáculos que a tecnologia
desenvolvida busca superar.
A
investigação teve início a partir de uma conversa entre a equipe
coordenada Rodney Alexandre Ferreira Rodrigues, pesquisador do CPQBA, e
Marcos Félix, inventor independente, que trabalhava, em parceria com os
pesquisadores da Unicamp, no
desenvolvimento complementar de outra tecnologia, voltada à obtenção de extrato clarificado de jambu. Dessa conversa, surgiu o desafio que deu origem ao estudo: desenvolver corantes naturais estáveis de coloração vermelha, laranja, rosa ou arroxeada com potencial de rápida absorção pelo mercado. Entre as espécies sugeridas
estava o crajiru, já conhecido pelos pesquisadores em trabalhos anteriores.
“A pesquisa teve início com a sugestão de uso da Fridericia chica [nome científico do crajiru], espécie já conhecida pela equipe, apoiada pela divisão de Agrotecnologia no fornecimento de material vegetal de qualidade. A ideia foi desenvolvida de forma colaborativa, com a incorporação de outros extratos e a atuação conjunta dos pesquisadores nas etapas de controle analítico e microbiológico, por exemplo, garantindo a qualidade da tecnologia para aplicações alimentícia, cosmética e têxtil”, explica Rodney Rodrigues, pesquisador do CPQBA e inventor da tecnologia.
Neste
processo, Félix agregou seu conhecimento em extratos e corantes a
partir de outras fontes. “Eu já possuía experiência prévia com extratos
para outras finalidades e corantes de beterraba e açaí, ambos
caracterizados pela coloração
vermelha. No entanto, esses extratos isolados não apresentavam o
desempenho necessário; eles demandavam sinergia com outros componentes
para se transformarem em corantes viáveis e estáveis ", explica. Diante
disso, surgiu a oportunidade de unir esses
três extratos em uma composição única para alcançar um corante com maior desempenho e estabilidade.
Estabilidade e desempenho do corante natural
Hoje,
o mercado conta com dois tipos de corante vermelho, sendo os derivados
de cochonilha, de origem animal, e os óxidos, como o óxido de ferro, que
podem apresentar toxicidade. A partir dessa limitação, o grupo passou a
investigar uma alternativa
baseada exclusivamente em extratos vegetais. O estudo adotou a copigmentação como estratégia de estabilização.
Como
os três extratos obtidos nos estudos com de crajiru, açaí e beterraba
apresentam colorações distintas, sua combinação permite obter diferentes
tonalidades de corante, dentro das possibilidades que os extratos
oferecem. “Quando alteramos a
proporção de beterraba, por exemplo, modificamos o tom final, de forma
semelhante a um sistema Pantone”, explica Félix. Na prática, isso permite alcançar tonalidades mais alaranjadas ou avermelhadas, por exemplo.
No
processo, os pesquisadores analisaram os compostos orgânicos
responsáveis pela coloração para verificar se, ao serem combinados,
apresentariam um comportamento diferente em relação à degradação de
antocianinas, que dão a cor. Os resultados
indicaram que, quando associados, os compostos mantêm a coloração por
mais tempo do que quando utilizados de forma isolada.
O
efeito da copigmentação funciona como uma proteção mútua entre as
moléculas. "É como uma armadura invisível para o pigmento, o copigmento,
geralmente sem cor, se dobra ao redor das moléculas que dão cor,
dificultando o acesso dos agentes
degradadores, preservando a coloração original", compara José Cláudio
Klier Monteiro Filho, egresso da Unicamp que concluiu o doutorado no
CPQBA. e também inventor da tecnologia. “Trata-se de um produto natural e
disruptivo. Não há atualmente no
mercado outro corante totalmente natural com esse espectro de
coloração”, afirma o pesquisador.
Outro
aspecto relevante é a concentração necessária para alcançar o efeito
desejado. Em geral, são exigidas de 100 a 200 vezes mais extratos
naturais para se obter a mesma intensidade de um corante sintético. No
caso da tecnologia desenvolvida, o
poder corante corresponde a cerca de um quarto do sintético. Embora
estes sejam mais potentes, a Fridericia chica, uma das espécies utilizadas, apresenta alta capacidade de coloração, permitindo resultados expressivos com quantidades
relativamente pequenas de extrato.
Os inventores destacam ainda que a Fridericia chica é uma planta brasileira com uso medicinal consolidado. O CPQBA mantém uma coleção de variedades, a Coleção de Plantas Medicinais e Aromáticas (CPMA),
oriundas de diferentes regiões do país e que possibilita a seleção de
genótipos mais adequados ao cultivo e à produção. A coleta do material
vegetal ocorre de forma não destrutiva, sem eliminar ou danificar
significativamente o indivíduo
vegetal como um todo, e segue princípios de sustentabilidade ambiental,
contribuindo para a valorização da biodiversidade nacional.
Aplicações na indústrias têxtil, alimentícia e cosmética
Com
potencial de aplicação tanto na indústria alimentícia quanto no setor
cosmético e têxtil, a tecnologia se destaca pela versatilidade do
corante natural, cuja tonalidade pode ser ajustada sem comprometer suas
propriedades funcionais.
Outro diferencial é a atividade antimicrobiana dos extratos, que permite seu uso como conservante natural em substituição a compostos sintéticos.
Além
de auxiliar no controle de microrganismos, o ingrediente contribui para
a conservação dos produtos ao longo do processo produtivo, ampliando
sua segurança e estabilidade para aplicações industriais. “Isso é
relevante diante do uso
indiscriminado de conservantes sintéticos pelas indústrias, prática que
pode levar à resistência microbiana. Portanto, a tecnologia também possui esse apelo de saúde pública e sustentabilidade ambiental”, explica a pesquisadora
do CPQBA, Marta Cristina Teixeira Duarte, que também participou do desenvolvimento da invenção.
Para chegar ao mercado, a tecnologia precisa ser licenciada por
empresas ou instituições interessadas em aplicar processos
ambientalmente sustentáveis em suas operações. Quem viabiliza a conexão
entre pesquisa e mercado na Unicamp
é a Agência de Inovação Inova Unicamp que, por meio do formulário de conexão com empresas,
operacionaliza o processo de transferência de tecnologia. Além dessa,
outras tecnologias estão disponíveis para licenciamento no Portfólio de Tecnologias da Universidade.
