Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/Arquivo O Candeeiro
Má gestão de resíduos amplia perdas econômicas e ameaça biodiversidade no Brasil
No debate ambiental brasileiro, poucas discussões continuam sendo tratadas de forma tão superficial quanto a gestão de resíduos. Embora a preservação da biodiversidade costume aparecer associada à proteção de florestas, rios e espécies ameaçadas, cresce entre especialistas, investidores e empresas a percepção de que o funcionamento das cidades passou a exercer papel central sobre a capacidade do país de preservar seus próprios recursos naturais. Em um cenário de pressão internacional por rastreabilidade, economia circular e redução de emissões, o lixo deixou de representar apenas um problema urbano para se consolidar como um gargalo econômico, industrial e ambiental.
Os números ajudam a revelar a escala estrutural do problema. Segundo o Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2025, o país ainda destina de maneira irregular cerca de 28 milhões de toneladas de resíduos por ano. Ao mesmo tempo, a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA) estima que mais de 40% do lixo produzido nacionalmente ainda tenha destinação inadequada, incluindo lixões e áreas sem controle ambiental. O impacto ultrapassa a deterioração visual das cidades. A má gestão dos resíduos contaminam lençóis freáticos, compromete cadeias produtivas, pressiona biomas estratégicos e amplia custos operacionais para empresas e municípios.
Para Eduardo Nascimento, CEO da greentech Minha Coleta, empresa especializada em rastreabilidade, logística reversa e gestão estratégica de resíduos, o Brasil ainda enfrenta o problema sob uma lógica limitada, tratando resíduos apenas como descarte, quando eles já deveriam ser vistos como ativos econômicos dentro de uma nova dinâmica produtiva. Segundo ele, a biodiversidade não pode mais ser debatida de forma isolada da infraestrutura urbana e da eficiência operacional das cidades.
“Muitas vezes, as pessoas olham para a preservação ambiental e pensam apenas em manter a floresta de pé. Mas a verdade é que o que acontece nas cidades dita o que acontece nas florestas e nos oceanos. Quando tiramos o resíduo do modelo linear e o trazemos para a economia circular, reduzimos a pressão por novas matérias-primas e evitamos que contaminantes cheguem a biomas sensíveis. Gerir o lixo é, na prática, proteger o solo que sustenta a vida e as águas que circulam pelo país”, afirma.
Na avaliação do executivo, o Brasil ainda subestima o impacto econômico provocado pela baixa capacidade de reaproveitamento de resíduos. Isso porque, além dos danos ambientais, o descarte inadequado reduz eficiência produtiva, aumenta a dependência de matéria-prima virgem e cria um ciclo de desperdício que afeta diretamente empresas, cidades e cadeias industriais inteiras. Para Eduardo, a discussão sobre biodiversidade precisa sair do campo exclusivamente ambiental para ocupar também o centro das estratégias econômicas e urbanas.
O custo invisível da má gestão de resíduos
A deterioração ambiental causada pela destinação irregular dos resíduos também ocorre longe dos holofotes. Eduardo chama atenção para aquilo que considera um dos impactos mais perigosos da crise do lixo no Brasil: a contaminação invisível causada pelo chorume. O líquido tóxico gerado pela decomposição de resíduos infiltra no solo, alcança lençóis freáticos e compromete rios que abastecem cidades e sustentam ecossistemas inteiros. Em biomas como Cerrado e Mata Atlântica, a contaminação afeta desde microrganismos essenciais para a fertilidade do solo até espécies aquáticas impactadas pela redução do oxigênio na água.
“Existe um vínculo umbilical entre o descarte mal feito e a degradação ambiental. Hoje, o Brasil gera cerca de 81 milhões de toneladas de resíduos por ano e ainda destina aproximadamente 40% desse volume para locais inadequados, como lixões. O impacto mais preocupante é justamente aquele que a população não vê. O chorume infiltra no solo, alcança o lençol freático e contamina os rios que sustentam biomas inteiros. Estamos falando de um efeito silencioso, mas extremamente agressivo para a biodiversidade e para a própria segurança hídrica do país”, afirma o executivo.
O avanço da poluição plástica ajuda a traduzir a dimensão econômica e ambiental do problema. Estimativas apontam que cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico chegam aos oceanos anualmente no Brasil. O efeito já começa a atingir não apenas a fauna marinha, mas setores inteiros da economia ligados à pesca, ao turismo e à própria indústria alimentícia. Em necropsias realizadas em animais marinhos nas regiões Sul e Sudeste, aproximadamente metade apresentava ingestão de resíduos plásticos.
Para Eduardo, o país ainda discute a questão de forma atrasada, concentrando esforços apenas em limpeza urbana, enquanto o problema exige revisão estrutural de cadeias produtivas e do próprio design das embalagens.
“O plástico talvez seja hoje um dos maiores gargalos ambientais que enfrentamos. Não estamos falando apenas de resíduos acumulados nas praias, mas de impactos que já atingem cadeias produtivas inteiras e chegam até a saúde humana através dos microplásticos. Em necropsias feitas em animais marinhos no Sul e Sudeste, cerca de 50% apresentavam ingestão de plástico. Isso mostra que o problema deixou de ser pontual. Precisamos repensar a origem dos produtos, o design das embalagens e garantir que esse material nunca chegue aos oceanos”, diz.
Apesar do aumento da pressão social sobre sustentabilidade, o Brasil ainda enfrenta falhas estruturais que impedem avanços mais consistentes em economia circular. Entre os principais entraves estão a baixa infraestrutura de triagem, a ausência de profissionalização da cadeia de reciclagem e a dificuldade de transformar consciência ambiental em prática operacional. Embora cerca de 90% da população considere a reciclagem importante, apenas 64% efetivamente realiza a separação dos resíduos.
Ao mesmo tempo, o setor ainda convive com distorções econômicas que dificultam o avanço da circularidade. Em muitos casos, o custo da resina plástica virgem permanece inferior ao do material reciclado, reduzindo o incentivo da indústria para utilização de insumos reaproveitados. Para Eduardo, o problema revela uma desconexão entre discurso ambiental e estrutura econômica.
“Ainda batemos de frente com a falta de infraestrutura e com uma desconexão muito grande entre consciência e prática. A maior parte da população entende a importância da reciclagem, mas isso ainda não se traduz completamente em comportamento. Além disso, o custo da matéria-prima virgem muitas vezes continua menor do que o do material reciclado, o que desestimula a indústria. Falta profissionalizar a cadeia, investir em infraestrutura de triagem e dar suporte real aos catadores, que hoje sustentam grande parte da reciclagem brasileira”, afirma.
Da pauta ambiental ao centro da estratégia econômica
Nos últimos anos, a logística reversa passou a ganhar protagonismo dentro desse cenário. Impulsionadas por novas exigências regulatórias e pela crescente demanda do mercado por maior controle e transparência ambiental, empresas passaram a incorporar recuperação de resíduos, monitoramento e gestão de descarte como parte das próprias estratégias de competitividade. As metas nacionais estabelecem recuperação de 32% das embalagens até 2026, movimento que vem acelerando investimentos em tecnologia, rastreamento e eficiência operacional.
Para Eduardo, a logística reversa deixou de ocupar apenas o espaço da sustentabilidade corporativa para se consolidar como ferramenta estratégica de eficiência econômica e redução de riscos operacionais.
“A logística reversa deixou de ser tendência para virar regra de mercado. Hoje, empresas entenderam que recuperar resíduos não é apenas uma obrigação ambiental, mas também uma forma de reduzir a dependência de matéria-prima, otimizar custos e fortalecer competitividade no longo prazo. Mas precisamos tomar cuidado para que isso não vire apenas rastreamento burocrático de notas fiscais. A lógica precisa estar conectada à reinserção real dos materiais na cadeia produtiva e à construção de uma economia efetivamente circular”, afirma.
A mudança de comportamento do mercado também acelerou a transformação da gestão de resíduos em tema financeiro. Segundo Eduardo, investidores passaram a observar riscos ambientais sob a ótica de exposição jurídica, reputacional e operacional, especialmente em empresas sem mecanismos eficientes de controle e rastreabilidade.
“A pressão hoje é muito concreta. Investidores passaram a olhar para a biodiversidade e gestão de resíduos como fatores de risco financeiro. Se uma empresa não consegue rastrear corretamente seus resíduos, ela fica exposta a problemas jurídicos, reputacionais e até limitações de acesso a capital internacional. O mercado não aceita mais relatórios bonitos sem comprovação. Impacto declarado sem dado consistente virou fragilidade operacional”, diz.
Nesse cenário, a tecnologia passou a desempenhar papel central dentro da nova economia circular. Ferramentas de inteligência artificial aplicadas à triagem de materiais, sensores de monitoramento logístico e plataformas integradas de dados vêm permitindo que empresas e cidades acompanhem em tempo real a destinação dos resíduos e construam indicadores mais confiáveis de eficiência operacional.
“A tecnologia é o que permite escalar essas soluções. Hoje conseguimos usar rastreabilidade, inteligência artificial e monitoramento em tempo real para garantir que os resíduos cheguem ao destino correto e para construir indicadores alinhados a padrões internacionais como GRI e SASB. Ferramentas como sensores IoT e IA aplicada à triagem estão tornando as cidades mais inteligentes e os dados ambientais finalmente confiáveis”, afirma Eduardo.
Na Minha Coleta, a estratégia de rastreabilidade já começa a produzir impactos diretos sobre redução de custos e aumento das taxas de recuperação. Segundo dados da empresa, mais de 250 mil toneladas de resíduos foram gerenciadas de forma auditável em 2025, com taxa média de recuperação de 42%, índice significativamente acima da média nacional estimada em cerca de 8%.
Em operações voltadas ao varejo farmacêutico, um dos projetos monitorados pela startup gerou economia direta de R$12,5 mil em apenas cinco meses após reestruturação estratégica da frequência de coleta. Já na construção civil, operações realizadas com a Cyrela alcançaram índice de recuperação de 84% em dez obras simultâneas, resultado considerado elevado para um dos setores que mais geram resíduos no país.
O avanço da economia circular vem transformando a gestão de resíduos em um indicador direto de eficiência econômica, competitividade industrial e capacidade de inovação urbana. Para Eduardo, o Brasil possui uma oportunidade rara de transformar a biodiversidade em vantagem competitiva global, mas ainda opera abaixo do potencial por falta de infraestrutura, governança e prioridade política.
“O Brasil tem uma biodiversidade única e um potencial de economia circular gigantesco. O que falta é coragem de tratar resíduos com a mesma seriedade com que tratamos nossas finanças. Para avançarmos, precisamos modernizar a infraestrutura de triagem, profissionalizar toda a cadeia de reciclagem e ter tolerância zero com lixões. O futuro é rastreável, circular e consciente, mas ele também precisa ser economicamente viável e tratado como prioridade estratégica para o país”, conclui.
Por Pietra Ribeiro
